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O marketing cria?

Coco Chanel, até os últimos dias de sua vida, além de se debruçar de giz em punho sobre os moldes, freqüentava os ateliers de suas costureiras, seus fornecedores de rendas, tecidos e flores, assistia aos desfiles do alto da mítica escadaria espelhada da rue Cambon, supervisionava as sessões de fotos, revisava textos de divulgação, treinava as modelos como se fossem animais de estimação e dirigia todas as campanhas publicitárias.

Não havia Marketing na Maison Chanel. Ou melhor, o marketing era uma atribuição criativa, portanto, Madame cuidava. A divulgação e a propaganda era parte do produto. Ainda é assim na indústria da alta moda: uma marca é construída com conteúdos criativos que começam no produto e terminam no pós venda, passando pela propaganda.

O marketing, que me perdoem os clássicos, é uma muleta operacional. Uma espécie de anomalia do processo criativo. Embora o marketing competente saiba se travestir de idéias e conte para isso com especialistas (agências por exemplo – de propaganda, de tendências, de pesquisas, etc), quanto mais distante do processo produtivo, quanto mais longe dos laboratórios e protótipos, mais alienado da criação. Muitas vezes ainda, o criador, o mestre da fórmula, o talento original aposentou-se e terceirizou a criação para o marketing. Quem faz não cria mais, só executa as estratégias pensadas no andar de cima.

É precisamente para suportar uma utilidade que o marketing se sofistica, produz teorias, ensaios, metodologias, gramáticas de qualificação das marcas, léxicos interpretativos, pesquisas e mais pesquisas, mensurações e mais mensurações.

Se competência se mede em incrementos de vendas, então o marketing é uma ferramenta. Real.

Mas o marketing que se pratica hoje tem veleidades de poder e ao debruçar-se sobre o processo criativo, perora, tergiversa em inutilidades teóricas paralisantes.

E aqui, se a competência se mede em incrementos de imagem, então o marketing pode não passar de uma quimera. Virtual.

O cabo da TV a cabo

Em recente pesquisa (de tão óbvio o resultado, nem preciso citar a fonte que esqueci), em média, pouquíssimos telespectadores de TV por assinatura memorizam canais e horários. A escolha é sempre aproximativa ou aleatória. Faça você mesmo o teste. Na coluna da direita, você deverá escrever a grade do seu canal de TV aberta mais freqüentemente assistido. Na da esquerda, o mesmo para um canal pago.

Audiência máxima e máxima qualificação são como gato e cachorro. Convivem mas com muitas reservas.

A busca pela audiência é baseada no binômio “mínimo denominador de apelos e conteúdos” e “programação generalista”. Esta é a receita da mídia de massa: facilidade de compreensão (no jornalismo), estímulos a sentimentos básicos (no entretenimento) e variedade (nas revistas televisivas que mesclam notícias e diversão). A televisão aberta cria portanto uma grade de programação que aprisiona (sem conotação negativa) os públicos. E nisto reside seu segredo de perpetuação: facilidade de comercialização e formação do hábito.

Já a TV por assinatura pretende ser segmentada, por assunto ou por público (ou complicando a equação, por assunto e público). A receita é baseada em profundo conhecimento das audiências e na produção de conteúdos sob medida.

E dessa pretensão nasce seu calvário.

É da natureza humana ser generalista, interessar-se por muitos assuntos, mudar de gosto e opinião. A segmentação por conteúdo gera, intrinsecamente, um apelo irresistível à fuga.

Somos animais volúveis, influenciáveis, instáveis e flutuamos sempre num mar de dúvidas. Embora sejamos educados para a auto-definição (homem ou mulher? sensível ou racional? liberal ou reacionário? esportista ou intelectual? Fla ou Flu?), tudo não passa de um fingimento social, uma máscara. A segmentação por público é uma areia movediça.

E não precisamos de muitas análises para perceber que os canais de TV por assinatura, diante de tanta incerteza, muitas vezes recorrem às velhas receitas da TV aberta, com a competência dramaticamente comprometida pela pobreza. Quando o canal fechado resolve ser um pouquinho “aberto”, mais parece uma TV com 30 anos de atraso.

Isso sem falar na miríade de canais enlatados, sem personalidade e identidade.

Os canais por assinatura nasceram para libertar o espectador da prisão monopolizadora mas o excesso de escolha e a segmentação matemática (a toque de pesquisas inócuas) aprisionaram seu sucesso no zapping: esse assassino de construção de marca.

E eis que surge a Internet. Precisamos aprofundar ou já deu para sacar?

Normatização do uso de blog e Twitter, por que não?

A Globo normatizou o uso dos blogs, Twitter e outras manifestações digitais para seus contratados. E muita gente já grita retumbantes palavras: “onde está a liberdade!”, “é o monopólio da informação!”, “defesa do que resta de poder!” e por aí vai.

Na prática, o que Rede fez foi restringir o xaveco das estrelas com os fãs a seus dotes próprios. Em outras palavras, o cara pode falar dos seus causos e casos, desde que eles não estejam relacionados ao trabalho. Uma espécie de pito de ética profissional básica. Só isso.

Não vamos pirar na exploração-capitalista-do-sistema-bruto-da-mídia-monopolizada nem no golpe-de- misericórdia-da-mídia-em-estado-de-putrefação-avançada-na-sua-marcha-desesperada-contra-a-Internet.

