Artigos na categoria ‘Internet’

Site de marca: perda de tempo

29/10/2010 em Internet, Propaganda | Tags: , , , | 12 Comentários »

A sabedoria do consumidor está na capacidade de nos chamar de idiotas se fazendo passar por um.

Pesquisador: Quando você pensa na marca X, como você a imagina na Internet?
João: Ué, mas X não é para beber?

Ainda que essa resposta pudesse ser exatamente a mesma se tivéssemos feito a mesma pergunta 40 anos atrás referindo-nos à televisão, temos um pequeno insight.

A Internet nasceu, tomou biotônico e cresceu como promessa facilitadora.

Quando ela nos ajuda a descobrir como se faz um pão de ló, ela é imbatível. Quando nos permite comparar cré com cré, é muito útil. Quando a gente pode comprar ingresso antecipado para qualquer sucesso de pipoca e gritaria, é um alívio. Quando descobrimos que é possível encontrar pessoas para além do clube, do trabalho e da escola, a Internet cura todo provincianismo atávico. Quando a gente não quer micar na sexta à noite e zerar o fim de semana inteiro, se jogar na Internet é um bom começo.

Síntese do beabá: a Internet é um trampolim de vida lá fora.

Mas e a marca X? De beber, de lavar roupa, de vestir, de dirigir, de pegar dinheiro?

Em vez de jogar o cara lá fora, pra beber, pra lavar, pra desfilar, pra esmerilar ou gastar, vamos inventar moda e parafusar a bunda do cara na frente do computador com falácias de engajamento ou outras histórias pra boi dormir.

Perdemos um tempo doido criando doideiras na Internet.

Mas esquecemos que, salvo patologias nipônicas, as marcas deveriam, antes de todas as pirações online, jogar nego no off.

E todo o resto, todo o resto, é só publicidade.

Conhecimento não é search engine

28/10/2010 em Internet | Tags: | 4 Comentários »

Dizem que a memória cultural das pessoas não passa de 5 anos. Isso significa na prática, e na média, que as referências das pessoas se limitam ao que aconteceu no mundo nos últimos 5 anos. Em outras palavras: nada.

Se essa aterradora constatação for verdadeira, então de que adianta toda a tecnologia? De que adiantam os entusiasmos com o mundo moderno?

Esse mundo aí, no qual esperamos viver cem anos, é oleaginoso e paira na superfície ao sabor de prazeres passageiros. É o mundo dos verbetes tagueados, do conhecimento resenhado, dos tutoriais no YouTube, das traduções digitais. Parece que a tecnologia, de tanto preocupar-se com simplificações, simplorificou demais.

Nessa vibe, podemos redefinir o que é criação. Antes diziam-nos que não havia criação sem repertório, sem conhecimento. Para resolver essa parada, resolvemos colocar todos os repertórios online. Fácil? Quem disse? Está tudo lá, nas profundezas da grande rede. Mas como nos rios poluídos, é a merda que emerge. É a merda que se consome, ávida e cegamente.

A memória cultural das pessoas se nutre da superfície. A criação, idem.

A Internet ainda é coisa de rico

27/10/2010 em Internet | Tags: | 7 Comentários »

Todos os dias, pipocam pesquisas sobre a Internet no Brasil. Em parte, síndrome de primo pobre que precisa esbanjar; em parte, complexo de filho do meio, entre o xodozinho da mamãe e o filho pródigo do papai.

É evidente que temos particularidades, que somos mais pujantes do que parecemos, que precisamos de muito esforço para enxergar através da nuvem de preconceitos mal assumidos que banham o país. No entanto é importante não perdermos a lucidez por trás da pílula dourada para gringo ver.

E toda pesquisa sobre Internet no Brasil se utiliza do discurso favela-chic para iniciar suas presumidas quebras de paradigmas: a classe C constitui a massa de pessoas interneticamente incluídas. Também pudera. O Brasil é classe BC. Só falamos em classe AB porque não tem como juntar a A com nada já que ela é tão pequena que sumiria das nossas pesquisas. Criamos essa quimera de que existe uma classe AB que é diferente da classe C. No fundo existe uma classe BC, colossal, que é diferente da A. E a A não interessa a nenhum segmento econômico relevante.

Pois se é a classe C que interessa, é natural que a Internet só possa existir se ela puder atingi-la. Nem se trata mais de um chiste no preconceito da elite porque essa tal classe é hipercool. Nem gringo paraquedista se impressiona mais com a imagem das favelas que cercam o condomínio de alto luxo.

Mas a verdade que carecemos enfrentar hoje, vencido o deslumbre, é que os maiores pontos de acesso à Internet no país são fora de casa, porque é lá que a tal da classe C pode, consegue, tem grana, para acessar. E não se poderá falar de democratização de acesso à Internet enquanto não conseguirmos vencer os pífios e estagnados 25% de acesso domiciliar.

O acesso fora de casa tem particularidades importantes, e uma das maiores é o tempo tarifado. Pessoas que acessam a Internet fora de casa têm menos tempo ou o tempo delas custa (caro). Quem já viu o comportamento típico de uma pessoa que acessa a Internet numa lan-house entende: muitas janelas simultâneas e foco dividido. Ler, nem pensar, ver vídeos de mais de 10 minutos, nem pensar, pesquisar a fundo, nem pensar. Já que o tempo custa, melhor fazer o que instintivamente importa, ou seja, xavecar nas redes.

