Todo criativo é uma ilha

04/03/2010 em Propaganda | Tags: | 1 Comentário »

Chega uma hora que você engole um ponto de interrogação: será que isso é bom? Será que vão entender? Será original? Será que é o caminho certo?

Daí você raciocina de novo. Elabora o espírito do porto e se veste de mulher do piolho: vão rir na hora certa? E se acharem pejorativo, simplista, coloquial, formal, bobo, imbecil, cretino, estúpido, uma bosta?

É nesse momento que você desiste e apela para o infalível: a iluminação, o talento, de divino direito.

Frissons olímpicos percorrem seu corpo, o olhar voga ao infinito, a cabeleira dança em câmera lenta, e, mãos em súplica romântica, você se olha no espelho, da privada, e diz: “é isso, eu sinto que é isso!”.

É hora de enfrentar o inimigo público número um: a sua convicção, essa devassa, vendida, volúvel e carreirista.

Os caras mal olham e cospem, sem pensar, algo que você nem ouve direito.

De volta à solidão amarga, você se distrai lendo uma bobagem qualquer: uma crônica de futebol, uma fofoca, uma bizarrice, um briefing.

Um briefing que você não entende por definição, acha ruim por princípio (se fosse bom, não precisariam de você), equivocado por natureza (se estivesse certo, você teria que admitir), mal escrito por lógica (afinal de contas onde já se viu?).

Essa é a sua vida. Criar, sobre improváveis caminhos, idéias mal compreendidas de que você tem que se orgulhar para não sufocar.

O mundo seria injusto demais se não houvessem incompetentes por todos os lados.


   
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Felicidade é a NET funcionando

03/03/2010 em Sei lá | Tags: | 3 Comentários »

Essa é uma história de ódio contemporâneo.

- Márcia, por favor, você pode fazer uma assinatura da Net para mim? Quero o plano mais caro, que tem tudo
- Tudo o quê?
- Não faço idéia do que seja o tudo da NET, mas peça o mais caro, assim vem tudo.
- OK
- Não quero ter nenhuma chateação, sabe? Prefiro pagar até pelo que nunca vou usar.

Fiquei feliz de ter realizado o sonho de todo profissional de marketing: o consumidor ideal,  que paga sem pestanejar e jamais reclama.

Um dia instalaram o tudo lá em casa. Internet bólida, telefone fixo que jamais irei usar, centenas de canais que dão preguiça de zapear, gravador de coisas que não terei a disciplina de programar e canais de filmes para minha empregada se aboletar no sofá nas tardes sonolentas.

Passei uma semana tranqüila, exercitando a imaginação televisiva que nunca me permitiu ir além de três canais de notícias.

Um dia, um capeta sentou no controle remoto e clicou 101 no controle remoto. Palavra mágica para um consumidor ideal: falou em pagar alguma coisa, é com ele mesmo. “Consumir, ó prazer inefável!”

Faço a operação com a mesma destreza de que saco o cartão de crédito para comprar qualquer inutilidade mágica naquelas lojas de treco caro.

“Crédito Insuficiente.”

O quê? Eu, o rico, milionário, perdulário que compra sem olhar, sem regatear e sequer usa o que comprou, portanto não usa pós venda, assistência técnica e não sabe o que significa a palavra SAC?

Me chamando de pobre? Qual é?!

Entrei na gangorra, no labirinto de mentiras, de bagunças, de diz-que-diz. Recebi técnicos em casa, trocaram as coisas, apertei centenas de vezes o controle remoto para fazer operações rocambolescas e cada vez mais criativas.

Pobre só se fode e por isso me fodi. A NET é um merda.


   
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Propaganda massiva X propaganda participativa na política

03/03/2010 em Propaganda | Tags: | Deixe um Comentário »

Vem aí a propaganda eleitoral.

A gratuita (que chamaremos de “massiva”) que promete bater recordes de abstenção de audiência com suas estratégias stanilistas, e a super hype (que chamaremos de “participativa”) que causou espasmos de modernidade em todos aqueles que leram o batidão case Obama.

E propaganda política é quase como propaganda não política: é chato mas funciona. Inclusive as mais chatas, inclusive as mais chiques.

É, para os políticos, candidatos ou eleitos, dos messiânicos aos venais, dos bem aventurados aos vendilhões, de qualquer ideologia, a alma do negócio.

É, para os eleitores, preguiçosos ou engajados, dos desiludidos aos sonhadores, ignorantes ou pretensiosos, pessoas comuns que gostam de novela ou cinema iraniano, a alma da democracia.

De um lado, a gente quer vender, quebrar o concorrente, ganhar market share.

Do outro, comprar o melhor produto, o mais barato.

Só que faz muito tempo, que a propaganda, a não política, mudou um pouco. E também o consumidor, também chamado de eleitor.

Uma marca trabalha por um posicionamento que coincida verdades e aspirações dos consumidores. A (boa) propaganda constrói marca e persegue aprofundar o relacionamento com consumidores. Isso não se cria, se constrói, ao longo do tempo, com senso crítico, ouvindo muito, interagindo o tempo todo.

Eleição só tem de vez em quando, propaganda eleitoral também.

Aqui reside a principal diferença entre os dois tipos de propaganda eleitoral, a massiva e a participativa.

A massiva é aquela que acredita no grito e na repetição. Pouco importa a verdade e menos ainda a aspiração. Pouco importa o que se diz – e por isso mente-se tanto. Tem que ganhar ali, na hora. Ganham-se votos.

A participativa, diferentemente, crê na construção de uma relação de mão dupla. Importa propor ao invés de impor. Importa o diálogo. Importa o fôlego, a paciência, o tempo. Ganham-se eleitores.