Se tenho um perfil no Facebook no qual documento minha excitante vida para os voyeurs que me amam, escrever que meu chefe X acabou de comer um cheese-salada com porção de maionese extra, que meu colega W está pegando minha colega Y, ou que amanhã vai ter uma reunião decisiva com o cliente Z (e supondo que isso seja realmente fascinante), estou é pisando na bola, feio. Seria mais ou menos a mesma coisa que mandar notinhas para a imprensa revelando coisinhas para pagar algum favorzinho que um veiculozinho me fez.

Se o artista da Globo usa o Twitter para divulgar seu programa, não seria mais decente que o programa tivesse o seu próprio? Ah, espertinhos, sacaram que ninguém está muito afim de ficar seguindo uma novela no Twitter, né? Então a gente faz assim: tem um ghost-writer (que chamaremos de editor para não ficar feio) que escreve para o galã. Fica todo mundo doidinho atrás do cara e assim a gente usa a Internet para dar uma bombadinha na TV e ainda por cima parece moderninho. Malandro!

Mas o que desandou então? Desandou porque tem uns mais espertos que preferem se virar com seus próprios big-brothers sociais: eles mesmo assumem o leme de seus perfis (nunca entendi direito esse “ovo ou a galinha”: o Galvão Bueno deve sua fama à Globo ou a Globo deve sua fama ao Galvão?). Mas quem resistiria a dar uma palinha da Cidade Proibida para ganhar mais “amigos” e “seguidores”? O que custa, né? Quem sabe o Twitter não vira uma espécie de Rede Globo do ciberespaço? A equação é assim: vaca sagrada na televisão = famosão no Twitter. E famosão no Twitter = independência da televisão. E independência da televisão = garoto propaganda de universidade, banco, loja de gato, sapato, imóvel, automóvel.

A Folha também baixou umas normas: os jornalistas “não devem colocar na rede os conteúdos de colunas e reportagens exclusivas. Esses são reservados apenas para os leitores da Folha e assinantes do UOL”.

De novo, lá veio o grito “é uma visão centralista” que não “vai aonde o povo está”. Mas raios, não é disso que estamos falando! O que aconteceu – de novo – é que o jornalista está construindo “fama própria” às custas do jornal. A Folha pode ter seus Twitters e ela está tendo uma visão distributiva do conteúdo. Tudo certo. E sem sacanagem, o conteúdo da Folha já está aberto, online.

Por que será que esse assunto virou notícia? Porque a anatomia da Internet subentende liberdade total de expressão? Porque a Internet é uma espécie de horda selvagem sem tabu nem ética?

Não.

Malandro é malandro, inclusive na Internet. Malandro na Internet é malandro na TV e no jornal, malandro na Internet é malandro na sala lá de casa, na firma, na rua, na cadeia e no quinto dos infernos.

Se a Internet é um vale tudo, onde tudo vale nada, quem ainda tem carne e osso precisa ter vergonha na cara. Quem ainda usa dinheiro pra comprar o leite das crianças, precisa defender o seu cofrinho.

O despertar digital das majestades

“O consumidor ganhou a oportunidade não só de tomar decisões de compra melhores…mas também de decidir quem serão as empresas que farão parte de suas vidas.”

“A Internet é uma ferramenta muito poderosa. Mudou a relação entre pessoas e marcas.”

“É bom quando as pessoas têm direito de se expressar de forma totalmente livre.”

“Nas redes sociais, você pode conhecer gente que você não conhecia.”

“O Twitter é uma ferramenta de disseminação muito poderosa.”

“O Google é um motor de busca muito completo.”

“O Youtube é uma biblioteca de vídeos.”

“Tem sites muito interessantes.”

“A Amazon foi pioneira.”

“Ah, A Internet!”

Essas pérolas foram colhidas hoje, por aí, nas dezenas de veículos especializados que cobrem (ou desnudam) o mercado publicitário (de orgulho e rídiculo). Hoje, dia dez de setembro de dois mil e nove! (e não citarei a fonte e seus autores porque nenhum dos veículos é creative commons: nóis gosta mesmo é de pirataria).

Me perdoem a falta de contexto, mas até estuprador é inocente se soubermos que o pai surrava a mãe e comia a irmã.

Mas a incontinência literária da blogosfera tem o poder de despertar múmias ou tirar belas adormecidas do coma.

Blogs do B

Outro dia perguntei para um amigo blogueiro profissional (tem twitteiro, facebookeiro e personal redesocialzeiro profissional também), o que ele fazia com os comentários bobos, off topic ou ofensivos: “deleto. Comentário é parte do conteúdo”. O argumento é bom.

Por mais polêmico que um assunto seja e por mais provocativa que uma análise pareça, o coro dos descontentes costuma ser covarde. Entrega-se mais facilmente à guerrilha enviesada em redes de influência do que parte para o confronto. Ou então – e mais freqüente – manifesta-se por trás de um anônimo fanfarrão.

Mas quando o critico tem vergonha na cara, aí, garanto, dá prazer publicar o achincalhamento. Até porque é muito provável que os leitores habituais tenham tendência a aprovar as idéias do autor (salvo os masoquistas que, como eu, deglutem o Jabor com ódio gozoso). A resposta é geralmente terceirizada automaticamente.