E mais, se correlacionarmos por exemplo a compra on-line com o local de acesso, iremos imediatamente verificar que as pessoas não compram na Internet (ou muito pouco) fora de casa, por razões óbvias (tempo de comparação, receio da falta de segurança dos meios de pagamentos etc.).

É mais do que hora de pararmos com as excitações precoces: o Brasil é surpreendente mas estamos longe de ser um país digitalmente maduro. Muito longe.

A Internet descansa em paz

26/10/2010 em Internet, Propaganda | 7 Comentários »

A Internet é o palco das mais divertidas ingenuidades. De apavorar Pasteur.

Geração espontânea é o princípio que rege muitas iniciativas e crenças, individuais e comerciais.

Acredita-se que a reputação pode ser construída sem esforço, por obra e graça do espírito da rede. Basta conectar-se e jogar seus fermentos de genialidade aos bits. É essa crença que anaboliza as redes sociais, os blogs, em particular os microblogs.

Acredita-se que é possível ser seu próprio veículo de comunicação, por concessão do onipresente universo virtual. Basta conectar-se e expelir seus fascinantes conteúdos às sinapses da Internet. É esse credo que excita as marcas e as agências de comunicação.

A multiplicação das mensagens, quaisquer que sejam, estaria garantida pelo mágico dínamo. O sucesso é uma questão de tempo, e não de esforço.

No entanto, a realidade é bem mais prosaica: estima-se que mais 80% de todo o conteúdo dos servidores conectados, mundo afora, esteja às moscas. A Internet, que idealizamos como um fervilhar histérico de informações fluindo para todos os lados, é, no fundo, um imenso cemitério, em que almas penadas trombam incidentalmente ao sabor da insônia de alguns, da ociosidade de outros, da vaidade de muitos.

Infelizmente, é preciso muito esforço para construir uma reputação e muito dinheiro para construir uma marca. Na Internet como em qualquer outro lugar.

“Em se plantando tudo dá” é a quimera de poéticos deslumbrados.

Por que não ganhamos dinheiro com a Internet?

25/10/2010 em Internet, Propaganda | 9 Comentários »

Todo malabarismo de retórica é uma estratégia de convencimento que pode garantir incrementos de mark-up.

Toda resenha de marketing, todo discurso de guru e todas as pílulas de sabedoria dos profetas twitteiros podem ser uma forma inteligente de confundir para reinar.

É mais ou menos o que acontece com as (nem tão) novas teorias de comunicação recém-paridas com a Internet.

São os Branded-content, transmídia, story-teller, co-creation, colaboration, todos avassalados pelas self-mídias (tipo Orkut), pelas plataformas agregadoras de conteúdo (tipo YouTube) e pelas ferramentas de busca (tipo Google).

E quando inventaram fórmulas místicas para medir engajamento (um jeito mais trendy de falar fidelização e preferência) à luz da transversalidade das mídias (um jeito mais hype de falar em integração das mídias), das duas uma: ou sucumbimos ou viramos reacionários. Ou entramos no turbilhão novidadeiro ou negamos a evolução.

É por isso que de vez em quando é legal parar de rebolar e falar português. Sem medo de ser redundante.

Existe uma fronteira nítida na atitude fundadora do consumo das mídias ditas passivas (velhas) e das ditas ativas (novas).

Nas mídias velhas, os conteúdos de comunicação são submetidos aos públicos com poucas, ou retardadas, possibilidades de interação. O hábito prevalece sobre a qualidade dos conteúdos. Na TV, na revista, no jornal, no rádio, o hábito determina o ativo de audiência que os  veículos comercializarão. É essa audiência que a propaganda compra. É esse hábito que compramos.

Já nas mídias novas, na Internet, qualquer que seja sua plataforma, inclusive naquelas que reproduzem os formatos tradicionais (por exemplo, em um portal ou um site de jornal), mas principalmente nos novos formatos (por exemplo, numa ferramenta de busca, numa rede social, num agregador de conteúdo), todo conteúdo está à deriva para ser buscado. E muitos são esses conteúdos na infinita geleia digital. E também infinita é a volatilidade das audiências. Infinita e imprevisível. A qualidade prevalece, portanto, sobre o hábito. Na Internet, é a qualidade do conteúdo que a propaganda deveria comprar.

Nas mídias velhas, a audiência é um número. Compram-se dez, vinte, trinta milhões de pessoas impactadas por um conteúdo, três, quatro, cinco, cem vezes em sete, trinta, trezentos ou sessenta e cinco dias.

Nas mídias novas, a audiência é uma apreciação. Compra-se um conteúdo ótimo, bom, regular, ruim, por exemplo, inclusive porque é a partir desse tipo de critério qualitativo que se pode esperar a intangível (e inquantificável) arma da viralização.

Esse tipo de raciocínio, em bom português, embola o meio de campo.

Nas mídias velhas, faz todo o sentido atribuir-se um preço prévio pela audiência, porque ela é determinada pelo hábito. Nas mídias novas, só se pode fixar um preço pós fato pela audiência, porque ela será determinada pela qualidade do conteúdo “veiculado”.

As agências de propaganda são remuneradas, historicamente, por uma porcentagem do volume de mídia investido pelo cliente. Em outras palavras, uma agência é remunerada por um tiquinho da audiência que é vendida  para os anunciantes. É simples de calcular porque a audiência é herdada.

Nas novas mídias, essa equação não funciona, mesmo considerando que existem mídias velhas nas novas (que vendem audiências presumidamente herdadas).

