Artigos na categoria ‘Sei lá’

Big-bang

27/08/2007 em Sei lá | Tags: | Deixe um comentário »

Dizem que um dia o mundo vai entrar em colapso. Gente de mais, recursos de pouco. Trânsito de mais, vias de pouco. Atividades de mais, tempo de pouco. Informação de mais, mente de pouco.

Isso seria verdade se negássemos a velocidade astronômica das expansões: das populações, do espaço, da riqueza, da expectativa de vida, dos recordes olímpicos, da maturidade das crianças. Cada vez mais gente no mundo; cada vez mais espaços ocupados ou fragmentados; cada vez mais velhos morremos; cada olimpíada é mais veloz, forte e bela e minha sobrinha de 5 anos já sabe biológica e sexualmente como se faz um bebê.

Isso talvez fosse verdade também, se não gostássemos de forma infinita de coisas novas, experiências novas, pessoas novas. Se não quiséssemos saber mais sobre tudo. E se o tudo que conhecemos sobre tudo não fosse tão pouco. E se o tudo não fosse ele mesmo infinito.

A expansão é condição da existência. Quando deixamos de expandir, deixamos de viver. Quando uma pessoa deixa de ter curiosidade, deixa de querer mais, saber mais, sentir, mais e sofrer mais, ela está morta. Como o universo. Que cresce até não mais poder. Há bilhões.

E se é assim com o universo, porque seria diferente com o armário? Com os baús esquecidos, com as sucatas que colecionamos, os enredos de inutilidades que nos cercam?

Não é culpa do cartão de crédito se estouramos decentes limites. Melhor acharmos desculpas para a incontrolável compulsão consumista.
Culpa do operário da China, do bicho de seda anabolizado, do aquecimento global que apavora as estações, dos publicitários que conspurcam a sobriedade, de Chanel, Balenciaga, Prada, Margiela e Tom Ford de volta, só nos faltava essa. Culpa da Apple, da Guerra do Iraque, do Tsunami, do planeta Chupão, da receita de Prozac vencida.

Se existe uma abjeta perversidade na desigualdade do mundo, se poucos acumulam enquanto muitos desesperam, a culpa não é do meu closet.

A culpa não é nem do hiperconsumismo nem do hipercomunismo.

Acreditemos no “ganha ganha”. No esforço de integração, nas pontes de mão dupla que fazem o dinheiro daqui circular ali, do outro lado do apartheid social.

Acreditemos que há inspiração aqui e ali, há vida inteligente, criativa, próspera e ambiciosa em todo canto.

Acreditemos na expansão.

Contração é sinônimo de envelhecimento, preconceito, caretice, censura, permanência e tradição.

Quanto mais pobre o país, maior a Internet

29/07/2007 em Sei lá | Tags: | Deixe um comentário »

A imprensa gosta de alardear, com razão, os sucessos que a Internet tem no país: uma das maiores taxas de crescimento de usuários do mundo, maior tempo médio de conexão, maior comunidade do Orkut, um dos maiores acessos do YouTube, país mais premiado em propaganda interativa, o merecido prêmio que esse Overmundo recebeu recentemente, e por aí vai.

No entanto, os porquês são sempre fantasiosos, poéticos, pouco objetivos: o brasileiro adora novidade, ou o brasileiro é mais criativo – ou o mais gozado de todos –, o brasileiro é um povo surpreendente.

Mas tem uma outra possível explicação. Possível e mais interessante. E mais crível também.

Quem já foi a uma LAN house de periferia, quem já conversou com a sua empregada doméstica, com o filho da sua empregada doméstica, com o amigo mais pobre do filho da sua empregada doméstica talvez tenha um início de resposta.

Que tal pedir emprestado o pen-drive que a garotada carrega no bolso, na mochila ou no pescoço? Dos meninos dos Jardins ou do Jardim Ângela. Tem música, tem trabalho de escola, tem foto de tênis de marca, tem as fotos que ele tirou com o celular para ilustrar sua página pessoal e seus nicknames do MSN, tem até umas experiências de colagem fotográfica, uns vídeos caseiros, umas letras de hip hop.

E quantitativamente, a constatação salta aos olhos: a penetração da Internet nas classes mais pobres tem um crescimento exponencial. Todas as pesquisas dizem isso.

Uma vez, perguntei a um garoto da Cidade de Deus como ele gastava o dinheiro dele. A resposta foi óbvia: “Metade para minha mãe, um quarto para meu acesso à Iinternet em casa (banda larga, claro), mais um pouco para a recarga do meu celular (não dá pra ficar sem) e para minha academia. O restante é para me divertir.” Nada muito diferente de muito garoto bem-nascido, com exceção da ajuda familiar.

E se a gente começasse a perceber que a Internet é um sucesso porque o Brasil é pobre? Porque existem milhões de pessoas que vivem à margem das oportunidades de trabalho, estudo e inserção social. Porque existe uma imensa maioria da população que acha injusta a distribuição de renda do país. Porque toda essa gente quer crescer, quer ganhar dinheiro, quer se informar e se divertir. Porque todos os brasileiros querem se expressar, querem ser ouvidos.

Porque a Internet permite isso tudo e talvez seja a única ferramenta acessível, a única esperança. Bem-aventuradas sejam todas as iniciativas estatais (e privadas) contra a exclusão digital, de investimentos em escolas, de relativização dos direitos autorais, de software livre, de digitalização de trabalhos de domínio público.

Bem-aventurados todos aqueles que acreditarem que esta é a maior oportunidade que o país tem de escapar de um sistema perverso que concentra riqueza e distribui esmolas.

Por que a Internet tem a performance que tem no Brasil? Não seria porque o país é pobre?

25/07/2007 em Sei lá | Tags: | Deixe um comentário »

A imprensa gosta de alardear, com razão, os sucessos que a Internet tem no país: uma das maiores taxas de crescimento de usuários do mundo, maior tempo médio de conexão, maior comunidade do Orkut, um dos maiores acessos do Youtube, país mais premiado em propaganda interativa, o merecido prêmio que esse Overmundo recebeu recentemente, e por aí vai.

No entanto, os porquês são sempre fantasiosos, poéticos, pouco objetivos: “O brasileiro adora novidade” ou “o brasileiro é mais criativo” ou o mais gozado de todos “o brasileiro é um povo surpreendente”.

Mas tem uma outra possível explicação. Possível e mais interessante. E mais crível também.

Quem já foi a uma lan-house de periferia, quem já conversou com a sua empregada doméstica, com o filho da sua empregada doméstica, com o amigo mais pobre do filho da sua empregada doméstica talvez tenha um início de resposta.

