Artigos na categoria ‘Propaganda’

Esses vídeos-muleta para animar uma apresentação

31/03/2011 em Propaganda | Tags: , , | 6 Comentários »

A moda pegou, mas pegou mesmo. Virou uma mania (e lugar-comum) da nação de planejadores e criadores: colocar a viseira e sentar na cadeira de diretor para produzir minidocumentários ou videozinhos para apresentar suas ideias.

Não tem derrapada, gaguejo nem cacoete; tudo é lindo, rápido, sintético e, principalmente, não suscita interrupção.

É a grande evolução dos power-points com pessoas pulando e jovens sorrindo, que substituíram aqueles com imagens-conceito de lâmpadas, escadarias e tiro ao alvo.

Como se subitamente todo o mundo fosse acometido de mudez envergonhada. Faz-se uma pequena introdução e lá vem o play com uma música animada, imagens lindas, textos de impacto e outras referências chupadas no parnaso descolado.

O improviso, o senso de oportunidade, a condução diligente a partir da observação, a body language e a sedução foram enlatados e trocados por imagens roubadas.

Em breve, tudo será feito por videoconferência com atores construídos em 3D.

Em breve, a saudade da vida real vai ser compensada por algum reality armado e vulgar a que assistiremos de cueca velha em casa.

Mas não há nada mais convincente que o não dito, mais sedutor que o deslize, mais poderoso que o subliminar que só a presença física, de carne, osso, voz e olhar pode produzir.

Andando do lado ensolarado da rua

29/03/2011 em Propaganda | Tags: , | Deixe um comentário »

A propaganda tem uma monstruosa culpa nesse mundo atolado na sucata em que vivemos. E se há culpa na impulsividade das pessoas, no desmoronamento de valores, na aceleração da vida e do progresso, sabemos enroscar ainda mais a equação, jogando gasolina na fogueira, criando estímulos e pânicos irresistíveis, através de nossas mensagens publicitárias.

Mas também podemos enxergar o mercado com esperança.

Podemos e devemos abstrair-nos da mentalidade exploratória e selvagem com o cinismo típico que nos acomete quando defendemos a propaganda (“é a vaselina do sistema”) ou transferimos responsabilidades (“sou pago para fazer isso, a culpa é do sistema”).

Rumamos sem trégua para um futuro em que as ideologias estarão a serviço da intransigência defensiva, fundamentalistas e violentas. Não há mais “humanismo” nas grandes ideologias, apenas defesa de território, medrosa e raivosa. O sentido que as orientações de outrora nos davam perdeu seu humanismo. E, com esse vácuo moral, vemo-nos nus, indefesos, cheios de incertezas. Não tem mais nenhum dogma a nos consolar.

Além disso, o mundo acelera muito mais rápido do que nossa capacidade de absorvê-lo. As revoluções tecnológicas, indispensáveis para se sobreviver na sociedade em permanente transformação, nos excitam mas sufocam.

Tudo muda tão rápido que não sabemos mais onde nos prender, como fazer escolhas, em que consultar-nos e confortar-nos.

É aqui que as marcas têm algum papel e responsabilidade, assim como a propaganda. Elas significam – ou podem significar – novos referenciais para as pessoas, e de valores também.

Não estamos tão longe assim, por incrível que pareça, dessa tomada de consciência. Qualquer marca digna, minimamente comprometida e ética, preocupa-se sempre e a todo instante com os valores dos seus consumidores, mais do que com suas qualidades. Quanto mais avançada é uma imagem, mais ela deixa de lado suas propriedades para concentrar-se nos seus potenciais clientes, nem que seja para inspirar a inovação. Quanto mais eficiente é uma comunicação de marca, mais ela se foca na ponta que interessa – o consumidor – e menos na descrição exaustiva ou mentirosa de seus benefícios. Ainda – e até no Brasil, fronteira ainda virgem de responsabilidade – as marcas representam empresas que por sua vez têm papéis sociais e ambientais que estão na mira de muitos consumidores.

O mundo da abundância em que germinou o consumismo materialista e imediatista sempre foi uma presunção, um discurso falacioso. Mas essa ilusão já quebrou seu encanto. Sabemos que iremos afundar na merda que produzimos já, já, isso sim. E o mau cheio da propaganda atributo-benefício já fede há algum tempo.

Planejamento guard rail ou off-road?

28/03/2011 em Propaganda | Tags: , | 1 Comentário »

Primeiro ato: elabora-se um raciocínio encadeado e sem arestas, sustentado por convicções intuitivas e informações contundentes, que resulta em um caminho que parece criativo o suficiente e convincente o bastante para responder a um problema de comunicação cascudo. O planejador esbalda-se.

Segundo ato: explica-se, com minúcias deliciosas, uma história apaixonante, floreada por incontáveis desdobramentos. Com o olhar do evangelizador cheio de compaixão e segurança, recebe-se a aprovação unânime do posicionamento, com humildade. O planejador goza.

Terceiro ato: ouve-se, com a contrição do dever cumprido, uma campanha que parte de uma ideia catada, sabe-se lá em que sórdido meandro autista, desgarrada da augusta inspiração planejada, vulgar, baixa, simplória, genial. O planejador chora.

Quarto ato: recupera-se o brio ferido, lucubram-se argumentações reversas e, estoicamente, ao calar da madrugada, cotovelos inchados e orgulho escapando pelo dedão do pé, põe-se a aparição brilhante no altar. O planejador conforma-se.

Finale: o cliente regozija-se.

Post-scriptum: a campanha vai ao ar por falta de tempo ou para o lixo por excesso.