Portanto, parece haver mais risco em deixar publicar louros monossilábicos (“clapclapclaps”, “hahahahahas” e “wows”) e debates paralelos na platéia dos comentaristas.

Mas a maior cagada, essa sim sideral, é não dar opção. Criar um blog sem espaço para comentários é um convite irresistível para a desobediência civil. É o que aconteceu, óbvio, com o Blog do Planalto e seu Blog do B. Não é uma farsa, é o Blog do Planalto, igualzinho, com direito ao ululante: comentários.

E as merdas federais não param por aí. Porque em matéria de modernidade (sim, vou falar de novo da porcaria da lei sobre uso da Internet em campanhas eleitorais), o que vem lá do planalto é tão inspirador quanto participar de um grupo de pesquisa com consumidores em Brasília. Nem dá raiva porque, de tão inútil e modorrento, de tão genérico de porra nenhuma, dá é sono.

Vamos desobedecer imediatamente e abrir um blog do B dos políticos. Já o do Jabor vamos abrir o do A porque o brilhante cineasta, escritor e comentarista já nasceu do B.

Sobre redes sociais e lobos

Um frenesi polissilábico (thanks Nick Hornby) acometeu toda a mídia, inclusive a subterrânea e terrorista blogosfera. Só se fala em redes sociais, social media, essas coisas. É o tipping point da sociedade da informação, das relações interpessoais e da comunicação.

Com o justo atraso que o marketing das empresas merece (à força de precauções “mémedoéque” e instintos “tirarucu”), o frenesi virou histeria polibriefática. “Cadê minha estratégia de redes sociais!”, “Será que vocês estão tão atrasados assim que sequer pensaram nisso?”, “Acorda moçada, se liga, o mundo está todo nas redes sociais!”. Para quê? Nem se fala nisso (“ora, nao é óbvio?”), até porque o pedido de socorro geralmente esconde total cabaço.

Como já se disse, o desespero é um fator numerológico (e nem um pouco lógico). Se tem milhões de pessoas nessa coisa, deve ser bão.

Rede social é como a Internet: um ser, uma pessoa devassa, fértil e oferecida. Ou um monstro de mil cabeças, um milhão de braços e infinitos olhos. “Na Internet não é assim”, “a Internet não vai deixar”, “A Internet tem que achar seu caminho”. Chamar a Internet ou Redes Sociais pelo nome, dando-lhes qualidades e defeitos, é mais ridículo do que chamar sua geladeira de Silvia e dizer que ela é gostosa e perversa.

Pois as redes sociais, pessoal, não são NENHUMA novidade. Sabe aquele barbudo que inventou a vacina contra a raiva, o Pasteur? Ele descobriu que andar descalço na relva não “dá” gripe e que não existe geração espontânea. As redes sociais sempre existiram, pois é, desde sempre e antes da Internet atrair os incautos com seus tentáculos.

Ainda, NADA lhe obriga a estar presente nas redes sociais (seja lá o que “estar presente” signifique). Talvez você possa com isso, pobre Juan das redes sociais, sair da casca, conhecer gente, namorar, quem sabe? mas você (você?) Marca registrada? Precisar, não precisa.

Embora para o pobre Juan, marca é coisa inanimada, sem personalidade nem defeitos, nem qualidades, nem valores e muito menos missões e desígnios, para aqueles que as criam e também para aqueles que criam para elas (deve ser vício encontrar sangue, osso e humores em qualquer logotipo) marca é gente. E é justamente por isso que agora queremos “firmar presença” nas redes sociais. Para sair da casca, conhecer gente, namorar, quem sabe?

Marca é gente como a gente, gente! Então tem que estar aonde o povo está. Por aí, dialogando com as pessoas (somos muito ridículos) e seduzindo os consumidores (somos tarados).

Terceira regrinha de sanidade mental: a única coisa realmente importante que você que tem algum juízo deve fazer, é dar uma olhada no que estão falando da sua marca POR AÍ. Nada que você nunca tenha feito antes, só que agora ficou bem mais fácil porque está a poucos cliques de distância. E não entre em parafuso tá? Pouca gente continua sendo pouca gente, mesmo na Internet. Idiotas continuam sendo idiotas, mesmo na Internet. Pulgas continuam pulgas, inclusive na Internet. E lobos, perigosos e assassinos, continuam sendo lobos, até na Internet.

Morte aos especialistas em Internet

Estamos no século XXI há quase uma geração e agora é que a coisa ta pegando. E tá pegando porque estamos completamente perdidos. Estamos na maior crise de confiança que a humanidade já enfrentou.

Não sabemos em quem confiar e o menor dos rumores, a mais perversa das fofocas e a mais insignificante informação vira um maremoto, um complô, uma revolução.

Não basta o nervoso que sofremos por não ter visto aquele vídeo bombástico que incendiou o Youtube, não é suficiente admitir a incompetência de não conhecer o formidável plugin que o bonitão do Mashable noticiou e a desesperante perspectiva de saber que certamente, em algum lugar do planeta, um Mozart tecnológico lançou a rede social que vai colocar o Facebook de joelhos.