Que tal pedir emprestado o pen-drive que a garotada carrega no bolso, na mochila ou no pescoço? Dos meninos dos Jardins ou do Jardim Ângela. Tem música, tem trabalho de escola, tem foto de tênis de marca, tem as fotos que ele tirou com o celular para ilustrar sua página pessoal e seus nicknames do MSN, tem até umas experiências de colagem fotográfica, uns vídeos caseiros, umas letras de hip hop.

E quantitativamente, a constatação salta aos olhos: a penetração de internet nas classes mais pobres tem um crescimento exponencial. Todas as pesquisas dizem isso.

Uma vez, perguntei a um garoto da Cidade de Deus como ele gastava o dinheiro dele. A resposta foi óbvia: “metade para minha mãe, um quarto para meu acesso a internet em casa (banda larga, claro), mais um pouco para a recarga do meu celular (não dá pra ficar sem) e para minha academia. O restante é para me divertir.” Nada muito diferente de muito garoto bem nascido com exceção da ajuda familiar.

E se a gente começasse a perceber que a Internet é um sucesso porque o Brasil é pobre. Porque existem milhões de pessoas que vivem à margem das oportunidades de trabalho, estudo e inserção social. Porque existe uma imensa maioria da população que acha injusta a distribuição de renda do país. Porque toda essa gente quer crescer, quer ganhar dinheiro, quer se informar e se divertir. Porque todos os brasileiros querem se expressar, querem ser ouvidos.

Porque a Internet permite isso tudo e talvez seja a única ferramenta acessível, a única esperança. Bem-aventuradas sejam todas as iniciativas estatais (e privadas) contra a exclusão digital, de investimentos em escolas, de relativização dos direitos autorais, de software livre, de digitalização de trabalhos de domínio público.

Bem-aventurados todos aqueles que acreditarem que esta é a maior oportunidade que o país tem de escapar de um sistema perverso que concentra riqueza e distribui esmolas.

A revolução silenciosa que a mídia não vê

24/07/2007 em Sei lá | Tags: | Deixe um comentário »

Deu na ilustrada que saiu dia 21/07: a banda mais popular do Brasil não tem gravadora, não está na lista das mais vendidas oficiais, não é hit das rádios FM e só recentemente apareceu na TV. Ela se chama Banda Calypso.

“Ah sim, claro, eu conheço! É aquele grupo que faz a tal da música Brega, sei sei!”.

Novela das oito, audiência alta, em todas as camadas sociais, regiões e idades. Qual é a música de abertura? Maria Bethânia cantando Copacabana.

“Claro, a grande estrela da música popular brasileira cantando o grande sucesso imortal!”

Não me interessa analisar a música da Calypso ou dos outros que compõe a maior fatia do PIB musical brasileiro (Bruno e Marrone, Zezé di Camargo e Luciano, Calcinha Preta, Aviões do Forró, Roberto Carlos, etc).

Também não me interessa avaliar a cantoria da Bethânia ou de qualquer outro monstro sagrado brasileiro.

Mas algumas palavras da segunda interjeição chamam a atenção: “popular” e “sucesso”.

Maria Bethânia é popular? Copacabana é sucesso?

Não é o que essa pesquisa diz. Não é o que se vê na real, na rua, nos shows, no gigantesco intercâmbio (já que não se pode propriamente falar de comércio) de música popular brasileira. Maria Bethânia não é popular e tampouco Copacabana é sucesso.

Onde é que a mídia se inspira portanto? Quem é que a mídia atinge? Contradição: a mídia se inspira de sua vetusta discoteca e atinge a população que não compra mais discos da Bethânia há décadas. Nem dela nem de ninguém.

Enquanto isso, nas redações londrinas dos jornais brasileiros, a crítica despreza os fenômenos populares ou os julga com velados preconceitos.

Enquanto isso, nos departamentos de marketing americanos das empresas brasileiras, os executivos copiam eventos internacionais e trazem astros para suas “experiências de marca” no Brasil.

Enquanto isso, nas criações holandesas ou argentinas das agências brasileiras, os profissionais escolhem os topos das listas como garotos propaganda ou compõem jingles medievais para martelar o consumidor “tapado, burro e primitivo”.

Enquanto isso, a população segue ouvindo – e adorando – a banda Calypso.

Tem algo de errado. Deve haver alguma coisa muita errada. E agora opinando: errados somos nós, não o povo.

Há sim, no país, uma revolução silenciosa em curso. Enorme, nunca vista e nunca imaginada. Uma revolução que desestabiliza as estruturas, sociais, jurídicas, culturais, econômicas. Uma revolução que é “A” saída para a injustiça social perversa do país.

Uma revolução que traz exemplos brilhantes, ícones sagrados, como o Chimbinha da Banda Calypso, ontem vendedor de peixe na feira no Pará, e que conseguiu romper todas as barreiras, sem mecenas, sem crítica, sem padrinho político, sem propaganda tradicional, sem mídia. Com seu talento, suas intuições, sua inteligência e sua fé.

E como eles, muitos outros, milhares, quem sabe milhões, que trabalham, sobrevivem, têm sucesso, nessa “margem” hoje muito maior e mais produtiva do que o centro alienígena ocupado pela mídia, pelas marcas e agências de propaganda.

Você já inovou hoje, meu filho?

29/05/2007 em Sei lá | Tags: | Deixe um comentário »

Inovação é um mantra que vicia dez em dez publicitários, um elixir mágico que transforma um sapo em príncipe, uma mezinha que cura da ressaca criativa, um band-aid que socorre a hemorragia de atenção dos consumidores.

E a gente se envergonha facilmente de tudo aquilo que é normal e tradicional.

Daí a gente bola estratagemas ardilosos, arma a arapuca e engraxa o anzol para pegar o cara. Onde quer que ele esteja.

Na TV, quando ele não está brigando com o Skype; no rádio, quando ele não está falando no celular; na Internet, quando ele está se instruindo com o último sucesso do YouTube; na revista, quando ele vai cortar o cabelo; no jornal, enquanto o sinal não abre. E também no email, quando ele se distrai da tecla delete; na rua, quando ele tropeça e cai de fuça no adesivo guerrilheiro; no show, quando ele responde pesquisa na décima ligação “ativa” de número não identificado às 8 da manhã de sábado.

A regra é “pegue o cara na curva”, e trezentos e sessenta mil graus é a circunferência de nossas estratégias de comunicação.

E lógico, se você descobrir uma maneira de fazer o cara olhar para o céu bem na hora que sua mensagem estiver passando, se você souber que ele vai meditar sobre sua mensagem cifrada – para não dizer envergonhada – simplesmente pelo fato de que você lhe deu pistas a cada passo que deu, se você se assegurar que ele é refém de sua extraordinária estratégia de impacto e freqüência, muito além das ondas catódicas, você alcançou seu objetivo de comunicação: você catou o cara. Parabéns.

Você também conseguiu justificar com maestria sua voracidade libidinosa por inextricáveis planilhas, você deu demonstrações claras de suas antenas conectadas nas mais remotas tendências, você levantou aplausos pela sua sensibilidade transcendental.