Post-scriptum 2: sucesso ou volta à página em branco.

Acontece cada vez mais.

Em um universo de mídias mais fragmentadas, acidentais ou sempre novas, com consumidores mais conscientes, menos escravos de seus hábitos e que borboleteiam ao sabor do impulso fugaz, já não se tem mais certeza da construção de marca dogmática: o planejamento está em crise existencial.

Como defender a coerência do discurso de comunicação, construído no tempo e no espaço, paulatino, faseado, “planejado”, se não se tem nem recursos nem ferramental para valer-se da frequência, pedra de toque da comunicação de massa? Se o convencimento pela repetição já não percute com tanta eficiência?

É tão evidente decodificar uma campanha de publicidade que ainda se vale dos cabrestos das metodologias clássicas do planejamento que chega a ser melancólico. Falsidades de fotonovela.

Qual seria, então, nosso papel, se não podemos mais ser guardiões da ortodoxia, se a voga glamorosa do “branding” não passa de um sobressalto defensivo?

Nas nem tão novas mídias, na internet, é em um clique de sorte que se alcança a fama. É seguindo um percurso quase acidental que se cerca o consumidor. É com impacto que se mobiliza a audiência.

Nosso novo exercício é uma espécie de caça ao inesperado, no contrapé das expectativas do cliente e do consumidor. É buscar uma heterodoxia criativa e libertadora. É garimpar aquilo que ninguém espera que aquela marca, categoria ou agência possa fazer. Não devemos renunciar, no entanto, a nenhuma das ferramentas que já conhecemos — às pesquisas — mesmo que com roupagens aparentemente empoeiradas. É lá, no campo e na vida, que iremos garimpar o contrafluxo. Se ainda iremos indagar o gosto e as preferências, é para desacomodá-los e reacomodá-los em caminhos perturbadores. Nossos briefings serão desconfortáveis, mas comprovadamente desconfortáveis. Quem sabe assim libertemo-nos também das nossas bíblias ilustradas, ingênuas e superlativas, quiçá mentirosas.

A virtude da comunicação de massa é hoje seu maior vício.

É pelo fato de o consumidor, consciente ou inconscientemente, ter cansado das setinhas de peregrino que colocávamos em seu caminho, que perdemos sua atenção. A propaganda não é mais uma estrada demarcada, e o planejador deve esforçar-se off-road ou morrer guard rail.

Artigo originalmente publicado no Meio & Mensagem de 28/03/2011

O triunfo da criatividade é a mídia de massa

25/03/2011 em Internet, Propaganda | Tags: , , , , | 1 Comentário »

Um grupo de cem arqueiros certeiros é menos mortífero  do que uma chuva de flechas.

Um exercício simples pode trazer muitos incômodos quando auscultamos as fan pages ou comunidades de algumas marcas nas redes sociais. Caem por terra muitos preconceitos e essa simples observação contradiz as mais acuradas das pesquisas. Quando inventarem uma ferramenta capaz de desenhar o retrato-falado médio de uma comunidade dessas vai ter muita gente vendo sua marca, outrora orientada para um determinado público, revisando sua estratégia radicalmente.

A propaganda, que coteja a ciência, e que a cada dia procura ser mais cirúrgica no alcance de seus alvos, muitas vezes renega ou subestima sua maior virtude: a capacidade que tem de seduzir para além da previsibilidade dos objetivos.

A propaganda só alcança seu máximo poder de fogo quando emociona, engaja e compromete o mais insuspeito dos targets: a diet-freak a tomar cerveja, o gordinho a correr, a perua a comprar na fast-fashion, o classe média a se endividar por um carrão.

Uma marca de luxo não faz propaganda para vender suas preciosidades para quem pode mas para quem não pode, uma marca popular não faz propaganda para vender suas bugigangas para quem não tem opção senão recorrer a elas, mas para dar-lhes prestígio e seduzir o outro lado da cerca. Pensar que trabalhamos para lembrar que existimos é ter em baixa conta a arma que manejamos.

Se o óbvio transpira nessas afirmações, ele está ausente em muitas estratégias nas chamadas novas mídias. Lá, vendem-nos o estado da arte da precisão e mensuração. E mais parece um disfarce para acobertar outras deficiências, como a falta de padrão, o baixo impacto, a pulverização, os formatos exíguos.

Claro que podemos ainda alardear os serviços prestados à cauda longa, que não pode se dar ao luxo de desperdiçar cartucho na esperança de fisgar prospects insuspeitos, mas quando estamos falando de grandes estratégias, dar tiros excessivamente precisos é a desculpa para a má propaganda ou justificativa para a falta de ousadia.

Quando a estratégia de mídia é nebulosamente calculada, em qualquer mídia, inclusive as novas, ela resgata a criação e dá-lhe espaço para transbordar de sedução. Fazer propaganda do Corinthians para o corintiano é bico, agora que tal fazer propaganda do Corinthians para vender uma marca para um palmeirense? Esse é um desafio para o qual não há técnica, não há ciência, não há TGI ou Analytics capaz de solucionar.

A libertinagem de opinião das redes sociais

24/03/2011 em Internet, Propaganda | Tags: , , , , | 3 Comentários »

De uma coisa ninguém fala, mas a explosão da popularidade das redes sociais, por trás de todos os superlativos positivos, secreta um efeito pernicioso: a intolerância. O que antes acontecia nos cochichos de salão e nos covis das colunas dos jornais é mais fértil nas redes sociais e germina e dissemina-se com a velocidade das más notícias.