Nada disso basta, nem mesmo a inveja por você não ter sido o primeiro a repercutir a labirintite de uma ex-celebrity ou o tombo histórico de sua concorrente.

Se não bastassem tantas humilhações, tanta sarjeta existencial, ainda temos que suportar aqueles que se locupletam com sua ignorância. Falo daqueles malditos especialistas que arrotam no seu nariz ou aqueles eventos que vomitam as proezas transcendentais dos palestrantes.

Pois na verdade vos digo, são todos uns fingidores, não nos deixemos enganar e da próxima vez que um desses demiurgos chutar o seu estômago, devolva-lhe da mesma arrogância:

– Você já está no RitWer?” (quanto mais consoante e letra estranha, melhor)
– Como disse o Gordon Jones… (quanto mais comum e “Joe the plumber” o nome, melhor)
– Saiu hoje no NextPost, você viu? (tem que ter post no nome para dar credibilidade)

Que morram todos os especialistas (em Internet) enforcados nas tripas dos últimos neófitos (em Internet).

O mundo é dos Nanos

Houve um tempo em que acreditávamos que os humanos formavam uma manada que pastava entre cercas, ruminava sem saltos de humores e até consideramos que a estação de monta era sincronizada e que a procriação era uma variação estatística.

Naquela época, o sucesso era medido matematicamente: é tanto de audiência, de participação de mercado, de penetração (a outra). Como as pessoas eram segregadas em lotes com comportamentos similares, o único objetivo das atividades econômicas era crescer, crescer, crescer.

Assim nasceram os Schumacher e os Bolts, os Guiness Books e também as metas mercadológicas. O dogma do século XX é de que “uma parte sempre pode crescer mais do que o todo”. O único fator de sucesso decente era aumentar o tamanho do naco. Por isso inventou-se o anabolizante de porcentagem que manda nas nossas vidas.

Mas, para a sorte da contabilidade histórica, estamos no século XXI e para a nossa sorte, as coisas mudaram.

Alguns críticos acreditam que Dickens criou cerca de 13 mil personagens em seus romances. Só em David Copperfield, devem ter algumas centenas e, embora seja impossível lembrar-se – e por vezes entender – a intricada rede de relacionamentos que se cruzam, alguns deles são mega-celebridades por poucos parágrafos.

Acho que a digressão foi excessiva até agora já que prometi nunca ultrapassar duas laudas (laudas? Porque será que ainda se contam textos em laudas no Word?).

No século XXI, a fragmentação é tamanha que você pode ter poucos milhares de consumidores e seu market-share centesimal, mas ser melhor sucedido do que esse monte de executivos que se descabelam para atender aos fatores de sucesso do século passado.

Em pelo menos metade de todas as conversas que tenho com a geração do milênio, eu bóio à deriva: “Não, eu não conheço esse site que é um sucesso, nem esse aplicativo incrível, nem essa pessoa famosérrima, nem esse produto blockbuster, nem essa marca que TODO mundo está usando”.

Embora eu tenha vocação para a rabugice, acredito piamente nos nano-sucessos, nas nano-celebridades e nas nano-economias.

Por instinto de sobrevivência, vamos desistir de aumentar nosso pedaço de pizza porque tem outros iguais a nós, do outro lado da mesa, fingindo a mesma coisa. Os tempos hiper-modernos nos salvarão da hipocrisia.

Quem já viu um consumidor ter insight em pesquisa?

Quem fundamenta suas opções em pesquisas de mercado, tem uma relação de amor e ódio com metodologias, análises e conclusões. Somos animais inseguros e presunçosos por definição e nesse equilibrismo caminhamos.

As pesquisas são por vezes muletas, por outras, guias. E por isso, as pesquisas estão mais a serviço de preconceitos do que de aprendizados. Mais úteis para quem pesquisa do que para quem é pesquisado.

Pouco importa a técnica, das mais tradicionais às mais moderninhas, das mais científicas às mais intuitivas, das mais isentas às mais dirigidas, pesquisa não esclarece, confirma.

Fazia 21 anos que a General Motors pesquisava sua queda de participação de mercado. E ano a ano, as mensurações seguiam a mesma ladainha: vamos desaparecer.

Pesquisas são muito úteis para antecipar e inúteis para evitar.

Ainda que as pesquisas possam ter intenções exploratórias, nossa compreensão só alcança aquilo que fomos treinados a entender. Passamos desesperadamente ao largo – bem longe – de tudo aquilo que não estava registrado no script consciente de nosso cérebro. Insights só existem em pesquisas póstumas.

Se você quer estudar um elefante, de que adianta ir ao museu de história natural? Se você quer entender um fenômeno social, de que adianta encarcerá-lo em metodologias e técnicas?

Pois para que servem, então, as pesquisas? Para muita coisa mas pouco para aprender e inspirar-se.

Ministro Ayres Britto para presidente

O presidente Ayres Britto do TSE é um alento esclarecido no vendaval obscurantista que sopra em Brasília.

Ele já se expressou de forma contraria e inequívoca sobre o projeto de lei que tramita no congresso e que trata, entre outros assuntos, de tentar regular o uso da Internet em período eleitoral. Na qualidade de ministro do STF, ele foi mais incisivo ontem (02/09), enviando para publicação o acórdão que julga inconstitucional a lei de imprensa. Aproveitando a oportunidade, o texto qualifica a Internet de “território virtual livre” deixando natimorto aquele projeto de lei que tente enquadrá-la.