Como é impossível atribuir-se um valor unitário à qualidade de um conteúdo (nenhuma fórmula é justa), só podemos estabelecer um variável sobre a audiência futura gerada. Em outras palavras, trata-se de uma lógica reversa que determina um preço prévio por “unidade de audiência alcançada” com o conteúdo criado pela agência. É um compromisso de longo prazo, já que um determinado conteúdo, uma vez veiculado, tem uma vida, no limite, infinita.

Nas mídias velhas, a agência é fornecedora do anunciante. Nas novas, somos sócios.

Enquanto insistirmos numa equação de remuneração de mídia velha em mídia nova, continuaremos pedalando no chucrute.

(Artigo originalmente publicado no Meio & Mensagem – edição de 25 de outrubro de 2010)

A rede não é criativa

22/10/2010 em Internet, Propaganda | Tags: | 4 Comentários »

A coletividade é uma beleza. Ela parte do pressuposto de que muitas pessoas trabalhando juntas, ligadas por uma rede, acabam produzindo resultados melhores. A democracia é assim. As pessoas votam em seus representantes que constituem os nós da rede que se alimenta dela. Uma linha de montagem é assim também. As pirâmides foram construídas assim.

A Internet não inventou o princípio. Só aplicou essa lógica à informação, mas redes elétricas, de distribuição de água, irrigação, estradas, esgoto, desde os romanos, já aplicavam o princípio.

Mas, assim como existe uma correlação direta entre quantidade de conexões e qualidade do sistema, não existe nenhuma correlação comprovada entre essa lógica e a qualidade dos fluxos. Ou seja, uma rede azeitada, funcionando, garante fornecimento de energia, de água, de carros e o despejo de cocô. Uma Internet garante o fornecimento e despejo de informação. No entanto uma rede não garante, por exemplo, que a qualidade da água seja boa, muito menos da informação.

Por outro lado, não existe correlação direta entre rede e criatividade. Se podemos acreditar que não existe criatividade sem repertório e inspiração – nem conhecimento, nem humanidade – no entanto, um milhão de pessoas limitadas conectadas e trabalhando juntas produzirão resultados também limitados. Dez milhões de pessoas burras trabalhando juntas vão criar coisas burras, pois é da lógica da rede, também, o mínimo denominador comum. O produto de uma rede de colaboração nunca será o máximo denominador comum.

Acreditar em colaboração coletiva não significa desacreditar na capacidade individual. Quando o assunto é criar, a união não faz necessariamente a força.

Ainda haverá, sempre, o criador isolado, só, sem celular nem internet, sem Wikipédia, sem YouTube, sem bibliotecas sofisticadas, sem rede.

O quantum leap criativo não se dá como produto do browser obsessivo atrás de referências e pedidos de socorro.

A criação ainda é o produto da reflexão desplugada e do solilóquio referenciado por um mar mental de repertório, influência e musas.

A boçalidade do Twitter

21/10/2010 em Internet | Tags: | 34 Comentários »

Já se disse que o inferno são os outros. Mas Sartre não conheceu o Orkut, o Facebook, o Twitter. Se ele observasse o mundo de hoje, ele diria o contrário: o paraíso são os outros.

Ninguém é capaz de autoavaliação, a não ser através do olhar dos outros. Isso não tem nada de novo. Mas, como falamos de plataformas digitais, o fermento escancara as verdades mais dissimuladas.

Assim como o turista esfomeado fotografa mais do que vê, o usuário incontinente de rede social posta mais do que pensa.

E nessa corrida multiatarefada pela mais nova frase ou imagem de efeito, qualquer reunião de pessoas minimamente digitalizadas vira uma caçada de promoção individual. As pessoas instrumentalizam todas as interações com o único propósito de repercutir e colher um ricochete benéfico: “Se eu postar isso ou aquilo antes dos outros, vão me retwittar.”

Em nome da democratização acelerada, ninguém quer entender nada mais longo do que 140 caracteres. Reinventam as regras de abreviação, castram o estilo, decapitam a ornamentação. É a literatura do aforismo simplório, com trocadilhos e contradições de impacto. Quem lê Proust é javanês. Em nome da criatividade colaborativa, ninguém entende imagens que não sejam conceituais, em chulas associações de símbolos óbvios, forçados e manipulados. Quem aprecia Velásquez é marciano.

Em nome de muitos eufemismos, a ejaculação intelectual bate recordes de precocidade. Quanto mais rápido formos, mais relacionamentos e quanto mais relacionamentos, mais reputação. Um dia, parimos a primeira simplificação estúpida e nunca mais paramos.

Tomara que alguma frase desse post repercuta. É um bom exemplo.

A involução da evolução – EBP 2010

19/10/2010 em Internet | Tags: | 5 Comentários »

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Apresentação no EBP 2010

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O Apartheid entre as mídias ditas novas e as “mal ditas” velhas

14/10/2010 em Internet, Propaganda | Tags: | 7 Comentários »

Passamos um bom tempo, nos últimos 10 anos, tergiversando para as novas mídias, sobre a mudança de consumo dos meios de comunicação e sobre o impacto que a Internet tem sobre a forma como eles são consumidos.

Entusiasmos e ceticismos à parte, a originalidade desse discurso virou lugar comum.

Assim, desfilam diuturnamente pastas recheadas de belos cases online. E como todo social-climber que regurgita sua declaração de renda para dourar seu sucesso, os números de visitas, usuários, views, bounce-rate, time on site, conversão etc. determinam a qualidade do trabalho. O números pontificam o sucesso. É como aquelas cintas que indicam “mais de um milhão de livros vendidos em todo o mundo” nos livros que mais um milhão comprará justamente por isso. É como se a televisão estampasse no canto da tela o número de televisores ligados on-line.