Numa rede social, e principalmente na mais ácida de todas, o Twitter, deslizes éticos são desculpáveis pela falácia do espaço curto e grosso das mensagens. Bizarra  ironia usar o argumento de que em 140 caracteres não há espaço para perder-se em comprovações e argumentos, logo na Internet, em que a relação espaço x preço é tão favorável à verborragia, ao tempo e ao aprofundamento (muito diferente de outros veículos em que cada segundo ou linha é disputado e custa caro).

Educação, bons modos e correção ortográfica são detalhes. Nas redes, o poder de síntese não é qualidade, mas álibi de vulgaridade ou ignorância.

Propósitos racistas ou simplesmente imbecis também são tolerados como se toda afirmação digital acontecesse em um manicômio ou num tribunal nazista, desta vez, em nome de uma presumida liberdade de opinião.

A moralidade das redes também é relativizada já que, no faroeste da Internet, manda quem tem mais seguidores, amigos, portanto, poder de influência. Então, aqui, ninguém tem freio e deita e rola porque sabe que todo controle é vago, difícil e sem consequência. É serra pelada: cada um por si e Santo Mark Zuckerberg por todos nós.

Assim, qualquer infâmia repercute. Basta uivar uma merda que a alcateia faminta se encarrega de defecar nos trend topics. Uma espécie de fascismo com pele de cordeiro.

A invasão das agências bárbaras

23/03/2011 em Propaganda | Tags: , | 3 Comentários »

Desembarcaram com arrogância disfarçada de compreensão. “Nascer pequeno e morrer grande é chegar a ser homem. Por isso, deu Deus tão pouca terra para o nascimento e tantas para a sepultura. Para nascer pouca terra, para morrer toda a terra”, disse o padre Antônio Vieira. Lá naqueles idos, Portugal era uma migalha em crise espremida. Quando inventaram o Brasil, a pequena metrópole tornara-se a maior potência.

Na história oculta, os índios viram aportar barbudos fedidos de escorbuto e famintos, com uma só bandeira a empunhar, o saque, e um só álibi – a fingida fé. Deixaram estar e somos todos, hoje, índios fortes que olham, com complacência, o  penico com que acorrem de toda parte a nos pedir.

Inauguram-se, a cada dia, novas iniciativas de todas as bandas, no Brasil mais bola da vez do que nunca. Saúdam nossa simpatia, nossa inteligência, nossa criatividade. Em troca, dão-nos um charme – roto – e uma experiência de sucesso – no Camboja e no Quênia.

Muitas agências novas aportam, esfomeadas, na propaganda também. A toda hora chegam, e todas iguais, dão espelhos e contas aos nativos que nem mais se embasbacam com o pedigree e as filosofias criativas.

Logo percebem que os índios já não são tão puros, e que somos caros. Dão-se conta, também, de que o que nos contam de suas proezas ultramar dá-nos a impressão de guia turístico para marinheiro de primeira viagem. Fazem safáris nas favelas e até suam a camisa em algum maracatu autêntico, mas sabem que a única coisa que realmente nos interessa é que invistam suas economias e piquem a mula pra Argentina.

De longe, as mudanças são um soluço

22/03/2011 em Internet, Propaganda | 1 Comentário »

Não é fácil entender como a onda do tsunami que devastou o nordeste do Japão andava a 700 km por hora.

Deve ter uma explicação que jamais serei capaz de entender.

Mas, quando nos afastamos do nosso mundo de todos os dias, somos capazes de refletir sobre e relativizar o tema central do mundo contemporâneo: Virilio diz que tudo é tão veloz que um dia chegaremos ao limite intangível, inobservável, da luz, e que nesse dia o futuro não mais existirá.

Aqui de baixo, contrariamente à onda do Japão, quanto mais perto estamos, mais rápido chega. As mudanças que vislumbramos e profetizamos com urgência não passam de um saltitar débil, aos olhos da águia que sobrevoa tudo.

Vemos a fragmentação exponencial das mídias e a desatenção extremada do consumidor como iminentes. Parece que a água bate na nossa bunda todos os dias, a cada nova manchete alardeada no quinquilhão dos soit-disant blogs de tendências de comunicação. É só alguém ter uma ideia aproximadamente brilhante e incertamente bem-sucedida que lá vem aquela culpa “Não lhe disse? Não lhe disse?”, ou aquela cobrança “Alguém já fez! Alguém já fez!”.

Mas o distanciamento analítico mora ao lado. Não é preciso ser nenhuma águia solitária para assistir a como tudo é moroso: é só sentar a bunda na poltrona, de cueca, com os neurônios em coma, e assistir às nossas mídias, novas e velhas.

Sobre o que conversam aqueles jovens sorridentes, sentados no banco de uma praça do Chiado em Lisboa, numa segunda-feira à tarde? O mesmo que tantos jovens da geração-Y que nos aporrinham com seus comportamentos superantenados, mega-aflitos, ultradispersos: merda, graças a Deus.

O jogo fácil

02/03/2011 em Propaganda | Tags: | 5 Comentários »

Não leia este post: é um chiste.

Ivan Ilitch era um sujeito ordinário. Ele sempre fizera o que devia ter feito. Suas paixões circunstanciais não tinham arestas. Quando a morte se aproximou, ele sofreu de cólicas existenciais insolúveis. Sua vida só encontrou singularidade na morte. Não fosse Tolstói a lhe dar alguma nobreza, Ivan Ilitch teria sido outro humano à toa.