O que isso implica para além de respirarmos aliviados e aplaudirmos a autoridade?

Esse tipo de visão reconhece que a Internet é um organismo que se auto-regulamenta pela livre participação das pessoas. Aceita o fato de que esse sufrágio está em franco processo de universalização no pais. Também é possível retirar a crença na maturidade democrática do brasileiro para além dos discursos reacionários de parte de nossa elite.

Do outro lado da moeda, essas decisões também deveriam engendrar um redirecionamento importante de foco na nossa mídia.

Por que a Internet seria livre? Por que um jornal em papel, por exemplo, é sujeito a certas regras e suas versões online a nenhuma, poucas ou outras?

Talvez porque as versões online dão direito de reação livre. Talvez porque permitem a livre circulação das ideias, copy-paste, mash-ups, “recriações” ao sabor da eloqüência virtual das pessoas.

Talvez estejamos no limiar de uma formidável transformação que vai dirigir um investimento colossal para a Internet.

Qual é o produtor de conteúdo, jornalístico ou de entretenimento, que não se sente seduzido por um meio livre, sem travas, sem telhado de vidro, sem interferências? Qual é o publicitário que não fica aliviado de poder utilizar sua criatividade sem cabrestos nem hipocrisias? Qual é o ser humano que não gosta do poder de desprezar, zapear, caluniar ou destruir os conteúdos que julga irresponsáveis ou impróprios?

E a experiência vai valer a pena, mesmo que seja para se perguntar, depois, o que a gente vai fazer com tanta libertinagem.

A criação autista

O autismo é uma doença que decorre de extrema sensibilidade e a conseqüente dificuldade de se comunicar com o mundo. E já há teses científicas que dão conta de uma espécie de epidemia de autismo. Isso é sério. Até aqui não estou ironizando.

Mas o autismo da propaganda não é uma epidemia. É um vício.

Os autistas fecharam-se numa bolha de mimos e auto-elogios patrocinados pelo narcisismo dos pais criadores do negócio. E como vivem em redes etéreas, virtuais, fantasiosas, mal se comunicam entre eles.

Nesse vácuo geracional nasceu uma criação que não sabe mais o que é propaganda, nem comunicação e muito menos que esse é um negócio. Ou nunca soube porque se nutre da compra do elogio de poucos.

Tristes os “11 de setembro” que cometem.

A opressão do Google

Uma pesquisa aponta que mais de 70% das pessoas que fazem compras em supermercados consideram essa atividade um pé no saco. Tem outra que diz que a maioria das pessoas vai às compras com a lista, ou parte dela – inclusive de marcas – decidida.

O suplício tem muitos motivos: orçamento apertado, mau humor do cônjuge, histeria infantil, luz gelada, fila, gente feia e a constatação de que todo esse tempo e dinheiro estraga a dieta. Compras de supermercado: se não matam, engordam.

Mas quando você tem a chance (ou o azar) de ir às compras sem obrigação, é possível isolar um indizível motivo de sofrimento: a liberdade de escolha. Colocar pesos e medidas, racionais e emocionais, entre tanta oferta é fator de insegurança. Fora a tentação pecaminosa do supérfluo. Liberdade uma ova.

Excesso de escolha aprisiona.

Um rebelde caçador na savanas africanas costumava lembrar-se dos elefantes em disparada quando encontrava-se na cadeia. Uma tropa de paquidermes sem freio era sua metáfora de liberdade salvadora.

Será mesmo que a Internet é nossa Meca de liberdade? Conceitualmente talvez, na prática nem um pouco.

A Internet peca por opressão de abundância e a falsa sensação de livre arbítrio.

E se os motores de busca fossem tiranos disciplinadores? E se os indecifráveis algoritmos de relevância, monetizados ou não, premeditados ou não, fossem obscuros inquisidores?

E se o Google fosse o HAL-9000 de “2001 – Uma odisséia no espaço”?

A Rede Globo era o grande irmão? Sei não.

Preguiça de Internet

Todos os artigos, todas as reuniões, todos os briefings, eventos, Power-points, showcases e papos de corredor comungam o mesmo mantra: “Internet geeennnte!” e de carona, ainda dá pra ouvir “se tu quer fazer algo na Internet, se liga que tu não vai poder ter controle sobre tudo, se liga que é tudo pulverizado, se liga que dá pra mensurar, se liga que ninguém quer ouvir uma marca, blablabla”.

A unanimidade também faz uma novena: “Mídia morta geeennnte” e na boléia ainda se cacareja “se liga que GRP é uma medida aproximada, as audiências estão caindo ou são artificialmente infladas, o jovem odeia isso, a classe C é aquilo, os formadores de opinião aquilo outro, tralala”.

Perdeu a graça. Todo mundo concorda tanto com tudo que já dá vontade de torcer para que caiam todos do cavalo. Todos os arautos do fato consumado, os profetas da obviedade e os evangelistas da causa ganha.

Parece mais difícil fazer um comercial blockbuster do que uma estratégia de mídias sociais acachapante. E a matemática da fantasia faz um baita efeito nas apresentações.