Mas assim como nem todo mundo lê os best-sellers que compra, assim como nem todo mundo assiste à TV que liga, nem todo mundo aprecia os conteúdos contabilizados com pompa e circunstância no YouTube.

As mídias novas ainda pautam seus argumentos comerciais de forma quantitativa, exatamente como as mídias ditas velhas.

Será que assim dá para poder comparar? Será que ainda precisam equalizar uma espécie de disputa de investimentos entre as diferentes mídias?

No entanto, ainda que possamos justificar a simplificação para fins didáticos, o que acelera a tomada de decisões cada dia mais precoce, essas análises esquecem ou ocultam uma fronteira nítida na atitude fundadora do consumo das mídias ditas passivas (velhas) e as ditas ativas (novas).

Nas mídias velhas, na TV, na revista, no jornal, o hábito determina o ativo de audiência. Os conteúdos são submetidos aos públicos com poucas, ou retardadas,  possibilidades de interação. Os conteúdos são achados por força do hábito. Nesse caso, faz muito sentido quantificar a audiência: são tantos milhões de pessoas do target impactadas. A volatilidade dos públicos é previsível. Sua fidelidade, idem.

Nas novas, na Internet, é a vontade que determina a audiência Os conteúdos estão à deriva para serem buscados. E muitos são esses conteúdos na infinita geleia digital. Na Internet, a qualidade dos conteúdos não pode mais ser mensurada quantitativamente. Ou não apenas. A volatilidade dos públicos é infinita. Sua fidelidade, imprevisível.

Nas mídias antigas, a qualidade do conteúdo determina a audiência futura. Mas a audiência de hoje (que se vende) é a audiência do hábito, portanto, deve e pode ser vendida de forma quantitativa.

Já nas novas, a qualidade do conteúdo não determinará a audiência futura. A audiência de hoje (que vale) é a audiência daquele conteúdo, portanto, não pode ser vendida de forma (apenas) quantitativa.

Twitter is tiny in Brazil and Facebook is tinsy

08/10/2010 em Internet | Tags: , , | 1 Comentário »

Contra dados não há argumentos e a favor dos dados há manipulação.

Outro dia, divulgou-se que o Facebook na Índia já tinha ultrapassado o Orkut, mercado em que a rede social do Google também é muito popular. Precipitaram-se os analistas precoces e já declararam que isso era uma tendência. Precipitaram-se os trend-addicted para dizer que já já o mesmo aconteceria no Brasil. Berraram o sepultamento do Orkut, todos os parvenus da mídia.

O Facebook tem penetração altíssima entre jornalistas e publicitários. Isso é fato. Facebook is huge in the marketing market in Brazil: Correta a afirmação. Já no Brasil, são outros quinhentos, e o Facebook rasteja penosamente para fora do erro estatístico de qualquer pesquisa.

Agora alardearam que o Twitter tem uma penetração monumental no Brazil. Só se for nesse Brazil com Z, porque no nosso, só é grande a tagarelice dos twitteiros tupiniquins porque dizem que temos o maior número absoluto de postagens do mundo.

A pesquisa que anuncia uma penetração do Twitter de quase 25% considera também a população de pessoas com acesso à Internet no Brazil (com Z) em pouco mais de 40 milhões. Mas o Brasil só tem Z para quem pontifica sobre o país de binóculo embaçado.

A população com acesso à Internet no Brasil (com S), essa sim é huge. Deve beirar os 90 milhões. É mais huge ainda se ponderarmos pela renda per capita brasileira. Nesse caso, deve ser a maior do mundo disparado.

Então ficamos assim: o Twitter tem penetração tiny no Brasil com S e só é huge mesmo, por enquanto, na teeny-weensy população de quem cacareja no twitter para seu teensy grupo de seguidores.

A Internet lasciva

07/10/2010 em Internet | Tags: | 3 Comentários »

Todo mundo deveria levar pelo menos três vidas. A privada, a pública e a profissional. Ou pelo menos tentar entender quais são as fronteiras entre esses três (pelo menos três) territórios nos quais evoluímos.

Embora possamos ter coerência de valores e atitudes nas três esferas do viver – essa coerência define a personalidade – existe um ranking nos quais eles se estabelecem, como prioridades dependendo da máscara que portamos.

Mas valores e atitudes são também influenciados e definidos por convenções que existem para dar ordem e sentido à vida privada, pública e profissional (e quaisquer outras que se queira ter).

Mas, sempre que as esferas se invadem, as convenções entram em um curto-circuito promovendo uma desordem promíscua, vide indecente.

Desde que a Internet abriu-se como o mais lascivo dos ambientes, em que os valores individuais são atribuídos às custas de conexões interpessoais (principalmente quantitativas), a vida privada invade a pública que invade as profissional e vice-versa pra lá e pra cá. Esse eldorado da reputação barata e fácil escraviza todos os valores e define as atitudes. E as convenções não servem mais para nada. Atrapalham.

Desde que a Internet virou o palco privilegiado de uma espécie de big-brother planetar, muita confusão tem acontecido. Isso é só o começo e muita gente ainda vai para o olho da rua por conta dessa confusão.