Bartleby era um homem medíocre com uma profissão medíocre e sonhos medíocres. Era um escrivão cuja obsessão era o imobilismo. Sua originalidade, paradoxal, residia na sua determinação de nada fazer para mudar de seu destino rotineiro, maçante, inútil. Muitos veem Bartleby como um covarde carneirinho. Melville talvez o tenha visto como o grande herói.

Opinião é uma bandeira envergonhada na profissão de publicitário. A crítica se dá huis clos, sem repercussão, covarde. Existem inúmeros canais que se debruçam sobre o tema, mas são uma manteiguinha na vaidade. E quando um tema potencialmente polêmico surge, um coro de “deixa disso” limpa a barra, abafa, senta em cima. Em nome da boa condução dos negócios.

Da mesma forma, a produção publicitária, na sua imensa maioria, prima pela apatia “bem pensante”. É o jogo dos agrados de circunstância, do atendimento servil, da criatividade pré-digerida, da mídia matemática, do planejamento de autoajuda. Somos apaixonados pelo jogo fácil do laisser faire abusado e blasé.

Pena tantos Ivan Ilitch brilhantes na pele de Bartleby frustrados.

Povo é nossa matéria-prima

28/02/2011 em Propaganda | Tags: , , , | 3 Comentários »

A boa moral católica não aprecia muita transparência de propósitos, e quando uma linguagem serve a um interesse sem subterfúgios é feio. Assim, a propaganda é, das linguagens de comunicação, a menos “nobre”. Sua franqueza (“é pra vender mesmo, tá?”) não lhe permite comparar-se com outras de mais elevados (e sorrateiros) interesses – a linguagem artística e a jornalística, por exemplo. Mas vamos cometer o pecado da comparação.

Por linguagem, entenderemos aqui o elo entre uma ideia e um público receptor. A linguagem é aquilo que usamos para codificar, traduzir e transmitir. É o que dá sentido ou compreensão à mensagem.

Ao separar os três tipos de linguagens – artística, jornalística e publicitária –, façamos um esforço teórico para evitar as intersecções mágicas. Um artista pode expressar-se com uma linguagem publicitária (Nelson Leirner?), um publicitário, com uma artística (Paulo Leminski?), um jornalista, com uma artística (Rubem Braga?), ou vice-versa para não ser xingado. Mas, para qualificar com precisão as diferentes linguagens, tentaremos entender as motivações (não as inspirações)  autorais por trás de cada linguagem.

Será que dá?

Um artista tem compromisso com a sua expressão individual. É garimpando na profundeza da sua alma que ele desenvolve a sua ideia. Essa ideia tem e sempre terá um público incerto, não premeditado, que irá na obra reconhecer-se, emocionar-se, inspirar-se. A motivação do artista é, portanto, individual, autocentrada, egoísta. É por isso que tantos foram e são incompreendidos ou amaldiçoados.

O compromisso do jornalista, por sua vez, é com o relato do fato histórico. É apurando, pesquisando, consultando, ouvindo e relacionando fontes que ele se exprime. O público que ele alcança é definido pelo hábito e também com objetivos de instrumentalização da informação. O jornalista é um observador do real, um retratista da verdade, ou da verdade que ele consegue depreender de sua própria subjetividade. Sua motivação é, portanto, científica. É por isso que muitos são perseguidos ou censurados.

Finalmente, o compromisso do publicitário é precisamente com o público definido como alvo do produto ou marca para o qual ele trabalha. É sensibilizando-se com as aspirações e desejos, hábitos e comportamentos ou níveis de compreensão e preconceitos das pessoas que serão impactadas pela sua mensagem que ele esculpe sua ideia. Um publicitário é um farejador, um animal com enormes orelhas e olhos em todos os membros. Sua motivação é escancarar-se para o povo. É por isso que somos vistos por artistas e jornalistas como prostitutos.

Dar-se conta dessas fundamentais diferenças entre as linguagens separa muito o joio do trigo. E na propaganda, naquilo que fazemos e gostamos de fazer, a gente fica se perguntando por que diabos tem gente que gosta de inverter as motivações.

Tem gente que inventa e acha que a motivação individual – artística – é primordial na propaganda, e dá no que dá: propaganda de museu. Tem gente que inventa e acha que a motivação pode ser factual – jornalística – e que chata que é essa propaganda-conteúdo. Fora a confusão.

Por treino e por talento, o publicitário fala melhor com o povo do que o jornalista e o artista.

Se publicidade é cultura, se grafite é arte, se podemos usar (de novo) a Sarabanda de Handel ou o Adágio de Samuel Barber numa propaganda, se podemos dizer que xixi no banho vai salvar a Mata Atlântica, interessa menos, contanto que o povo (que não é burro nem surdo) ouça.

Esse artigo foi originalmente publicado no Meio & Mensagem de 28/02/2011

Cases, benchmarks e perucas

24/02/2011 em Internet, Propaganda | Tags: , , , | 8 Comentários »

Todo o mundo já enfrentou seminários, palestras, reuniões ou simples conversas, ilustradas por cases apresentados como soluções exemplares para problemas idem.

Como é bem sabido, a douragem de pílula é prática comum: o acidente, o improviso, o chilique, os medos e os fracassos viram inspiração, transpiração, experiência, coragem e sucesso, num piscar de antônimos. A história belamente contada num vídeo cheio de efeitos especiais e trucagem funciona ainda melhor: ninguém pergunta nada e se deixa embalar pela alta voltagem.

Pode-se supor, no entanto, que alguns cases são realmente geniais, ultrapassaram a esfera dos amigos do Facebook, transpuseram a fronteira dos veículos-releases, tiveram audiências para além dos júris de festivais e deram resultados que não se contam em milhões de views no YouTube, mas em mudanças de paradigma de consumo, transformações de categorias e, por que não, abalos culturais.