Isso sem falar que você disfarçou com virtuosismo sua falta de criatividade.

Que tal pensar um pouco na idéia, antes de calcular em quantos graus se dispersa uma verba?

Chega de apartheid

22/05/2007 em Sei lá | Tags: | Deixe um comentário »

Quando a gente fala de comunicação na Internet, ainda estamos muito viciados. Ainda somos incrivelmente preconceituosos, preguiçosos, covardes e protecionistas. A Internet ainda é assunto à parte, uma espécie de graal ou penico – depende do ponto de vista – da modernidade.

Vejamos a cobertura que a mídia dá ao assunto. Quase sempre se trata de um tema de especialistas, pessoas que só fazem isso e – pior – só sabem fazer isso. E são quase sempre os mesmos que dão opinião. O resultado é que os temas são assustadoramente repetitivos, entrópicos e chatos. Será que ninguém percebeu que não existem “consumidores de mídia”, mas “consumidores de marcas”? E, por isso mesmo, será que ninguém percebeu que não existem “especialistas em mídia”, mas “especialistas em propaganda”? Já está mais do que na hora de ouvir outras pessoas e não apenas e tão-somente os “pretensiosos” especialistas, os voluntária ou involuntariamente “segregados”. Nada contra eles, mas vamos ouvir os outros. Até porque, dessa interlocução, a gente vai descobrir também quem pensa o assunto, quem sabe raciocinar sobre ele e vai desnudar os ausentes e os que enrolam.

Vejamos como os prêmios de propaganda tratam do assunto propaganda na Internet. São prêmios separados, cheios de confusões para dividir as categorias e julgados pelos mesmos “especialistas”, os mesmos de sempre que só fazem isso. É insuportável ver o resultado, pois uma boa idéia é boa idéia, qualquer que seja a mídia, quem quer que seja quem a julga. Isso não significa, é claro, que não deva haver “categorias”. Ajuda a organizar um pouco e a comparar. Só significa que não deveria ter especialistas em Internet que criam para especialistas julgarem, especialistas verem e especialistas escreverem sobre. Ou melhor, não deveria ter só especialistas. Nem em Internet, nem em qualquer outra mídia. Devemos ter especialistas em propaganda e pronto. Ou em criação. E quem sabe, talvez, alguns especialistas em Internet também sejam especialistas em propaganda. E, quem sabe, especialistas em propaganda que julgam outras categorias não sejam assim tão especialistas assim em propaganda, porque não entendem nada de Internet.

Esses dois exemplos periféricos demonstram talvez também – e revelam – que as empresas de comunicação, as agências, não estão tão integradas assim, embora elas tenham o costume de discursar com criativas retóricas sobre o tema.

Mas é possível imaginar que exista um esforço para se rebelar contra o apartheid retrógrado, estéril e mal-assumido que acomete os profissionais do meio.

Porque propaganda na Internet é tão ruim?

08/05/2007 em Sei lá | Tags: , | Deixe um comentário »

A propaganda sempre vai ser propaganda, qualquer que seja o suporte, qualquer que seja a tecnologia, mídia, formato: uma mensagem comercial. E uma boa propaganda sempre vai ser uma boa propaganda, qualquer que seja o produto, a marca, ou o consumidor: uma mensagem comercial com impacto, brand linkage (tentei traduzir mas ficou horrível) e que agrada.

O que mudou, portanto, não é nem o propósito nem a forma de fazer nem a mídia.

O que mudou é que as pessoas estão de saco cheio de serem interrompidos com porcaria. É só isso que mudou.

As pessoas estão de saco cheio de serem obrigados a engolir mensagens idiotas, sejam elas comerciais ou não.

E óbvio, agora, a gente pode escolher. E isso muda tudo, porque a gente escolhe o que nos interessa e despreza o resto.

Nesse cenário, o que muda com a propaganda? Praticamente nada. Só que agora, ficou mais difícil. Muito mais. Simplesmente porque ninguém se deixa mais enganar pelos truques: martelar um jingle, contratar um ator famoso, demonstrar atributos, fazer piadas sem graça, nem mesmo fazer uma linda produção.

Mas o fato das pessoas não gostarem mais de serem interrompidos pelas mensagens comerciais, não significa que a propaganda morreu, só quer dizer que ela tem que ser o que sempre precisou ser mas nem sempre foi: boa.

Outro dia, fui julgar umas “propagandas” inscritas na Internet para um festival. Foi um show de horror, e saibam que faço isso desde tempos imemoriais.

Nunca me encheu tanto o saco ver aquele monte de sites inúteis, piscando pra todo lado.

Nunca fiquei tão irritado com tanto tempo perdido já que, contrariamente ao consumidor normal, eu estava ali para julgar portanto era obrigado a ver tudo.

Nunca fiquei tão nervoso com aquela profusão de vídeos idiotas, sem graça, intermináveis. Nunca fiquei tão desapontado com a qualidade tosca das produções.

Foi uma tortura, mas nada muito diferente de assistir ao Fantástico sendo interrompido pelo lixo publicitário.

Aliás, tem sim aquela diferença: o Fantástico me interrompe com a propaganda e se eu quiser ver o resto da programação sou praticamente obrigado a ser importunado. Já na Internet, to fora! E um dia, o Fantástico também vai deixar de interessar. Nesse dia, a propaganda ruim simplesmente vai morrer. Já vai tarde.

E não adianta nada fazer essas estratégias pseudo-misteriosas, pseudo-spam-virais. Nem encher meu saco com vídeos e interações idiotas. Nem achar que estou morrendo de vontade de interagir com o mundo real no second life.

Porque propaganda ruim, na mídia tradicional funciona. Na Internet não.

E o aquecimento global? Quem liga? Os pingüins.

02/05/2007 em Sei lá | Tags: , | Deixe um comentário »

Outro dia, uma instalação efêmera ocupou o parque do Ibirapuera em São Paulo. Centenas de pingüins de gelo, por algumas horas derreteram sob o sol inclemente. Seu choro tinha uma mensagem singela: e aí, e o aquecimento global? Quem tá ligando?

A autoria ainda é mais insólita: um site www.50graus.com.br. Além dos vídeos (veja no Youtube http://www.youtube.com/watch?v=y1DhylYVbZU) alguns adesivos de animais derretendo.

Entrei em contato com o site e recebi a mais inusitada e calorosa das respostas: “somos um grupo de inconformados anônimos”.

E mais adiante: “não somos ativistas, nem políticos, nem ecologistas, nem doutores, nem coisa nenhuma.”

A 50 graus é uma espécie de desorganização, portanto sem dono, sem autor.

Uma iniciativa livre – de direitos inclusive – sem expectativas, policiamentos, discursos ideológicos, compromissos institucionais, sem vaidades, sem mística.