Marca-destino e marca-distribuidora na Internet

23/09/2010 em Internet, Propaganda | 3 Comentários »

Desde que a Internet ensaiou constituir-se em uma plataforma de comunicação, o grande debate das marcas permanece o mesmo: a presença da marca tem de ser destino ou deve reverberar na Internet como mídia?

Como a Internet não é um ambiente sob concessão pública ou privada, como é um universo livre a todas as iniciativas – inclusive àquelas que tangenciam a ilegalidade – a pretensão de ser destino é tentadora porque é aparentemente libertária: a marca torna-se mídia de si própria.

Para ser destino, a marca tem que ser relevante às pessoas para além daquilo que ela tradicionalmente representa, ou seja, o produto. Suas iniciativas deixam de ser centralizadas na marca para sê-lo no consumidor, nos seus valores, comportamentos, aspirações, interesses, etc.

Ainda que seja possível conciliar as duas prioridades: patrocinar conteúdos (como se faz em qualquer mídia, seja ela tradicional) ou criar conteúdos (como já se fez na mídia tradicional em tempos imemoriais), parece ser inteligente definir uma árvore de prioridades ou territórios de atuação em uma e outra das estratégias.

Se uma marca deve significar algo na vida das pessoas para além daquilo que mais diretamente ela simboliza, se uma marca deve centrar esforços na criação, produção e disseminação de conteúdos, isso não significa necessariamente que sua presença na Internet deve ser destino. Sua presença pode ser hub de distribuição.

Diferentemente das opções entre ser patrocinador (propaganda) ou produtor (emissor) de conteúdos, opções essas perfeitamente conciliáveis e que se somam, a alternativa de se tornar destino é mais cansativa, exige esforços consideráveis, verticalizações indesejáveis ou coordenações complexas e investimentos desproporcionais, com uma curva de amortização incerta.

Se uma marca centrar seus esforços em distribuir seus conteúdos, eles podem facilmente se transformar em formatos publicitários muito mais ricos, interativos, colaborativos e customizáveis que os formatos passivos.

Mas se a Internet tem potencialmente tantas antenas quanto usuários, se todas as pessoas são mídia, é lá antes de tudo que a marca deve estar: no site, blog, perfil de rede social das pessoas. É lá que as marcas conseguem garantir maior cobertura e pertinência.

Ser destino ou hub de distribuição não é mais uma questão de lógica nem de eficiência.

É só uma questão de quimérica vaidade.

A Internet é dos nerds, graças a Deus

22/09/2010 em Internet | 3 Comentários »

A corporação dos maçons, na Europa medieval, era poderosíssima. Não estamos nos referindo à sociedade secreta que tanta influência teve desde a revolução francesa na disseminação ativista do ideário iluminista, embora ela tenha nascido no seio dessa agremiação de profissionais. A corporação dos maçons, ou pedreiros, tinha princípios éticos e de formação muito rígidos e foi graças a eles que ela teve muitos papéis sociais e políticos, ao longo de muitos séculos. As obras públicas, reais ou religiosas eram auditadas pela corporação. As vidas dos integrantes da corporação eram fiscalizadas. E, acima de tudo, os maçons partilhavam ideais que transcendiam os interesses individuais.

Recordemos um instante dos primórdios da Internet. Quem inventou esse negócio aqui, quem ainda inventa e revoluciona, muitas vezes subterraneamente, esse universo são pessoas que você nunca viu nem nunca vai ver. Engenheiros-usuários ou usuários-tout-court que são como os construtores de catedrais do passado.

Embora a Internet esteja sendo, de forma crescente, explorada por interesses comerciais – inevitáveis e promissores – os ideais da nerdolândia prevalecem e asseguram o dinamismo do ambiente. Muito poucas iniciativas bem-sucedidas da Internet, dessas arrasadoras tanto em popularidade quanto do ponto de vista financeiro, nasceram sem a influência decisiva desses ideais, a saber, de liberdade, transparência, colaboração e resistência.

Nada disso está escrito em lugar algum, mas está na alma que rege a Internet. Ainda bem, caso contrário, a Internet já seria um nojento canal de venda.

Devemos respeitar esses princípios, sempre, se queremos ser bem-sucedidos comercial e publicitariamente.

Se você acha a propaganda na Internet excitante, não leia

15/09/2010 em Internet, Propaganda | 24 Comentários »

Já se vai mais de uma década e os formatos publicitários na Internet continuam tristemente sem capacidade de transcender. Parece que os caras que criam esses formatos continuam concentrados demais na capacidade de atingir as pessoas certas e mensurar os resultados. Mas isso é apenas uma parte – importante mas não suficiente – da equação fundamental da comunicação publicitária.

Os portais iam revolucionar a mídia da Internet, depois foram as buscas, os comunicadores instantâneos, as plataformas colaborativas, as redes sociais, mas tudo continua muito pouco excitante. No fundo, no fundo, parece que continuamos criando banners. E mesmo que eles estejam mais performáticos, mais precisos, mais ágeis e, às vezes, um pouco mais sexies; mesmo que eles estejam maiores, mais interativos, menos intrusivos, ainda estão muito longe de conseguir o nível de envolvimento emocional que um reles comercial de 30 segundos é capaz de proporcionar.

Parece que a Internet ainda é comandada por uma multidão de nerds, suprainteligentes, megarratos comerciais, mas com uma espécie de atrofia afetiva.

Você já chorou com um banner, já gargalhou com um link patrocinado, já teve palpitações com um pac-man ou já teve pânico consumista com alguma mensagem comercial na Internet?

Duas hipóteses se desenham portanto.