Existe um determinado tipo de pessoa com o dom transcendental de citar cases alheios como respira, para qualquer situação. Esses arrotadores são da mesma espécie daqueles outros com o talento de encaixar pesquisas como vírgulas numa frase. Esses indivíduos  são também chamados de especialistas, sumidades, e por que não, eruditos.

Então, para todos esses gênios da raça e da memória, Consultores & Co, Workshops-rats, stoarm-blogs e Google-planners, para todos os Kicker-cases, devolvemos-lhes com a mesma moeda, de Schopenhauer.

“A peruca é o símbolo mais apropriado para o erudito puro [Kicker-case]. Trata-se de homens que adornam a cabeça com uma rica massa de cabelo alheio porque carecem de cabelos próprios. Da mesma maneira, a erudição [Kicker-casismo] consiste num adorno com uma grande quantidade de pensamentos alheios, que evidentemente, em comparação com os fios provenientes do fundo e do solo mais próprios, não assentam de modo tão natural, nem se aplicam a todos os casos ou se adaptam de modo tão apropriado a todos os objetivos, nem se enraízam com firmeza, tampouco são substitutivos de imediato, depois de utilizados, por outros pensamentos provenientes da mesma fonte.

Os eruditos [Kicker-cases] são aqueles que leram as coisas nos livros. Os pensadores são aqueles que as leram diretamente no livro do mundo.”

Estudar propaganda pra quê?

15/02/2011 em Propaganda | Tags: , , | 55 Comentários »

“Prezado senhor. Desde pequeno, gosto de propaganda. Tenho muito interesse em ingressar nessa carreira. O senhor poderia me indicar as melhores escolas de comunicação?”

Todo profissional já enfrentou esse tipo de pergunta. Cabeluda. E a primeira reação é relativizar a importância de um curso superior especializado. Gostamos de ser não convencionais e o ditado “quem sabe faz; quem não sabe ensina” pesa.

A propaganda deve ser uma das especializações mais datadas. Assim, de pouco adianta conhecer a história da propaganda e menos ainda as pseudoteorias dos best-sellers de marketing. Suas hipóteses e técnicas são quase sempre chumbadas em circunstâncias peculiares e únicas, portanto, incrivelmente perecíveis. A menos que o aluno se interesse por uma antropologia da propaganda, na real, é uma prática informal.

As influências da propaganda flutuam atormentadamente na correnteza dos movimentos sociais, da cultura, da língua, da tecnologia, da economia, dos hábitos, dos valores individuais. Qualquer tentativa de sistematização teórica nasce vencida. A técnica publicitária não se aprende, experimenta-se.

Portanto qual seria o currículo útil para um aspirante a publicitário? O que se deve ensinar?

Se a propaganda é tão permeável a todas as atividades humanas, se ela carece de ética própria, fazer boa propaganda é fator de alguns indispensáveis gostos – curiosidade, observação, risco – e desejáveis habilidades – expressão, análise, autocrítica.

Assim, um bom currículo deveria atender ao desenvolvimento desses gostos e habilidades.

Por exemplo, para atiçar a curiosidade: cultura geral, clássica e étnica; para a observação: excursões para museus, festivais, favelas, cadeias, ruas; para o risco: paraquedismo, roleta-russa, circo. Para trabalhar a expressão: literatura, música, dança e oratória; para a análise: filosofia e xadrez; para a autocrítica: psicanálise.

Metade do currículo deveria ser dedicado a teorias de outras cadeiras (história, literatura, geografia, filosofia, antropologia, estatística) e a outra metade à prática em oficinas, ateliês, estágios, serviços comunitários.

Nas horas extras, no extracurricular, se quiser e tiver tempo e saco, Kotler, Porter e que tais.

A pressa é a antítese da alma

08/02/2011 em Internet, Propaganda | Tags: , , | 12 Comentários »

- Claudia, o que é isso colado no vidro do escritório, atrás de você? Tira isso!
- Mas, Steve, isso é um texto muito lindo e verdadeiro.
- O que é?
- É a palavra do Senhor. Está na Bíblia!
- Bíblia?
- Sim, na Bíblia, você deveria ler.
- Está bem, Claudia. Me faz uma apresentação disso em bullet-point, por favor, e tira isso do vidro.

Que gringo insensível, desrespeitoso, sem alma.

Mas no mundo de hoje, não há mais espaço para contemplação, meditação, poesia e sutilezas. Quanto mais rápidos nos tornamos, menos adjetivos, menos metáforas sofisticadas. Proust já teria morrido de fome e Tolstoi e Balzac, e Saramago também.

Estamos nos tornando mais nervosos, sem paciência. Temos pressa de ir ao âmago sem atalhos sensoriais. Fome de comer sem mastigar.

Todo piano tem uma tábua de ressonância. É a alma do instrumento, por sobre a qual deitam-se as cordas. Um Steinway usa pinho de Riga, cultivado em Riga mesmo, a uma altitude precisa de 900 metros do nível do mar, que só pode ser abatido quando alcança a idade precisa de 22 anos, quando então passa por precisos 5 anos de descanso, até poder ser usado. Um Yamaha usa a mesma espécie de pinho. Mas seu plantio, abate e descanso respondem às necessidades do mercado. Mais encomenda, menos tempo. Um Steinway é um Steinway, e um Yamaha, bem, um Yamaha, que usa o mesmo material que um Steinway, é, e sempre será, apenas um Yamaha.