Não tem nem a bandidagem guerrilheira do Bansky http://www.banksy.co.uk/, nem as invasões dos space invaders http://www.space-invaders.com nem qualquer manifestação do chamado “marketing de guerrilha” http://www.marketing-alternatif.com/index.php?paged=1.

Só gente como todo mundo afim de se manifestar. Longe dos discursos clichês e inócuos dos governos e instituições políticas, longe das iniciativas pseudo do bem das empresas “com responsabilidade social”, longe das caridades, longe das organizações não governamentais. Longe de tudo que é primeira, segunda e terceira via. Como uma espécie de quarta via. A via das pessoas, cada um na sua, mas com um inconformismo em comum.

A sociedade da colaboração

12/03/2007 em Sei lá | Tags: | Deixe um comentário »

A propaganda sempre foi muito permeável aos modismos. Nada contra, muito pelo contrário.

Para lembrar de alguns recentes, teve o tempo das pesquisas etnográficas (não existe observação passiva), o da Internet (mídias mortas, convergências e outras hiperbólicas transformações), o do branding (a visão holística – outro modismo – das marcas), o do despertar da emoção na comunicação das marcas (essa é velha), o das tendências (desperte a parabólica que exista em você), o do buzz-marketing (o boca-a-boca, não diga, funciona), o do marketing viral (misto de telefone sem fio com fofoca exponencial).

E por aí vai, sem falar de outros mais periféricos. A propaganda da propaganda, a argentinização dos formatos, o barroco revisitado, os pastiches pseudobregas, a photoshopização desenfreada, a criação do povo para o povo e pelo povo. Me ajudem, tem muitos outros!

Não cabe nenhum tipo de crítica aqui, pois o publicitário é o mais esponjoso dos seres.

No entanto, o debate é raro. E quando surge, dificilmente ele transcende a anedota, o frasismo metafórico, a vaidade lustrosa.

A introdução é longa, mas – outra característica da publicidade – quem resiste às alfinetadas?

Parece, porém, que poucos conseguem encarar com mais seriedade a transformação que está na nossa fuça. E quando falo em encarar, não significa cacarejar, significa trabalhar, enfrentar e experimentar.

E dessa fez, não se trata de um modismo. Longe disso.

Afinal, o que é esse tal de colaborativismo?

Vou usar um recorrente artifício para qualificá-lo: a enumeração de argumentos no melhor estilo dos manuais acadêmicos, aliás, um modismo que também grassa por aí.

E são dez os mandamentos, claro.

1. Os bits da fama

Hoje é fácil, barato, rápido, eficiente emitir opinião, divulgá-la e construir reputação. Basta ter um e-mail, um blog, um megafone digital qualquer. Uma andorinha faz um verão.

2. A referência desavergonhada

A informação, a análise, os scoops, a documentação, as referências estão ao alcance de todos. Basta ter curiosidade e meio neurônio para vomitar Maffesoli e Derrida “com meia dúzia de hiperlink. Por outro lado, é verdade que a difusão de conhecimento não é sonho, é realidade.

3. A cultura da superficialidade

Desde 68 que os especialistas estão desempregados. É rei quem souber um pouco de tudo e conseguir surfar confortavelmente por todos os assuntos. Quem ainda duvida da capacidade infinita do cérebro humano está com Alzheimer.

4. Copio ergo sum

Foi-se o tempo em que uma reputação se construía à base de trabalho e autoria. É rei hoje quem mais rápido copia sem sequer cogitar citar a fonte. Acredita-se tanto no “chupo porque posso”, quanto no “chupa-me porque gosto”.

5. Eu vi primeiro

Ver antes é infinitamente mais importante do que ver certo. As reputações se constroem por sobre a capacidade de encontrar antes e – corolário indispensável – difundir imediatamente sem comprovação necessária. Não se engane, o importante não é achar, mas divulgar. E isso é lindo.

6. De graça é mais legal

Não há dinheiro no mundo para fiscalizar, repreender ou policiar o fluxo de negócios que namoram com algum tipo de ilegalidade no “Long Tail”. E é inquestionável a fertilidade e utilidade dessa “flexibilização” compulsória da legalidade.

7. Mestiçagem é bom

A heterose é profícua. E não há limites para a mestiçagem, nem rigor, nem vergonha. Não importa de onde vem a influência nem a coerência e muito menos o consentimento da origem. Definitivamente não existe geração espontânea na criação.

8. A novidade efêmera

Nada é novo por muito tempo. Embora a novidade seja a mais universal e excitante das molas intelectuais, ela dura pouco. O Zeitgeist é uma fofoca.

9. Dinheiro, dinheiro, dinheiro

Dinheiro é a mola de todas as iniciativas. E dinheiro não tem ética, nem vergonha. Dinheiro é o que eu vou ter com a fama, com o conhecimento, com a capacidade de saber um pouco de tudo, com o que copio, com a divulgação do que vi antes, com o que consegui sem pagar, com a mestiçagem da minha produção, com a natação no Zeitgeist, com o dinheiro que eu vou conseguir com tudo isso.

10. Sociedade da colaboração é um eufemismo

Quem leu até aqui pode achar que tudo isso é feio, horrível, degradante. Se chegou a essa conclusão, das duas uma: ou não entendeu nada ou é muito falso. Mas pouco importa o que se acha, o que importa é o que rola. E quem for contra o que rola, vai se enrolar.

Esses são os 10 postulados da nossa sociedade que – modismos – chamamos de sociedade da colaboração.

A mensagem final, no entanto, talvez seja mais importante do que todas as constatações acima. Mais importante do que constatar é conviver. É conseguir encontrar uma via que seja capaz de conciliar estruturas poderosas com novas ainda subterrâneas. Estruturas em cheque com novas forças. Conciliar, e não subverter.

Você já ouviu falar no Creative Commons?

O Copyright é entrave à memória, difusão e organização.

06/03/2007 em Sei lá | Tags: , | Deixe um comentário »

“Recente pesquisa da IDC indica que 161 bilhões de gigabytes de informação foram gerados no ano passado em todo mundo. “

Não faço a menor idéia de como essa pesquisa fez para calcular, mas é certo que a conclusão de que não há espaço suficiente para armazenar tantos dados não surpreende nem choca.

Mas me parece que o assunto pode ser muito mais interessante do que simplesmente mais um desses googolplex que poluem nossa existência.

Sabe-se, portanto e também, que não existe dinheiro no mundo capaz de digitalizar, armazenar e organizar toda a produção cultural da nossa espécie. Nem a de hoje nem a do passado, muito menos a do futuro.

Isso nos coloca uma pergunta: o que faremos com ela?

A excessiva proteção aos direitos autorais não estaria sendo um real – e inflexível – entrave não somente à difusão de conhecimento mas também à perpetuação da memória cultural?