O projeto Obama não era (como alguns oportunistas querem crer) um projeto para ganhar eleição. É um novo jeito de fazer política e governar. É só comparar www.whitehouse.gov com www.brasil.gov.br.

A propaganda participativa acredita na democracia do fôlego. A massiva acredita na democracia do soluço.


   
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Coitada da idéia mal apresentada

02/03/2010 em Propaganda, Sei lá | Tags: , | 1 Comentário »

Não se nasce Kayapó ou Bororo.

Perguntaram a um índio, portador de avantajado alargador labial, se venderia o artefato. O índio respondeu: ” te dou o botoque e você me dá a sua orelha”.

Um japonês, um pigmeu ou um albino pode tornar-se tão Kayapó quanto o Raoni.  Basta agir como um Kayapó para ser aceito como tal.

O “savoir vivre” dos nossos índios ultrapassa muitas vezes nossa capacidade de entendimento.

Os Kayapós organizam-se em grandes aldeias nas quais os homens pertencem a associações independentes, com seus próprios chefes. Mas chefe entre os Kayapós não manda em ninguém. É só aquele que recebeu, por doação de tios ou avôs maternos, alguns privilégios ritualísticos.

Além disso, para legitimar a liderança da associação – da qual pertencem todos aquele que possuem um dos privilégios (uma pessoa pode ter até uma dezena de privilégios, compondo assim uma enorme combinação de possibilidades) – o homem deve possuir uma qualidade essencial à vida social Kayapó: a oratória.

Ainda criança, o pequeno índio recebe um alargador de lábios e tem as orelhas furadas. Os botoques e pesados brincos simbolizam uma espécie de amplificação simbólica dos dois sentidos mais nobres: a fala e audição (a visão é meramente funcional e “ver demais” é qualidade depreciada).

Quando há desavenças na aldeia – quando um índio ousou portar um cocar de cores não compatíveis à sua classe de privilégios ou simplesmente se um garoto chavecou uma garota casada – as questões serão resolvidas em embates de oratória entre os oponentes. Os chefes das respectivas associações tomarão a palavra e defenderão seus pontos de vista, na casa dos homens, até entendimento final entre as partes.

Entre os Kayapós, tudo se resolve no gogó. Privilégios (de qualquer natureza) não dão poder. Só o gogó. E o gogó se aprende, se desenvolve, se afia.

A gente vem subestimando demais a importância da oratória.

Capacidade de apresentação não é um detalhe de convencimento.

É com paixão e convicção, inteligência e articulação, simplicidade e humildade que se expressa e vende uma idéia.

O resto é natimorto.


   
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A Londres daqui não tem a menor graça

01/03/2010 em Propaganda, Sei lá | Tags: | 1 Comentário »

A gente aprendeu, a vida inteira, que a educação funciona como uma caixa de ressonância de referências. Como se, ao longo de nossas vidas, fossemos conectando-nos indelevelmente a outros aprendizados, e costurando assim,  nossas próprias referências que não passam, sempre, de recitações colhidas por aí. É por isso que apreciamos, valorizamos e enaltecemos quem tem muitas “referências”.

A gente diz “fulano é viajado, sabe das coisas”.

Dona Conceição, enviuvou e foi ver o mundo. Foi de pacote, ver os cartões postais ao vivo e a cores. Gostou muito e não parou nunca mais. Mas da primeira vez, quando voltou, trouxe muitas recordações. Chamava o povo em casa e contava que a Torre de Pisa era torta mesmo, a torre Eiffel dava enjôo de subir, a de Londres povaréu danado pra cima e pra baixo, sem falar das cantoria nos canais de Veneza e da Via Condotti, ah a via Condotti!

-       Sabe fia, essa Via Condotti que falam tanto. É muito linda mesmo. Linda demais. Mas cá entre nós, assim, não é que eu estou ficando blasé – aprendi essa, que tal? – mas a Via Condotti é mais ou menos nossa Avenida Independência aqui de Bauru, sabe?

Com o tempo, a gente vai sacando, no entanto, que tantas referencias enjoam. Das duas uma, ou a gente não consegue mais achar graça em nada ou embanana tudo. Como o Monsieur e Madame Franck.

Eles estavam aposentados, com um bom dinheiro no banco e sem genro para sustentar. Viajavam muito e mandavam cartões para todos. Mas eles já não eram mocinhos e a gente recebia uma linda foto de Madri com palavras singelas “Paris é inesquecível, salut a tous!” ou de Moscou: “Londres says hello!”.

Do outro lado do espectro, aqui da torre de marfim, a gente gargareja demais nossas incríveis referências. Conectados ao extremo que estamos, perdemos totalmente a capacidade de processamento inteligente das informação. E por processamento, entenda-se criação.

O que é sucesso no e do Brasil? Novela? Samba? Futebol? A banda Calypso? O hip hop, forró e baile funk? Ou se preferirem casos mais chiques, um tipo de arquitetura, um tipo de design, a Bossa Nova? Exemplos emblemáticos da antropofagia de referências. Quando a gente come o que vem de outros lugares, mastiga, cospe, engole de novo, mastiga de novo, faz uma mistura e cospe outra coisa. Igual mas diferente. É assim que a gente construiu nossa identidade tão gostosa. Desse talento aí de introduzir nossas coisas sem preconceito, sem arrependimento, sem vergonha.

Precisamos urgentemente de um tratamento de desintoxicação de referências na propaganda brasileira. A semi-ignorância é uma dádiva para quem tem talento.


   
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