Como o primeiro movimento do concerto número 4 de Beethoven tem no mínimo 19 minutos e no máximo 20, sempre, qualquer que seja o intérprete e a demanda, nenhum solista sério quer tocar num Yamaha, nunca.

O que se perde com a pressa é precisamente precisão. E com falta de precisão, o que se perde? Alma.

Censurar ou não censurar conteúdos colaborativos

04/02/2011 em Internet, Propaganda | Tags: | 5 Comentários »

Na propaganda eleitoral gratuita, um ex-presidente enaltece a “transparência” suscitada pela “Internet e Facebook” como uma nova exigência pública que transforma os comportamentos políticos. Mas é tão ingênuo acreditar que a Internet é causa quanto crer no poder transformador de uma ferramenta.

A origem das invenções humanas se perde na noite dos tempos e sua gênese raramente está associada à necessidade. Os Mayas inventaram a roda, usada em brinquedos de crianças, mas nunca a utilizaram como ferramenta porque não viam nela nenhuma aplicação técnica. O princípio do pistão a vapor também remonta a muito antes da era industrial, mas quem é que poderia achar útil substituir milhares de escravos baratos e com capacidade de autorreprodução por máquinas? A Internet não causa nada, nem o Facebook.

É evidente que após um tempo toda ferramenta se autoalimenta de necessidades, transformando-se. Dessa forma nascem afirmações como a do ex-presidente, falsas na explicação, mas possíveis na prática. Na Internet, mentira tem perna curta (talvez não por causa, mas por consequência).

Mas essa afirmação também é ingênua.

Os governos totalitários, assustados com a capacidade de propagação de ideias subversivas, tiveram como comportamento inicial a censura ou o controle da Internet. Mas já há algum tempo que esses próprios governos – os menos imbecis – perceberam que a Internet pode ser utilizada a favor de suas ideologias e que isso é mais eficiente e barato do que proibir. Assim, fazem exatamente o mesmo que seus opositores, a saber, difundem-se publicitariamente.

A mesma regra, simples e lógica, deveria ser entendida amplamente também pelas marcas.

Com a Internet, a censura tem pernas muito mais curtas do que a mentira.

Demo de produto em comercial é de se rir

03/02/2011 em Propaganda | Tags: | 4 Comentários »

Identidade é uma escolha ou uma herança? Há quem acredite em herança, quase genética, atávica. Mas a hipótese é conservadora e contradiz a principal força motriz do desenvolvimento humano: a miscigenação, a promiscuidade cultural e a barafunda de influências que nos impulsionam adiante. A identidade herdada é uma prisão que arrasta muita gente para o divã.

A identidade escolhida, no entanto, não significa que não possamos relacionar as afinidades culturais de um povo. Desde Caminha, tentamos apropriar para o brasileiro um caráter, um gosto mínimo denominador comum. Em tempos de entusiasmo econômico, essa busca se acentua. Afinal, o que nos une, para além da geografia, da língua e do passaporte? Para entusiastas, é a criatividade; para derrotistas, a passividade.

Quando perguntados sobre qual seria a característica mais apreciada de uma propaganda, uma pesquisa apontou, de longe, que era o humor. Lá na rabeira, aparecem os clichês típicos da propaganda de baixa qualidade: uso de celebridades, jingles e músicas famosas, etc.

Apesar do Luciano Huck virar capa de revista (da Veja, claro) pelo seu bom-mocismo sem graça, apesar da promiscuidade de sua imagem, é triste aceitar que ele personalize nosso mínimo denominador aspiracional.

Prefiro achar que o Gerônimo Santana (“viado cidadão”) é melhor do que o Luan Santana (“meteoro da paixão”). Melhor Chacrinha do que Huck. Muito mais gozado, efêmero, debochado.

Talvez sejamos mais brasileiros quando rimos de nós mesmos, quando não nos levamos a sério.

Existe alguma coisa mais enfadonha do que uma demo de produto, em um comercial, que tenha a pretensão de explicar tecnicamente as propriedades benéficas de um produto? Até quando continuaremos acreditando que o brasileiro é como o alemão e gosta de provas para consumir?

O convencimento pela seriedade é um caminho anacrônico em um país que se debulha no carnaval, faz samba com a miséria, ri da desgraça e gargalha até com o preconceito. A demo de produto clássica é gringa, chata e burra, principalmente em uma linguagem – a propaganda – que há muito virou assunto de bar.

Propaganda também pensa

02/02/2011 em Propaganda | 1 Comentário »

Podemos sistematizar as linguagens de comunicação em quatro grandes tipos.

O artista se exprime e o produto de sua manifestação se materializa numa linguagem (visual, literária, musical e, por que não, novelística). A arte encontra, ao final da linha, um público, uma audiência, que se engaja, dialoga, se emociona com aquele produto. A gênese da produção artística está centrada na expressão individual e portanto não tem compromisso com sua audiência.

A linguagem documental ou jornalística, por outro lado, difere da primeira pelo seu compromisso com a verdade (e não com a expressão individual). Os fatos observados são o único compromisso desse tipo de linguagem, embora ela também tenha um público final, como a artística.

A linguagem científica, social, antropológica, etc., por sua vez, embora também tenha um público (portanto é comunicação), tem por compromisso a própria gênese dos fenômenos observados e estudados. Não há compromisso com a audiência nem com a expressão individual, tampouco com a verdade dos fatos, porque o objetivo da ciência é precisamente entender a observação, explicá-la.

A quarta linguagem de comunicação é a publicitária. Das quatro linguagens, a publicitária difere precisamente das anteriores porque ela se justifica exatamente na audiência. A linguagem publicitária não se interessa nem pela expressão individual, nem pela observação, nem pela gênese dos fenômenos. Ela se origina na audiência e, a partir de sua análise, elabora seu produto final.