Enquanto o debate a respeito das leis de Copyright corre solto, existem talvez mais argumentos a considerar nesse embate que colocam em perspectivas alternativas urgentes às legislações atuais.

Por exemplo, talvez exista uma forma de encarar, a disseminação dos softwares P to P como um grande benefício de bem comum. Em pró da memória, em outras palavras. A capilaridade extrema da capacidade de armazenagem beneficia a memória. A difusão desse conteúdo de usuário para usuário além de compartilhar essa produção, de forma igualitária, democrática e barata, economiza a caríssima intermediação de servidores.

Esse é um ponto da questão.

O outro é a própria digitalização dos conteúdos do passado. Certamente não existe dinheiro suficiente na economia para digitalizar tudo aquilo que ainda é analógico ou físico. E mais uma vez, não nos cabe (e não cabe a ninguém) julgar esse conteúdo. Já estou vendo os excitados de plantão (vide autoritários) propondo uma classificação daquilo que vale a pena perpetuar. Portanto, mais uma vez, a capilaridade dos recursos de digitalização beneficiam a memória. Cada vez que uma pessoa digitaliza algo que não tinha memória digital – e mesmo que tivesse – além de dividir com o mundo a produção da humanidade através dos softwares P to P ou por qualquer outro meio digital (email por exemplo), economiza muito dinheiro.

Mais há mais um ponto.

Ainda que se possa imaginar que haja dinheiro, tempo e interesse comercial em se digitalizar e armazenar tudo que foi, é ou será produzido pelos homens, quem é que vai organizar tudo isso? Como vai ser? Talvez a alternativa, mais uma vez, seja de capilarizar a curadoria de conteúdos. Em outras palavras, os conteúdos serão organizados pelos próprios infinitos difusores dos mesmos. Muito mais fácil assim de encontrar o que se procura. Divide-se mais uma vez a responsabilidade e melhora-se a qualidade.

Esses são mais alguns argumentos que deveriam entrar em debate, acredito, cada vez que estamos discutindo direito autoral versus alternativas como o Creative Commons.

O Kem Kem de Hassi Lebied

22/02/2007 em Sei lá | Tags: | Deixe um comentário »

Kem Kem é o nome do Cyber café/Lan house de Hassi Lebied, uma aldeia aos pés da grande duna de Merzouga no Marrocos.

Hassi Lebied é microscópica. Não está em nenhum mapa. Para chegar lá, pegue a estrada que vai para o sul do Marrocos (só tem uma) e fique atento às placas… Se der sorte, você chega lá. E lá não é muita coisa: meia dúzia de ruas sem asfalto, mal iluminadas, casebres baixos, uma penca de dromedários mascando os dentes e sombras fugidias de mulheres veladas e berbères azuis. Com exceção de poucos turistas que se aventuram de 4X4 ou atraídos pelo exotismo de um “céu que nos protege”, Hassi Lebied é uma miragem na estrada que leva a Merzouga, importante centro turístico no deserto marroquino.

À noite em Hassi Lebied é desolada: a duna ausente, o frio paradoxal, o silêncio opressor e vez por outro o foco azul de um led a iluminar passos acelerados.

Só uma luz colhe os insones vespertinos. É o Café Kem Kem, o maior pólo de entretenimento e de negócios da região.

O Kem Kem é assim, uma espécie de bar de Guerra nas Estrelas em Tatouine (aliás, também desolada aldeia do Marrocos). Os murmúrios no Skype (analfabetos não teclam) e o batuque dos teclados mobiliam a atmosfera. Cutsa barato o Kem Kem: alguns Dirhams a hora ou seja, quase nada. Nada de azaração (país muçulmano oblige) mas muita concentração. Jogam, lêem, conversam, informam-se, assistem seriados e filmes da rica produção marroquina, batem papo com parentes presos na Argélia ou Somália vizinhas, amigos que emigraram, namoradas de um dia, espanholas, francesas, alemãs. Também vendem, compram, encomendam, fecham negócios no Kem Kem, exportam artesanato, contatam grupos de turistas. O dromedário está caro (cerca de dez mil Dirhams) porque quando chove o preço sobe, mas quem sabe em Ouarzazate, contrate-se um bom tropel. No Kem Kem a gente fica sabendo das coisas.

E no Kem Kem também, quando não se tem nada para fazer, porque não se tem nada para fazer sempre em Hassi Lebied, a gente vai lá, e fica vendo o povo, tomando um chá de hortelã, esperando o sono chegar.

O dono do Kem Kem não está rico. Nem pobre. Tem lá seu negócio e vai bem. Os computadores são novos, a conexão boa, e quanto mais pontos colocar, mais gente vai ter para passar o tempo, conversar, comunicar-se, fechar negócios.

O Kem Kem é junto com a mesquita o lugar referência de Hassi Lebied. A mesquita é pra falar com Deus, o Kem Kem é pra falar com os homens.

E existem Kem Kems assim em todo o lugar. Em Marrakesh a oferecida, em Fés a recatada, nas menores e mais longínquas aldeias, no Atlas inacessível, no deserto negro, ao longo da marcha verda na estrada colonizadora do Sahara ocidental. Porque Internet e telefone celular tem para todo canto no Marrocos. Questão de soberania. Questão de coesão nacional. De identidade.

E precisei atravessar meio mundo para entrar no Kem Kem de Hassi Lebied. Mas tem Kem Kem em baixo do meu nariz. Para todo lado, nos mais pobres rincões, das mais às menos organizadas periferias do Brasil.
E aqui o que seria? Questão de inserção social? De acesso ao inacessível? De produção cultural?

Quem tem o que falar, depoimentos (como vários aqui já feitos), mas principalmente pesquisas, estudos sobre o fenômeno das Lan-houses brasileiras? O que é que está acontecendo e como é que a gente tem que enxergar essa terceira ou quarta via da inclusão digital?

Creative commons: uma espécie de fermento criativo

09/02/2007 em Sei lá | Tags: | Deixe um comentário »

Se a criação é um bem de consumo, portanto, não há tempo para degustar, contemplar, refletir, analisar. Consome-se como se lê, vê ou ouve, digere-se como se pode, e regurgita-se como se quer.

Em tempos de conteúdo colaborativo, de livre expressão, de canais abertos, de democratização criativa, de contágio viral, em tempos de acesso irrestrito aos megafones das mídias freeware, o autor que se cuide. Principalmente se ele tem a veleidade de preservar sua autoria em prol da biografia, da vaidade, da contribuição intelectual desinteressada ou não.

Enquanto a interpretação dos conteúdos ou das obras era individual, as autorias sofriam poucos ou nenhum risco. O “criador” produzia e a audiência qualificava sem conseqüências. Mas a partir do momento em que a audiência torna-se também mídia espontânea e formadora de opinião, as conseqüências significam, para além da permeabilidade das idéias, a desintegração da própria noção de autoria.