A primeira é que é assim que caminha a humanidade. Que a propaganda tende a perder qualquer atratividade emocional e que os consumidores só se sentem engajados com mensagens racionais, embora muito assertivas. Se assim for, a propaganda será robotizada em poucos anos.

A segunda é que os veículos na Internet ainda vão ter de descobrir um jeito de criar formatos tão bons quanto um comercial de 30 segundos. E, para que eles sejam tão formidáveis quanto podem ser na velha-caduca mídia tradicional, a interrupção comercial parece ser o único caminho. Não é possível emocionar uma pessoa se sua concentração estiver dispersa. Não é possível emocionar num piscar de olhos. Tem que dar tempo e tempo concentrado para emocionar alguém. Tempo e tempo interrompido.

Enquanto nenhuma das hipóteses for conclusiva, a gente se satisfaz criando artifícios que dependam da boa vontade do consumidor: que ele queira clicar, que ele queira brincar, que ele queira postar, difundir, interagir.

Pena que todo consumidor seja mau caráter, espírito de porco, promíscuo e mal-humorado. Principalmente quando está na Internet.

O New York Times sem papel. E daí?

13/09/2010 em Internet | Tags: | 2 Comentários »

O que tem de bombástico o anúncio de Arthur Sulzberger Jr. de que “algum dia, o New York Times deixaria de ter versão impressa”?

Nada. E impressiona o fato do que a mídia, no mundo inteiro, repercutiu a frase, como se fosse uma profecia assegurada.

A mídia continua confundindo o meio de campo e segue achando que a revolução que está em curso refere-se tão somente a uma questão de plataforma ou device.

Se o papel vai deixar de ser um suporte para o New York Times ou qualquer outro veículo de mídia impressa, é, com muito boa vontade, uma simpática afirmação digna de um congresso de ambientalistas histéricos. Portanto, tão irrelevante quanto óbvia.

Há muito tempo que a questão não está mais em como sustentar um suporte velho como o papel e que sempre chega e chegará com atraso à casa das pessoas.

As questões centrais estão na forma como o conteúdo é produzido, quais são seus custos fixos, como lidar com os direitos de autor e como garantir um mínimo de apuração.

O centro das preocupações deve ser como construir um novo laço de conexão com os leitores que não dependa mais da superioridade decorrente da propriedade da informação, pretensiosamente encabeçada pela mídia. O consumidor de informação não tolera mais essa superioridade, de poucos para muitos.

Os jornais podem desistir amanhã do papel e estar só online, no éter ou nos sinais de fumaça, que eles continuarão ameaçados ao persistirem com uma estrutura própria e exclusiva de produção de conteúdo.

A greve do Google

10/09/2010 em Internet | 1 Comentário »

Imaginemos que, amanhã, a Internet entre em pane. Vai ser pior que a ameaça de invasão do PCC: pânico. É quase impossível dimensionar a nossa dependência e inimaginável antecipar os prejuízos.

Mas, do nosso quintal, dá pra chutar com algum grau de acerto: nenhuma campanha sai, nenhuma apresentação de planejamento vê a luz, se todas as ferramentas de busca de todos os sites fizerem greve.

Se a Internet é uma eficiente vaselina nas rotinas, ela também é um amortecedor de iniciativas.

Dar um “google” – no sentido amplo do substantivo e não do nome próprio – é útil, mas já perceberam como essa atitude se antecipa a qualquer esforço intelectual?

Antes de colocar qualquer neurônio para se exercitar, a gente vai chafurdar na grande rede, dichavar seus infindáveis meandros e naufragar na primeira resposta razoável para nossas hipóteses precoces.

Antes de ler, antes de reler, antes de conjecturar, contemplar, meditar, rabiscar, “Dá um google aí, mané!” Depois de meia dúzia de cliques e de leituras arrevesadas, o espírito crítico anestesiado e a paciência com o pai na forca, a gente conclui, copia e cola.

E assim nascem os desk-research, os relatórios de tendências, os raciocínios, as análises, os caminhos criativos, os insights, as ideias.

Antes de dialogar, debater, trocar uma ideia, “Search aí, bocó!”. Enfurnamos o nariz no teclado, e o tutano se dissolve no mocotó digital.

Dizem que neurônio é como pinto: falta de exercício atrofia.

Longa vida à World Wide (WIDE!) Web

09/09/2010 em Internet | 5 Comentários »

Em seu confuso artigo “A Web está morta. Longa vida para a Internet”, Chris Anderson da Wired profetiza, mais uma vez.

Embora seja difícil diferenciar Net (Rede) de Teia (Web), sua tese repousa numa tendência de concentração de interesses e atração em plataformas online mais completas e fechadas (o que ele chama de Internet) em detrimento de navegações à deriva (o que ele chama de Web).

Parece ser mais confortável ter um iPod, um iPhone, um iPad, uma camiseta I Love Mac e uma tatoo da maçã mordida no peito. Aparentemente tudo conversa mais facilmente com tudo e os aplicativos se integram com lógicas semelhantes. Da mesma forma, o Facebook é uma plataforma que pode integrar muitas aplicações em seu microcosmo: sem sair de lá, você se relaciona, se diverte, se informa, se arquiva, se autopromove, se arruma na vida, se casa e continua com alguns prospects.

A profecia da hora também dá conta da facilidade de viabilização econômica desses ambientes “integradores” da Internet em oposição a modelos de negócios que ainda tateiam para sobreviver, em particular aqueles oriundos da mídia tradicional, em estado semi-catatônico.