Sabe a meta do milhão da Internet que vale mais do que dez milhões na TV (média de um programa meia bomba num horário idem na rede Globo)? A menos que a gente seja mulher de malando, o milhão quimérico de lá deve custar mais que os dez milhões garantidos de cá.

Não é desejo de polêmica, é desejo de justiça. O pêndulo está bêbado novamente. Visionário aquele que fizer uma campanha que não tenha nada na Internet nem brand-experience, nem brand-content, nem brand-coisa-nenhuma.

Você tem talento? Grande coisa

Outro dia, um amigo se debatia com seu futuro. Apesar de viver no século XXI, ele continua com só dois olhos, poucos dedos e um único cérebro. Azar o dele porque devem existir bilhões de jornalistas, escritores, fotógrafos e artistas. O que vai ser da gente?

Muita gente afirma, ora com vergonha, ora com orgulho, que não tem jeito pra tecnologia, não se adapta, “não é comigo”. O mundo não está dividido entre aqueles que dominam e aqueles que se atrapalham. Tecnologia que confunde é tecnologia fracassada. Tecnologia simplifica, por definição. E sim, o dino que você goza hoje, vai aprender. O mundo não é dos nerds.

Tem outros que preferem abdicar das mudanças generalistas do futuro. “Sou um especialista, manjo pacas dessa coisa aqui e ninguém é melhor do que eu”. Esta também é uma falácia. Essa renúncia atrofia o mundo. A curiosidade é um sinal mais vital que o batimento cardíaco. O mundo não é dos experts.

Finalmente tem uns que se auto-justificam com o talento. “Foi Deus que me deu”. Essa justificada ou falsa pretensão é a tabua de salvação. Mas esse naufrágio da individualidade é o bug do milênio. O mundo não é mais dividido entre aqueles que sabem (ou acham que sabem) e aqueles que não sabem. Essa barricada do talento que nega a cauda longa já não é mais rentável nem competitiva.

É arcaico saber o que ninguém sabe, e a efemeridade desse poder deixa o mais sabichão de calças curtas, em dois cliques.

É senil desprezar os bilhões de anônimos talentosos neófitos que andam por aí.

O suicídio dos hiperativos é intriga

Todos os dias, toda hora, temos que ver centenas de posts, ler uma dezena de jornais nos quatro cantos em quatro línguas e ainda pensar sobre todos, produzir sobre alguns, atualizar os perfis, responder às mensagens, ser inteligente, original, analítico e histericamente curiosos. Também temos que fazer monstruosos exercícios de memorização, de associação de significados e organizar tudo em hierarquias funcionais e criativas. Meu pai só tinha dois jornais para ler. Sortudo.

Não é mole manter-se vivo hoje em dia. A menos, é claro, que a gente despreze o mundo com o ar blasé de um “isso eu já vi”, “isso passa” ou pior, “nada mudou”.

Minha tia Inha tem 103 anos. É lúcida e tem saúde. Por vezes, ela suspira “será que Deus esqueceu-se de mim?” mas enquanto ela puder ler e ver novelas, é feliz. “Sabe meu filho, eu adoro ler. Passo o dia lendo, lendo, lendo. Enquanto estou lá, no livro, fico muito curiosa, gosto demais. Mas quando chego no final, sabe de uma coisa? Já esqueci de tudo. Então, volto para o começo. Só troco de livro quando vocês me dão um novo. Mas não carece não, visse?”

Talvez tenhamos a pretensão de achar que nunca, na história do homem, a velocidade das transformações foi tão grande e profunda. Se leda presunção, complexo de insignificância ou vaidade crônica, a cobrança do mundo tempera nossa ansiedade. E vamos investindo, porque o cérebro é elástico e o tempo uma trapaça.

O pianista de redingote esbofa-se sobre a partitura para uma interpretação nova, fresca, contemporânea de uma obra composta há trezentos anos. A platéia em êxtase, trejeita muxoxos oitocentistas. Há mais de século que a cena se repete. O cara não tem facebook, nem blog, nem sabe, coitado, que ele pode dar um boost na sua popularidade twittando adoidado.

Se parte da humanidade reza “tomara que eu morra a tempo” todos os dias, a outra, felizmente, reza o contrario. Escolha e relaxe.

Youtube e Rede Globo são concorrentes sim

Quando o fundador do Youtube afirma que a mídia Internet vai acabar com a Televisão, não podemos nos deixar enganar pela já clássica falácia que confunde a plataforma com o conteúdo. A plataforma é a máquina, o conteúdo é o que a máquina exibe.

O que o cara está portanto dizendo pode ser visto de duas maneiras.

Plataformísticamente, o computador (ou que tais) vai acabar com o aparelho de televisão. É a HP versus a Phillips, por exemplo.

Conteúdísticamente, aquilo que se exibe na Internet, da forma como se exibe e da forma como se assiste é que está espezinhando os formatos tradicionais da televisão. Queiramos ou não, é sim o Youtube versus a Rede Globo.

Discutir plataforma é perda de tempo porque é nessa praia que a convergência rola, e bem.

Conteúdos e forma de produzi-los é uma discussão muito mais fértil.

O Youtube se diz uma plataforma de exibição. Ora, as emissoras de televisão também. Portanto, são concorrentes desse lado da moeda.