E dessa desintegração nascem certos perigos e muitas virtudes.

Perigos da difusão equivocada de conteúdos e análises, por exemplo. Perigos de comprometer reputações. Perigos inerentes a tudo aquilo que é novo e como tal, desconhecido.

Mas muitas virtudes também. As virtudes de questionar as vaidades e o egoísmo autoral. Virtudes do exercício democratizado da interpretação. E principalmente as virtudes próprias de uma espécie de fermento criativo.

Nesses nossos tempos, em que todos nos tornamos ao mesmo tempo autores e veículos, não existe mais autoria individual mas autorias coletivas.

Não importa mais a minha idéia, mas sim a capacidade que ela teve de gerar outras, complementares ou detratoras. E essa multiplicação é sempre fértil.

É esse o princípio que está por detrás de todas as iniciativas colaborativas que se assumem creative commons ou que ainda não têm toda essa coragem.

É porque acreditamos que quanto mais colaborativa for a criação, mais criativa ela é, que o direito de autor é um conceito mesquinho e ultrapassado.

É porque acreditamos que quaisquer formas de democratização da autoria – restritas ou irrestritas – quando formalizadas, preservam até as autorias originais, que o direito de autor, tal como existe, é um princípio doente e moribundo.

O tempo nem passou e já passou. Por que será? Por que será?

24/10/2006 em Sei lá | Deixe um comentário »

Nem dava enjôo de fazer mas mesmo assim não passava o tempo. Isso era antes. Antes, quando a gente acordava e não gostava de dormir porque não sabia para que serve. E já fazia os planos do dia. Primeiro tinha que ir lá ver o formigueiro destruído na véspera. Vai ver tinham desistido de vez. Teimosia de formiga. Depois, o caminho que a gente ia picar no meio do mato, para passar sem ser visto, se acontecer alguma coisa que precisa fugir é só levantar as samambaias. A comida ficaria pendurada num saco para ninguém achar. Precisava de uma faca também e uma lanterna se fosse de noite, um pouco de dinheiro para pegar um ônibus depois, e a caderneta de telefone para ligar para a vó. E se eles achassem o caminho tinha que cava um buraco. Tapar com uns galhos bem disfarçados. Mas talvez mais um depois, mais para o final do caminho. Esse eles não iam ver nunca e dava mais tempo para correr porque tem gente velha que não pode correr muito bem. Gente velha é bom porque sabe fazer comida mas dá um atraso danado!

Propaganda, targets e mídia: bagunçou

21/10/2006 em Sei lá | Tags: , | Deixe um comentário »

Mídia. Como é? São dois os cálculos possíveis. O primeiro é otimizar o dinheiro que tenho, o segundo é descobrir quanto dinheiro é preciso para alcançar os objetivos. Como não poderia deixar de ser, ambas as alternativas são regidas pela lei do custo X benefício onde benefício significa “quantas pessoas serão impactadas”.

Para cálculos são necessários números e para números são necessárias pesquisas. Para pesquisas é necessário controle e para ter controle é necessário isolar variáveis – coeteris paribus. Quanto mais variáveis, menos controle e quanto menos controle, menos idéias e quanto menos idéias, menos inovação e quanto menos inovação, menos ação e quanto menos ação, menos dinheiro e quanto menos dinheiro, menos tudo.

Daí a gente tem que explicar para a propaganda que não existem mais meia dúzia de veículos com força suficiente para impactar os públicos, mas milhões. Daí a gente tem que explicar para a propaganda que os veículos são feitos pelos próprios públicos que queremos impactar.

Tilt 1: a mídia é o target e o target é a mídia.

E a mensagem? Como é? São dois os raciocínios. O primeiro é dizer o que as pessoas dizem. O segundo é dizer o que as pessoas vão dizer. Como não poderia deixar de ser, ambas as alternativas são regidas pela lei do mínimo denominador comum, sendo que esse mínimo aí é o que todos os públicos vão entender.

E para encontrar esse mínimo aí, precisa de pesquisa. Nesse ponto o raciocínio volta a ser o mesmo. Pesquisa tem que ter controle, para ter controle tem que ter poucas variáveis e por aí vai.

Daí a gente tem que explicar para a propaganda que a mensagem que melhor funciona com nosso público é aquela que o próprio público faz. E a mensagem que o público faz é um monte de mensagens. E esse monte de mensagens é um monte. E se é um monte, tem um monte de mínimos denominadores comuns. Daí a gente tem que explicar para a propaganda que o mínimo denominador comum não impacta o máximo de pessoas possíveis.

Tilt 2: a mensagem é o target e o target é a mensagem.

E a esses dois tilts, como é que o mundo do marketing reage?

O mundo do marketing reage de duas maneiras: como uma avestruz ou como um hiena. Enterra a cabeça e espera que a manada faça greve ou se regala com a carniça e gargalha.

Mas que jeito a gente dá então para explicar que está cheio de tilts no circuito?

Debate político é um Fla X Flu

10/10/2006 em Sei lá | Deixe um comentário »

- Oi Maria,
- Oi Seu Fernand.
- Mas o Lula tava demais ontem não?
- Tava?
- Nossa, ele foi bom!
- Foi

Pouco depois:

- Você viu o debate?
- Vi. O Geraldo foi incisivo.
- Foi?
- Ele destruiu o Lula.
- Destruiu?

Quem aqui lembraria de um único googleplex apavorante vomitado ao longo do debate? Quem sabe quanto um investiu nisso ou o outro naquilo? Quem pagou quanto de propina para quem? E quem é mesmo que queria resposta para as perguntas? Aliás, quem é que ouviu as perguntas? E as respostas?

Um rubro-negro e um tricolor no mesmo estádio, no mesmo dia, no mesmo jogo. No mesmo jogo? Era não. Flamenguista: “O Flamengo arrasou”. Fluminense: “O Flu destruiu”. O ou contrário, mas o certo é que não estiveram no mesmo jogo, mesmo estando.

Então quem ganhou o jogo? Detalhe. Quem ganhou o debate? Detalhe. Ninguém convenceu ninguém. E também quem estava interessado em convencer? Era o prazer do debate pelo debate, do jogo pelo jogo. Era só prazer de arrumar desculpas para as derrapadas do seu candidato e anabolisar os seus ataques. O prazer de mangar das incoerências do adversário e injuriar-se com suas acusações.

Então quem tinha razão? Mas o que a razão tem a ver com isso? Coitada, a razão é tão lenta! Quase burra. A emoção é rápida, envolvente, tão mais inteligente!

A razão até convence, mas leva um século. Ou quatro. Mais pelo cansaço do que pela verdade.

A verdade é uma nuvem de fumaça. E as escolhas, inclusive políticas, pouco têm a ver com reflexões ponderadas. No fim, a gente vota na emoção. A gente também se defende na emoção e até se arrepende na emoção.