Há muito tempo que a mídia desistiu de ser só informativa para investir na análise. E em matéria do admirável-mundo-novo-da-revolução-tecnológica, a análise vira profecia num piscar de olhos. Como a memória é curta, ninguém vai cobrar ninguém e fica tudo bem. Lembro-me de capas antigas da Wired que anunciavam a falência iminente da Apple por absoluta intransigência de integração com outras tecnologias, do estonteante domínio dos mundos virtuais à la Second-Life, da impossibilidade de sucesso de redes sociais fechadas como o vovô Geocities etc. Nada disso aconteceu, mas quem lembra?

Pangloss diria que todo mundo lê a Wired justamente para evitar desastres iminentes.

Lembro-me de um profeta mais prosaico de quem assisti uma palestra com uma centena de entusiastas donas de casa em noite de alforria. Dizia ele ao anunciar suas visões: “No ano que vem, pessoas importantes morrerão. Outras não. O papa, talvez”. O papa “talvez” me fez gargalhar, que Deus o tenha, porque ele, de fato, finalmente, bateu as botas.

Mas a provocação do editor da Wired – damos-lhe o crédito de alguns chutes pro gol – encerra o modismo do momento: apontar o Google (que abre as portas da Web) como o grande irmão odioso e o Facebook (que acolhe todo mundo com conforto e segurança) como eterna princesa donzela.

Os Yankees são chegados demais na adoração de corporações e marcas. Todos os vieses das análises sempre recaem na apreciação dos negócios, das empresas ou – no caso específico da Wired – das personalidades por detrás delas. É como se nós, obedientes ovelhas, estivéssemos sempre sendo arrastados pelas tendências que elas criam ou – no caso específico da Wired – em adoração majestática aos capitães e suas geniais ideias.

Até agora, a única profecia com um mínimo de credibilidade é uma simples constatação: nesse admirável-mundo-novo-da-revolução-tecnológica, tudo muda rápido, tudo surge rápido e tudo morre rápido.

Portanto, ainda nos resta a torcida filosófica: entre a prisão da redezinha fechadinha toda formatadinha e pasteurizadinha, entre o modismozinho idiotizante e a liberdade, eu fico com a liberdade. Da World Wide (WIDE!) Web.

A Internet é mais que uma plataforma

08/09/2010 em Internet | Tags: | 5 Comentários »

Já existe mais de um celular por habitante no país e já, já vamos encontrar uma situação similar na Internet: as pessoas tendem a ter muito mais do que um ponto de acesso a ela.

Quando o F/Radar, pesquisa que calcula há 3 anos os comportamentos dos consumidores em várias áreas, inclusive Internet, a primeira providência na montagem do questionário foi tentar encontrar uma forma nova de acessar esse dado sem cair nos vícios burocráticos tradicionais (filtros inadequados, perguntas mal compreendidas etc.). Logo na primeira leitura, o número de “internautas” (palavra odiosa criada no ultrapassado apartheid digital) saltou significativamente em função da metodologia e principalmente porque em vez de medir a “posse” de acesso à Internet simplesmente mediu-se o acesso. Muitas pessoas (a maioria) não pagam uma assinatura de Internet, mas nem por isso podem ser consideradas excluídos digitais. Afinal de contas, lan-houses, pontos de acesso gratuitos, casas de amigos e parentes dão oportunidade a muitas pessoas que não podem pagar por um provedor, mas mesmo assim são “internautas”.

Mas ainda falta uma população muito grande de brasileiros com acesso à Internet muito pouco pesquisada quantitativamente. Trata-se de toda a geração de pessoas que nasceu quando a Internet já era relativamente popular: os adolescentes entre 12 e 16 anos. Quando começarem a ser contabilizados e estudados, o número deve saltar mais uma vez e, principalmente, veremos surgir, nos números, uma geração multiconectada, com hábitos e comportamentos muito distintos daqueles que se adaptaram.

Esses indivíduos, que somam mais de 10% da população brasileira, certamente têm a Internet como central nas suas vidas. A mesma centralidade que a televisão tinha numa geração anterior. É muito provável que, para eles, muitos paradigmas válidos para a mídia tradicional  estejam invertidos, em particular no acesso à informação e entretenimento. Para eles, a Internet é sem dúvida a  plataforma prioritária.

Quando comparamos as plataformas (Internet com TV, por exemplo), podemos inferir que a interatividade e a colaboração exercem uma mudança radical de comportamento nesse público. Um veículo que não considere essas duas características como centrais (e não adereços pseudomodernizantes como o fazem a maioria dos veículos tradicionais em suas plataformas digitais), seria um veículo com menos prestígio, credibilidade e popularidade.

Da mesma forma a velocidade no fornecimento da informação e a gratuidade do conteúdo são os alicerces de qualquer veículo que pretenda atingir essa geração, e consequentemente, a geração seguinte, daqui a alguns anos. Pagar por algo não palpável é um contrassenso para eles. Muitos pensam que a responsabilidade dessa maneira de pensar é dos veículos que disponibilizaram seus conteúdos de graça no início. É miopia pensar assim, porque o que está em questão é a própria credibilidade da estrutura tradicional de geração de conteúdo: broadcast de poucos para muitos. Na Internet tudo é de muitos para muitos.

Ainda, o conteúdo livre de direitos é outra pedra de toque para essa geração. Para eles, a reserva autoral de lei não é injusta, é incompreensível. A própria noção de autoria não é fator da origem criadora do conteúdo, mas da divulgação deste. Em outras palavras, criador não é quem cria mas quem espalha.