Essas classificações são teóricas. Assim, uma “arte” será considerada “publicitária” sempre que ela se preocupar mais com a audiência do que com a expressão individual, por exemplo. Ou um “documento” será considerado “artístico” se ele tiver interferência da expressão individual acima da observação, e assim por diante.

Esse hipotética classificação é eficiente para analisar tipos de mensagens, sua função e eficiência. Sempre que se dirigir a uma massa grande de pessoas com o objetivo de convencê-la, a linguagem publicitária parece ser mais adequada justamente porque, por treino, técnica ou talento, o publicitário usa, como matéria-prima, sua capacidade de compreensão (racional e emocional) da audiência.

As estratégias de RP ou de “geração de mídia espontânea” que se apropriam de uma linguagem jornalística para vender um produto/marca são menos eficientes, por definição. Da mesma forma, as estratégias de “product placement” ou “merchandising” (e, por que não, “brand content”) que se apropriam de uma linguagem artística para vender um produto/marca, idem.

Vira e mexe aparece um guru, um consultor ou um gaiato, redefinindo a comunicação, não sem antes, delicadamente, vender seu peixe.

Vira e mexe a gente se sente seduzido pelo discurso da revolução, não sem antes, descaradamente, vislumbrar maiores lucros.

Vira e mexe, também, a gente para tudo e pensa. E pensar é sempre melhor do que remediar.

Os clubes das inutilidades coletivas

01/02/2011 em Internet, Propaganda | Tags: | 19 Comentários »

Não, eu não quero comprar a nova safra de nenhum vinho. Não, eu não quero desconto na academia. Não eu não quero branquear meus dentes, nem uma pizza de graça na compra de uma esfiha.

Não, não e não, eu não quero comprar nada que eu não queira. Já sou bem crescidinho pra saber que, se eu quiser um desconto de 50% em alguma coisa, é só juntar uma galera com a mesma intenção.

Alô, gênios, essa revolução aconteceu séculos atrás quando descobrimos que, quanto maior a demanda, maior a economia de escala e, portanto, menor o preço.

É justamente por isso que a gente faz propaganda para um monte de gente, partindo da premissa de que as pessoas têm desejos inconscientes de coisas que eles nunca imaginaram querer. É o que chamamos de geração de demanda. Gerando demanda, o preço cai, parabéns aos brilhantes garotos que inventaram os famosos clubes de compra online.

Parabéns também aos milhões de dementes que se conectam com esses clubes porque eles certamente irão fazer incríveis negócios, mesmo que jamais os realizem. Toda mulher de malandro sabe disso: se não encontra afago positivo, leva porrada. E gosta. Afinal de contas, quem resiste a uma liquidaçãozinha? Mesmo que não seja o seu tamanho nem sua cor preferida, com esse desconto também, pudera!

Toda essa genialidade reunida balançou o rabo na cauda longa e a cauda longa deu a pata. A mídia também, sedenta de um assuntozinho qualquer para preencher a editoria de Nova Economia, já vaticinou a surpreendente, estonteante tendência. E lá vai a velha economia, do alto de seu empoeirado poleiro, solicitar planos, estratégias, para abocanhar também este novo mercado.

Enquanto a economia da miséria humana consome emagrecimentos milagrosos e outras mezinhas, tem gente enchendo a pança, vendendo a privacidade alheia.

Criação ou colaboração

31/01/2011 em Propaganda | Tags: | 5 Comentários »

O desenvolvimento tecnológico tem aceleração progressiva. Isso significa que, se levamos milhares de anos para descobrir a fala, levamos menos milhares para a escrita, menos ainda pra a imprensa, e não vemos a hora de anunciarem logo a nova versão do Ipad, que se não ocorrer em meses, nos fará anunciar a decadência irreversível da Apple.

Outra constatação inegável é que o progresso é uma cadeia que ocorre por uma sucessão infinita de pequenas descobertas que se sucedem. Embora tendemos a valorizar as grandes mentes, Guttemberg não inventou a imprensa, juntou cacos de descobertas tão maravilhosas como a sua, como os tipos móveis, criados milênios antes, pelos chineses.

Aceleração progressiva e cadeia criativa é a base de nossa superioridade.

Tomar consciência disso é um exercício de humildade saudável porque a dependência desses dois fatores de superioridade é inexorável, inapelável, incontrolável.

Queremos sempre mais e quanto mais rápido queremos mais, mais interdependentes precisamos nos tornar, menos vaidosos, poderosos e ricos, também.

No limite que já alcançamos, a capacidade criadora – reputada ser de herança mágica ou divina – atomiza-se, esfacela-se, perde relevância.

Não é mais da presumida conexão com o éter criativo que devemos atribuir valor ao trabalho, mas da capacidade integradora e colaborativa.

Especialistas em classe C e o preconceito mascarado

28/01/2011 em Propaganda | Tags: , | 7 Comentários »

A especialização da propaganda foi uma tendência nos anos 90 e, seguindo uma espécie de modismo de sobrevivência, uma miríade de agências surgiu oferecendo expertises específicas para mídias e públicos. Um publicitário deve ser generalista por definição, ele tem que ter ouvidos, sensibilidade e criatividade suficientes para evoluir em todos os ambientes. Especialistas são a nossa antítese e um caroço duro de roer nas estratégias de comunicação das marcas.

Especialistas se justificam sempre através da classificação. Ao criar castas de consumidores, se outorgam uma segregação das estratégias de comunicação. E toda classificação esconde perigosos dogmas e preconceitos.