Quem mudou seu voto, no debate, mudou pelo sorriso ou pela careta, pela violência ou afago, pela pena ou paixão.

Decisão política é coisa do coração, de crença, de fé.

Cogito ergo sum, uma ova!

São Paulo não é feia, é desleixada

09/10/2006 em Sei lá | Deixe um comentário »

São Paulo é uma cidade muito feia. Dizem. Quem liga para isso? Quem liga para as calçadas esburacadas, os lixos escancarados, obras horrendamente inacabadas, tapumes descascados? Quem liga para os acampamentos provisórios, para a gatolândia de fios, para os canteiros favelizados?

Ninguém está nem aí porque é provisório, “em construção”.

São Paulo é assim, nunca acaba. E o paulistano parece não se incomodar com esse “deixa pra depois”, pro próximo infeliz que se incomodar.

Mas claro, depois reclamam que é feia a cidade. Reclamam do Minhocão, do Borba Gato, do neoclassicismo burguês, do foguete rosa da Pedroso de Morais, da melancia da Avenida Brigadeiro Luis Antonio, do abrigo da Patriarca.

Mas o que é precisamente horrendo é o inacabado ou mal-acabado. Porque até o fora de moda, o cafona, o desproporcional, o chupado, o sem noção, é melhor do que o acampamento no qual vivemos. Um dia o teatro Municipal foi démodé; hoje é ícone. O Pacaembu foi arquitetura fascista; hoje é sobriamente belo. Os casarões da avenida Brasil foram novo-riquismo; hoje são nossa avenue Foch.

E nessa Dresden pós bombardeio, respiramos em ilhas de tranqüilidade: nos Jardins, na Aclimação, no Alto da Boa Vista, na Vila Nova Conceição. Não tem nada de genuinamente belo – se é que esse conceito existe – nesses oásis. O que existe sim é organização, esmero, carinho.
O que falta aqui é uma lei de zoneamento do temporário. Uma lei de manutenção e limpeza. Uma lei do acabamento.

E para disfarçar a falta de vergonha, vem essa polêmica discussão sobre a proibição radical de qualquer mídia exterior na cidade. De um lado os probos e conscientes administradores públicos a empunhar argumentos demagógicos. De outro os empresários desse negócio a defender hipócritos argumentos.

Tenho dó de imaginar São Paulo sem o disfarce da mídia exterior. Até prefiro uma empena gigante de uma morenaça de biquíni a um muro descascado. Prefiro um tapume de aparelho celular a um gradil caindo aos pedaços. Prefiro uma série de outdoor a uma medonha obra inacabada.

Pelo menos disfarça a lepra e o descaso.

Chupou, tá valendo

01/09/2006 em Sei lá | Tags: | Deixe um comentário »

A historinha é assim: um dia, alguém escreveu pro Vicente (editor do Webinsider) me detonando. Disse que eu tinha enlouquecido e que estava estragando o site. Ele não me contou (sabe que adoro um briga), agradeceu gentilmente o xingador, mas perguntou por que tanto ódio no coração. O dito indivíduo desculpou-se do ímpeto descontrolado.

O que se descobriu depois é que o apaixonado leitor chupava in-te-gral-men-te meus artigos e assinava com seu nome num portal por aí. Mas, por que esse autor inspirado tinha resolvido me criticar, se eu era sua fonte? Ah, bingo: o artigo que não agradou chamava-se “Sexo virtual”. Como é que um leitor tão fiel iria se apropriar de conteúdo tão – digamos – explosivo? polêmico? obsceno?

“Como é que pode? Será que o Fernand enlouqueceu, Vicente? Coloca ele nos trilhos, senão eu perco a inspiração!”

Dei muita risada com essa história. Achei linda e inspiradora.

Sempre acreditei na máxima “Postou, é da galera”. E continuo. Mas também me deu lenha pra pensar mais um pouco.

A Internet é um retrato muito expressivo de uma mudança de mentalidade radical. Antes, as pessoas criavam e possuíam o direito de serem autores da criação. Antes, copiava-se, e a obra era obra e a cópia era cópia. Hoje, as pessoas criam e perdem o direito à autoria. Hoje nada se copia, é tudo “inspiração”.
E não me leiam como se eu estivesse sendo irônico ou sarcástico. Muito pelo contrário. Eu estou sendo otimista. Acho isso ótimo. E, mesmo que não achasse, o que eu poderia fazer? Gritar, chorar, brigar? Para quê?

Acho ótimo porque o real valor passa a estar na capacidade de criar e não na criação em si.

Copiar é ótimo. Mesmo quando é uma cópia disfarçada de obra. Melhor a cópia do que o nada ou o pouco.

Melhor porque difunde-se qualidade. Melhor porque democratizam-se idéias. Melhor porque dividem-se experiências. E principalmente melhor porque quem cria, de verdade, é obrigado a criar mais e mais, sem parar.

Só há um perigo nisso: achar que chupar e criar são a mesma coisa. Porque de tanto acreditar nisso, a gente acaba copiando o que não presta. E a gente acaba se “achando”, mesmo não prestando pra nada.

Moral da história: chupe à vontade, sabendo que está chupando. Assim, um dia, você acaba criando. Funciona e é muito mais divertido.

“Viral virou trivial” ou “É viral, mas não pega”, ou melhor, “Viral de cu é rola”.

15/08/2006 em Sei lá | Tags: , | Deixe um comentário »

Parece que todo mundo descobriu a pólvora molhada. O que liga agora é fazer viral. “Vamos fazer um viralzinho aí, gente!”

Não dá mais para suportar esses modismos, esses surtos modernizantes, essas febres, essas sim, virais.

Mas sejamos construtivos.

As pessoas de repente descobriram que viral é uma maneira barata de difundir uma mensagem. Só não descobriram também que é a mais preguiçosa delas. De repente caíram da cama e acordaram para um fenômeno avassalador. Só não se deram conta de que há mais mistério entre o céu e a terra, etc. De repente, acharam que tudo pode virar viral. Só não falaram “Sim, Pedro Bó!”.

Mas o que está por detrás desse frenesi? Talvez um entendimento gauche do que está acontecendo de verdade nas mídias, digamos, novas.

Será que não era tempo de entender que hoje, o poder está com o consumidor que virou editor que virou media-man? Será que não deu para sacar que quem decide o que vai se “viralizar” (que palavra feia, meu Deus) é o consumidor? Será mesmo que ainda achamos que se manipulam as audiências?

Isso para não falar dessas insuportáveis gincanas baseadas em fatos pretensamente verdadeiros. Isso se tornou hoje quase um atentado à inteligência coletiva. E não se engane quem ache que as pessoas são tolas a esse ponto. Estão carecas de saber que é tudo mentira e só se interessam pelo prêmio. Acho mesmo que está na hora do povo ler William Gibson sem atrasos.