A questão central pra mídia não é mais a adaptação de plataforma (embora muitos ainda patinem nessa chucrute);  o fulcro da mídia na Internet é interatividade, colaboração, velocidade, gratuidade e uma nova autoria.

Mídias novas e velhas: la même chose

01/09/2010 em Internet, Propaganda | Tags: , | 1 Comentário »

O Brasil vive numa ilha de relativa harmonia e passa ao largo das grandes crises que o mercado publicitário enfrentou, no primeiro mundo.

O modelo de negócio foi tão questionado e colocado em cheque que, muito antes da atenção do consumidor se esfacelar numa constelação de veículos, ele acabou se reequilibrando apesar de não resultar em visível incremento qualitativo na missão primeira da propaganda – a saber, ser um instrumento de venda. O resultado mais evidente foi uma certa perda de prestígio da atividade publicitária e um consequente nivelamento por baixo das receitas e dos salários.

Quando as fórmulas tradicionais para atrair e seduzir os consumidores foram revisitadas com as plataformas digitais – mais numerosas, férteis e mensuráveis – os modelos clássicos de negócio faliram e o segmento foi obrigado a se “especializar”. Receita compartilhada entre muitos agentes trabalhando para um único cliente levaram a compensações salariais achatadas, que levam à menor capacidade de atrair talentos, o que leva à piora qualitativa, que leva pro buraco.

Graças a muita coisa – maturidade, estabilidade, configuração e concentração na mídia, qualidade, técnica e talento – o mercado brasileiro singra outros mares de relativa paz, apesar da dor de cotovelo dos franco-atiradores que insistem em rebelar-se contra os modelos de remuneração.

Mas, quando se encaram as novas mídias, ainda prevalece um pensamento apartado, pouco integrado do modelo de negócio. Os argumentos da especificidade desses meios conduzem a novas maneiras de avaliar retornos para o cliente que levam a fórmulas de receita diferenciadas, que levam a novas maneiras de remunerar talentos, o que leva a rediscutir tudo de novo, inclusive o que está indo bem.

A propaganda em meios tradicionais tem exatamente a mesma função da propaganda em meios não tradicionais. Sem tirar nem pôr, seus objetivos são rigorosamente iguais, mesmo que as nomenclaturas sejam diferentes. É a regra do quanto: quantas pessoas a propaganda impacta, atrai e seduz. Simples assim.

É totalmente lógico que sua remuneração seja fator, portanto, dessa capacidade de impactar, atrair e cativar audiências. Na mídia nova e na velha.

Se o objetivo é o mesmo, se o cliente é o mesmo e se o consumidor é o mesmo, então por que discutir um modelo bem-sucedido à luz de um modelo que engatinha?

Enquanto o modelo de negócio das agências não integrar todas as mídias numa mesma lógica de receita, as mídias marginais permanecerão marginais. As mídias deficitárias permanecerão deficitárias.

Sem falar no contágio.

O Orkut é tosco?

31/08/2010 em Internet | Tags: , , | 11 Comentários »

Todo mundo tem muita opinião sobre Internet. Por ser, provavelmente, o meio mais fácil de ser pesquisado, ele também é o mais pesquisado. E, com ou sem carona em pesquisas, tem mais analista do que internauta, principalmente os sem carona.

O Orkut é incontestavelmente a rede social mais popular do país (com uma diferença abissal para os outros), aquela que as pessoas mais costumam acessar (o Orkut não é um cemitério de bits), e permanece incólume, no topo, há mais de dois anos.

Sua utilização é abrangente (usado ativamente no compartilhamento de conteúdos) e acompanha a própria penetração do acesso à Internet em termos de classe, idade e sexo.

Por outro lado, o crescimento das outras redes,  pretensamente mais populares acima do Equador, acompanha tão somente o crescimento da massa de internautas.

Mas todo analista adora comparar, inclusive coisas incomparáveis, como o Orkut e o Facebook. E claro, a brasa sempre é puxada para sua sardinha. E o Facebook é a sardinha de quase todos os analistas, os sem-carona.

O mais recente argumento dá conta do crescimento do Facebook na Índia, igualando o Orkut. Mas também ouve-se que o Facebook tem mais aplicativos, tem integração mais amigável com outras redes, tem gadgets mais divertidos, é mais privativo, é mais preparado para intervenções comerciais como conteúdos proprietários de marcas, é mais bonito, mais moderno, mais seletivo, mais isso e mais aquilo. Mas a Índia não é aqui.

Mas se a penetração do Orkut não mexe uma palha há anos, se as outras redes não crescem na proporção de suas ambições e da torcida uniformizada dos analistas, pelo menos duas hipóteses podem ser levantadas.

A primeira é que provavelmente as diferenciações do Facebook não são suficientemente relevantes para atrair pessoas já habituadas e sedimentadas no Orkut. Dá trabalho mudar de número de celular, mesmo com a portabilidade. Migrar de rede é mais do que trabalhoso, é como mudar de identidade, de país, de família.

A segunda hipótese é que o Orkut talvez não seja  tosco, mas simples. E essa simplicidade talvez seja o que as pessoas gostam nele. Se perguntarem para uma novelista militante se ela quer interatividade, por exemplo, e escolha de trama online, aposto que ela vai mandar todo mundo plantar coquinho na rede mundial de computadores.

Toda análise é boa, desde que não contrarie as evidências.