Vejamos a especialização mais fragorosa dos últimos anos: a da classe C. Apesar de não escancarar nenhum juízo moral, ela costuma disfarçar alguns preceitos que justificam suas teorias.

Vale alertar que nenhum dos chamados especialistas irá se reconhecer aqui, mas talvez valha fazer um exame crítico da próxima vez em que formos seduzidos pelo discurso “solucionático”: “a gente sabe falar com essa classe”.

O que se esconde atrás das técnicas “especializadas” de abordagem da classe C é que: ela é financeiramente despreparada; que nela as mulheres são inferiores; que seus integrantes são feiosos e gordos; que moram de aluguel e sonham mudar-se para bairros nobres; que não viajam nem podem sonhar com o lazer; que só se deixam influenciar pelo preço dos produtos e nenhum outro argumento os seduz; que são desplugados e que são ignorantes.

Pois bem, alguns contraexemplos:

- Só 27% da classe C compra a prestação contra 41% das classes A e B.
- 32% das mulheres da classe C são provedoras do lar contra 25% das classes A e B.
- 77% da classe C concorda em pagar um pouco mais por produtos de qualidade de higiene pessoal.
- 64% das famílias de classe C são proprietárias do imóvel onde vivem.
- 77% da classe C considera que viagens e lazer são um luxo que merecem.
- A penetração, na classe C, de marcas de produtos de higiene, biscoitos, chocolates, sorvetes e outros geralmente considerados dirigidos às classes mais favorecidas é a mesma nas classes A e B.
- 84% da classe C tem celular, 47% tem computador e 51% tem acesso à Internet.
- 31% da população de estudantes universitários no Brasil tem renda familiar entre 1 e 5 salários mínimos.

Será que ainda faz algum sentido pensar em classes sociais na hora de criar boa comunicação? No mais das vezes, o aconselhamento especializado consegue inspirar a pior propaganda, no limite do insulto preconceituoso.

60% da receita publicitária do Facebook é a-agência

27/01/2011 em Internet, Propaganda | Tags: | 11 Comentários »

O Facebook faturou no ano passado 1.86 bilhões de dólares em propaganda. Para uma empresa que ainda usa fraldas, é um resultado e tanto. Se esse número não chega a embevecer as megacorporações da mídia, o que impressiona é que 60% desse resultado é a chamada propaganda self-service, portanto sem agência de propaganda alguma no meio.

Em Nova York, depois que os fast-foods viraram o capeta da supercalórica fome americana, a nova tendência de comida barata (sim, tendência não é só pra arroto de rico) é invenção nossa: o serve-serve-a-quilo. Pelo menos enquanto a comilança a quilo não vira alvo da nova ativista Obama. O serve-serve-a-quilo é a proeza do paga  quanto pode comer. Ideal, mas constrangedor, seria pesar o cliente antes e depois da refeição, numa espécie de success-fee. Mais ou menos como a propaganda-monte-seu-prato do Facebook.

Aqui no Brasil, a miséria é pretexto sem-vergonha. Para um certo tipo de turismo, por exemplo. Para um certo tipo de diversão. Para um certo tipo de arte. É nossa maneira de esconder e aliviar a vergonha. Dilúvio sem precedente: lá vem aquela enxurrada de ajuda voluntária. Nego mora na tosqueira: lá vem aquele desfile cheio de brilho e nobreza. Cidade horrenda e suja: grafitti é arte, gente! Mais ou menos como a propaganda-faz-de-conta das grandes marcas na Internet.

Pangloss, o profeta do “tudo está bem no melhor dos mundos possíveis” acabou pedindo esmolas, sem perna nem braço. Filosofar sem mau humor dá nisso.

A merda que nos salvou

18/01/2011 em Propaganda | 2 Comentários »

Nossos antepassados foram coletores/caçadores por muitos milenares. Nossa vida, naqueles tempos, era nômade e a busca por alimentos, nossa principal preocupação. Mas, com a domesticação de espécies vegetais nativas e animais, começamos a assentar a pança. Com o prato cheio, dedicamo-nos deliciosamente ao sexo, à busca pelo poder, às expressões individuais e mais modernamente à atividade mais característica do ser humano hoje, desde que ele parou de se preocupar com a boia: o consumismo. Daí nasceu a atividade mais característica do ócio capitalista: a propaganda.

Essa é uma breve história da nossa história, mas deu um trabalho danado desenvolver a agricultura, numa incansável série de fracassos, sucessos e fracassos. E no início tudo era muito acidental ou natural, como dizem.

Quando não corria atrás de um javali selvagem, o coletor/caçador que éramos comia umas frutinhas ou sementes. Depois do almoço, dava aquele sono e depois do sono, dava vontade de descomer. Descomíamos tranquilamente, sem suspeitar que, daquele reflexo incontrolável, surgiria o laboratório que vaticinou o nosso destino superior na Terra. Daquela produção atávica, mais conhecida como merda, surgiria, direta ou indiretamente, os nobres ancestrais de quase tudo o que comemos.

É que tem coisas que não digeríamos muito bem, principalmente sementes muito resistentes ou evoluídas. As sementes eram evacuadas junto com um material de descarte orgânico, altamente fértil, e nesse paraíso ecológico sentiam-se à vontade para germinar. Bingo para a domesticação das espécies comestíveis. A merda profética nos salvou do sufoco.

Até hoje é assim. E por que não também com a atividade mais característica do capitalismo? Nunca devemos desistir de defecar sementes evoluídas, até na merda.