As redes de TV produzem ou adquirem conteúdos. Ora, o Youtube apesar de não ter estúdios e claquetes, também.

É que o Youtube sacou antes e melhor o que significa “produzir / adquirir” conteúdos hoje.

Ele sacou primeiro que direito autoral é uma vaga e fracassada utopia de dominação.

Entendeu que existem muito mais autores do que deixam supor as peneiras da Rede Globo.

Foi mais esperto porque entendeu que ninguém tolera mais o cabresto das grades de programação mas deseja o vôo semi guiado por algoritmos de relevância (audiência, cruzamentos de preferências, ratings, etc).

Ainda, o Youtube sabe da fragmentação da audiência e da atenção e que é muito chato ficar horas assistindo certos conteúdos quando se pode ir diretamente aos livremente editados. E “livremente” é palavra chave na afirmação como o contrário de “curado, escolhido por curadores”.

Por fim, o Youtube vai mais fundo na sua ciência e desenvolve ferramentas de produção / criação para seus fornecedores de conteúdo, inclusive seus concorrentes (com ou sem autorização). Ele dá espaço, ele dá interação, ele dá conexão e, vejam que louco, ele dá audiência.

E tudo isso, sem falar de medição de audiência e da maioridade do Youtube fechando contratos de exibição com estúdios.

Então deixemos de meias palavras: ou a televisão entende e aceita, e rápido, o que é produzir conteúdo hoje, ou ela aceita que é concorrente do Youtube. Ou vai dormir ou vai pra cima.

#ForaLeisDeControleDaInternet

Se as elites vivem num disco voador, movido por tendências gringas ingurgitadas com caroço, e em rota de fuga do planeta, o que dizer dos nossos augustos legisladores? São icebergs à deriva numa realidade que lhes escapa por proselitismo medieval.

Quando a inquisição reconhece o tamanho da heresia, é com o poder de sua ignorância brutal que ela reage: tramita no congresso uma lei que pretende estabelecer regras sobre o jornalismo e a propaganda eleitoral na Internet. O manicômio federal excita-se com as perspectivas de arrebanhar eleitores em troca de poucos espelhinhos. Mas os zelosos democratas querem que a corrida seja justa e não privilegie interesses financeiros.

O que fizemos a Deus para merecer essa corte dos milagres? Não, não entenderam nada e nunca vão entender.

Alô, presta atenção de uma vez por todas: não dá para legislar sobre a Internet, ta entendendo? Sim, ela está acima dos interesses porque contrariamente a vocês, ela tira sua força de um sufrágio legítimo.

Um portal de Internet não pode dar tratamento privilegiado a um candidato. Alô? Portal? O que é isso? Quem liga pra isso?

Ta bom, vão lá censurar os portais. Sabem o que vai acontecer? Os candidatos (vocês mesmo que legislam com tanta ética hoje) vão sair fazendo e comprando blogs individuais ou seus autores, e pronto.

Ah, espertinhos, querem obrigar a dar direito de resposta a quem “difamar” um candidato? Tipo assim, se eu disser, no meu blog, que o Jabba the Hutt é corrupto vou ter que dar espaço para ele responder? No meu blog que NÃO é uma concessão pública? Façamos assim: Jabba, te dou o blog inteiro, divirta-se, pode escrever o que quiser. Os leitores vão adorar te ver na minha praia e tenho certeza que você vai conseguir convencê-los que você é o Mister Magoo.

Mas o projeto ainda avisa que a propaganda eleitoral só será permitida nos blogs, sites, comunidades e outros veículos do próprio candidato. Como assim? Não vai ter propaganda eleitoral gratuita? Ué, mas não somos um povo ignorante que não sabe votar?

Vamos parando. Não dá para entender nada. Só que o projeto é conduzido pelos senadores #ForaMarcoMaciel e #ForaEduardoAzeredo. Sacaram o naipe do trem fantasma?

Bye bye dead tree society

Minha irmã acaba de escrever um livro (muito lindo) para a maior editora da França. Jabá orgulhoso feito, ela contou-me como se dá o lançamento.

Que a Internet já mudou toda a cadeia produtiva e de divulgação de muitos setores, todo mundo sabe. Mas é de se alegrar quando uma indústria tão empoeirada, que tira seu sustento precisamente daquilo que está moribundo – a coisa publicada em papel – desperta, do alto de suas sábias rugas.

Quando o livro ainda está manuscrito, a editora envia uma copia, digitalmente é claro, para cerca de 200 leitores que se interessam pelo tipo de literatura em questão. Até aí, nada de novo: as editoras sempre fizeram esse tipo de teste.

Mas o que é diferente é que esses leitores estão devidamente conectados com seus próprios blogs e redes. A turma do sem-blog não serve, assim como não interessa quem só escreva em veículos especializados dead tree society.

A segunda novidade é que essas pessoas estão autorizados a divulgar criticas e o que quiserem do livro para seus leitores, mesmo que seja para destruir a obra ou xupinhá-la. Já sacaram que censura, jabá cozinhado e controle de pirataria é feitiço contra o feiticeiro.

Tudo isso acontece muitos meses antes do lançamento. Depois de um tempo, a editora analisa as repercussões, dos blogueiros e da audiência. Isso irá pautar o tipo de lançamento, o investimento na divulgação, e, claro, a tiragem do livro.