Quando se descobre uma coisa dessas, quando de repente está todo mundo fazendo, quando aparecem “empresas especializadas”, quando enterram caminhões a torto e a direita, eu já desconfio.

Vamos lá, funcionar funciona. Às vezes. Mas o que é funcionar? Se funcionar for “milhares de pessoas foram atrás”, então, beleza. Funcionou. Agora, se funcionar significar “fizemos uma ação ousada que ajudou minha marca a ser mais querida”, aí, sei lá, acho que não. Acho o contrário até. Acho que as pessoas estão mais para dizer “Olha só que trouxa essa marca, ela acha que me engana!”.

Talvez seja mais simples a gente se concentrar um pouco. Vamos fazer filmes legais e daí, pode deixar, não se preocupe não, ele se viraliza facinho, facinho. Vamos fazer promoções, gincanas, jogos, coisas para celular (ai, que preguiça!), legais.

E chega de modismos. Chega de pensar primeiro a mídia, depois a idéia.

Preconceito parte 2

14/08/2006 em Sei lá | Tags: | Deixe um comentário »

Outro dia me perguntaram o que faz a propaganda brasileira ser diferente, original, e por isso mesmo interessante, atraente, inspiradora em outras culturas. Tive enormes dificuldades de responder, até porque, infelizmente, não acho que a propaganda brasileira tenha tanta personalidade assim.

Mas talvez possamos fazer uma análise um pouco mais futuro do pretérito: “o que faria da propaganda brasileira” ao invés de “o que faz”.

Pois pensamos um pouco na própria formação da cultura nacional. Essa cultura crioula, miscigenada, “maxixada”. Essa cultura da preguiça antropofágica.

Talvez devêssemos, sem nenhuma pretensão, remontar ao final do século XVIII, início do século XIX, aos indícios tão férteis da formação da nossa identidade cultural. Naquela época em que a aristocracia culta debruçou-se sobre a rua, abriu seus salões e, não sem ironias e sarcasmos, recebeu os libertos mestiços para seus saraus dançantes. Quando a intelectualidade européia saia às escondidas dançar maxixe nos bordéis enquanto as jovens prometidas tocavam valsas ligeiras nos seus Pleyel importados.

Foi então que o fenômeno se deu. Foi então que da busca frustrante pelos píncaros do pensamento culto europeu contaminado pela influência contagiante da senzala e dos libertos segregados que nasce esse jeito, essa ginga tão brasileira, essa mistura sincopada, essa inspiração tão extraordinariamente original.

É desse pulso irresistível que surge a nossa ímpar, admirada, comprada, copiada cultura nacional, mais tarde sintetizada pelos modernistas.

E, para ser propositalmente radical, não há absolutamente nada de realmente interessante na produção cultural nacional fora dessa perspectiva. Só pastiches pobres, torpes, datados ou tardios.

Mas parece que, hoje, tangenciamos, nos meios “cultos”, de forma assustadora, uma certa amnésia obtusa que reverencia a produção cultural “estrangeira” (não dizem que até a China é mais legal?).

Parece que o nacionalismo criativo, o patriotismo cultural – palavras propositalmente batidas – não está mais na ordem do dia. Parece que estudamos estrangeirices antes de Machado de Assis ou Guimarães Rosa. Como se estivéssemos padecendo de um neo-clasissismo envergonhado. Cabala antes de Candomblé, Baudrillard antes de Wally Salomão, Phillip Starck antes de Lina Bo Bardi, Nietzche antes de Gilberto Freire, Cirque du Soleil antes da Mangueira, Big Brother antes do auto da compadecida, Friends antes de Grande Família, antes Olivier Messien do que Villa Lobos.

Antes morar na Place des Vosges, my dear, beber vinho chileno, arrotar em Aspen e torcer o nariz para os selvagens que somos.

Ou então que se aplauda o mau-humor nihilista e preconceituoso de Diogo Mainardi antes de Caetano Veloso, que dispensa elogios e cujo currículo não merece tão rasa comparação.

O preconceito está na ordem do dia…

Portanto, a propaganda brasileira (e quem a aprova)… ah sei lá… Deu preguiça.

O new brega

07/08/2006 em Sei lá | Deixe um comentário »

A última tendência é o “new brega”. Qual seja, uma montagem, um patchwork, um mistureba aleatória de tendências, um tapa de enlouquecer os radares. Ou simplesmente, new brega é ser total tendência.

Na moda é assim: “ah, eu tenho meu jeito, meu estilo, minha atitude” e isso significa, na prática que combino a sandalia de plástico vagabunda com a calça grifada devidamente customizada, o cinto de “peoa” de boiadeiro, o top de cocota, colares de funkeira, banlangadãs panteístas nos braços, penteado escorrido, maquiagem dancing days, trejeitos de big brother e linguagem pseudo-intelectual.

A tendência é não ter estilo ou ter estilo demais.

Nas casas é assim: “ah, achei tão lindo aquele sofá indiano, aquela cômoda Maria I, aquele lustre de cristal francês, aqueles banquinhos de anão, e pra dar aquele ar despojado, chique toda a vida, um realengo com papagaio empalhado”.

A tendência é todas as tendências, agora imediatamente.

Na televisão é assim: “a mulher meio careta casada com um cara mais velho, dorme com sua empregada, vai pra parada gay disfarçada, usa mini saia no confessionário, rouba dinheiro do marido, faz aula de moralismo cívico e paga seus impostos em dia.

A tendência é o des-padrão, a ética relativizada e os valores mutantes.

Na propaganda é assim também: um comercial cheio de dançarinas de cancan cantando um pancadão, apresentadas por um almofadinha grisalho, com uma vaca voadora beijando a bunda de uma gogo girl, luz de vídeo amador, com produção de musical à la Ester Williams, e claro, um pack shot careta com call to action e tudo.

A tendência é a miscigenação, as influências mutantes, as estéticas fragmentadas, as idéias fugidias. A tendência é seguir as tendências.

E tem, claro, o new brega em tudo, na música, na literatura, nas artes, no falar, no andar, no amar, no rezar etc.

É isso o new brega. New brega é o tudo. É o oposto do estilo, do coerente, do lógico. Mas não é só isso, claro, porque essa definição se refere apenas ao “New” que podemos chamar de outros nomes, mais sábios, mais intelecuais, mais cool, mais tendência, menos brega.

Mas o new brega tem um refinamento adicional que faz toda a diferença. O new brega é a saída do armário definitiva dos gostos, preferências e impulsos. Quase uma hora da verdade.

Mas é a grande chance que temos, todos, de ser brega o quanto somos ou quisermos. Afinal, o New Brega agora é 100% tendência.

Mas será que ser tendência é que é brega? O compromisso de ser tendência falta com a força vital chamada liberdade? E se o new brega fosse o óbito das tendências? Já vão tarde.