Simpática formula de lançamento.

Mas perguntei-me o que seria da imprensa tradicional.

Pois bem, a imprensa tradicional corre atrás. Ela corre atrás dos blogs, lê os trechos divulgados, acompanha os comentários e depois de solicitar o livro para a editora, planeja sua cobertura. Simples assim: atrasadinha que só. E, eventualmente, para recuperar o tempo perdido, ela resolve patrocinar o lançamento se associando na empreitada. Faz publicidade no livro e nos blogs que já “lançaram” o livro. Como se a Rede Globo resolvesse anunciar no livro do Paulo Coelho lançado pela Planeta (chamando por exemplo para um seriado sobre o autor na TV).

A estratégia é tão cristalina e lógica, que assim contada, parece óbvia. E é.

Só assusta um pouco perceber que, com marginais exceções de nicho, o Brasil ainda valoriza conceitos tão antigos como exclusividade, jabás pagos, reverência aos veículos tradicionais, peneiradores de conteúdo e controle de direito autoral.

Sei não, mas no mercado editorial, na imprensa tradicional, nas agências de propaganda e além,“I see dead people”.

Seu burro! Tá na Internet!

Todo mundo tem um amigo sabichão, que lhe dá a escalação de todos os filmes, seriados e talk-shows, recita tiradas inteiras do seu personagem favorito e ainda dá uma aula sobre os bastidores íntimos dos atores. Ele também conhece todas as capitais do mundo, já visitou todas as exposições e museus, já comeu em todos os restaurantes, bebeu todos os vinhos e, como ninguém, debate sobre a fabricação do aceto balsâmico, a diferença entre bacalhau e seus primos sem cabeça e a dieta alimentar de um esturjão iraniano. Alguns desses ainda pontuam as interferências com vasta bibliografia.

Notas de rodapé ambulantes, esses xuxuzinhos da ‘fessora, sempre têm uma palavra amiga para completar sua falta de memória ou disfarçar sua ignorância.

A gente passava horas copiando enciclopédias, decalcando tudo com papel vegetal e, Matisses em gestação, decorando a cartolina para louvar a pátria, as leveduras de Pasteur ou as barbas de um imperador.

As professoras não gostam da Internet. Essa maldita rede, tirou toda poesia e horror dos horrores, banalizou o conhecimento.

Mas sabichão que nasce sabichão sabe se modernizar. Se não se pode mais rivalizar com a rapidez da Wikipedia, tem um outro jeito, e por enquanto, imbatível.

O jeito é ser trend-kicker, ou seja, chutador de tendências. Sabe aquele cara que te vomita em 5 minutos o que esta pegando internet afora? Aquela rede social incrível que ta bombando e que você nunca ouviu falar, aquele blog de um japonês que só escreve num htmlês pra inglês ver, aquele sueco de 18 anos que ficou milionário vendendo cadarço de all-star, aquele mega-hiper-cool produtor de mashups com bilhões de views no youtube? Tudo comprovadamente super-hype: afinal de contas, números é o que não faltam na internet.

Tempos hipermodernos são assim mesmo: um mito, uma moda e um pentelho a cada segundo.

60 milhões de Internautas não é nada

Na semana passada, o Ibope revelou seus novos números sobre o acesso à Internet. Milhões de pessoas, em menos de um mês, passaram a acessá-la, segundo o instituto. O brasileiro é extremamente precoce, rápido no aprendizado e todos os dias descobrimos novos rincões inexplorados, no pais. Ainda deve ter muita gente brincando de esconde-esconde com as metodologias de pesquisa.

Pesquisa é uma questão de ponto de vista. Mas para que serve? Se a torre de controle já sacou que quase todo mundo acessa a Internet, imagina se aterrissarmos no Brasil de todos os dias.

“A maioria dos conteúdos da Internet é em inglês mas, embora isso cause alguns problemas de inclusão digital, isso vai ser resolvido, a nível de Brasília”.

Essa tal de rede é muito popular, isso o Ibope garantiu, além de outras características muito interessantes como por exemplo de que as pessoas ficam muito tempo conectadas, batendo recordes mundiais todos os dias. Incrível mesmo essa Internet. O Brasil também é muito impressionantemente moderno, rápido e tecnológico. Até os pobres coitados que acessam a Internet fora de casa e que num passe de mágica aprenderam a usar o computador, juntaram-se aos oficialmente conectados.

Mas para que diabo serve esse número? Além de ornar lindas apresentações sobre a pujança do país, além de convencer céticos em extinção, não serve para nada porque a Internet não é nada.

Saber que há 60 milhões de internautas é tão esclarecedor quanto aprender que os brasileiros sabem usar energia elétrica, que torcem para a seleção e que a maioria deles tem dois olhos, uma boca e duas mãos.

O que a gente precisa saber é o que esse povo faz uma vez conectado, onde vai, o que usa, como usa, porque usa. O que a gente precisa descobrir é onde eles deixaram de ir, o que deixaram de usar e porque. Se é que deixaram. A gente precisa saber que povo, ou que povos, são esses.

De resto, “a nível de Brasília”, devem ter ficado muito satisfeitos. Dona Internet também pulou de alegria.