Artigos na categoria ‘Internet’

Jornalismo participativo não é jornalismo de auditório

13/07/2010 em Internet | Tags: | 4 Comentários »

Há uma crítica generalizada que se dirige à qualidade do assim chamado jornalismo cidadão, ou participativo. Pouco compromisso com a qualidade das fontes, responsabilidade ética duvidosa, anonimato que mascara intenções questionáveis, investigações superficiais.

Se por um lado, ainda no susto de uma incontrolável concorrência surgida sem compromissos comerciais, legais ou de reputação, a mídia tradicional reagiu (e ainda reage) com inocência, dando voz indiscriminada aos comuns cidadãos, por outro, a liberdade é inebriante para aqueles que repentinamente descobrem um canal de expressão universal, simples e sem censura.

Ainda vivemos um longo período de adaptação, no qual, uma vez vencida a pretensão magoada dos antigos e o frenesi adolescente dos novos, o tributo sociocultural que a Internet, a termo, permite é alvissareiro.

Mas parece que, por parte dos antigos detentores e distribuidores da informação, ainda há um longo caminho de compreensão do fenômeno.

O mais recorrente argumento diz respeito, evidentemente, à qualidade da informação. E é simples verificar que, de fato, quando a mídia tradicional permite, sem discriminação, a manifestação de seus leitores, o resultado é geralmente ruim, superficial, mal escrito e personalista (“eu acho” ou “para mim” são os preâmbulos de 2 em cada 3 comentários em sites de notícias). O público, ao expressar-se, não percebe com muita clareza ainda que um veículo de comunicação, seja ele em que plataforma for, deve respeitar a regra do interesse comum. Um jornal ou um blog “jornalístico” não é confessionário ou divã. Portanto, achismos são menos interessantes que argumentos.

A tese, no entanto, não deveria ser tão conclusiva, a ponto de virar axioma das redações, que ridicularizam consciente (para os mais ousados) ou inconscientemente (para os mais pretensiosos) o jornalismo participativo, reduzindo-o muitas vezes a uma espécie de sufrágio de opinião pública, obviamente sem nenhum valor.

Cabe, sim, às novas redações, aos novos jornalistas, assumir uma nova função que consiste na capacidade de lidar com um fluxo muito maior de informação, oriundo agora, para além das tradicionais fontes, dos próprios leitores. Isso exige trabalho e ferramentas, além de boa vontade. Cabe ao jornalista devidamente munido dos adequados recursos a função do filtro editorial exponencialmente extrapolado. Não se trata mais, apenas, de publicar qualquer bobagem só porque “foi dito por um leitor”. Essa “tendência” já caducou há anos e perdeu totalmente a relevância, inclusive para dar ares de modernidade às redações. Por trás de cada editor deveria existir uma espécie de trackeador de fonte, subeditores – automatizados ou não – que peneiram, na montanha de canais de recepção de informação, aquelas que realmente são capazes de enriquecer o conteúdo.

Por outro lado, um paradigma importante deve ainda ser quebrado. Ainda que as fontes explodidas vindas dos leitores possam ser difíceis de filtrar, deve-se acreditar na seleção natural. A termo, informações equivocadas ou mal intencionadas são naturalmente expelidas pelos próprios leitores e algoritmos automatizados. Se a Wikipedia tem muitos verbetes equivocados, a esmagadora maioria deles está correta ou vai se corrigir com o tempo, rapidamente. Assim sucede também com a nova função jornalística que, sem furtar-lhe o dever de filtro expandido, deverá crer na capacidade de autocorreção.

Se não queremos perder-nos no obscurantismo cultural, se não queremos que as novas gerações informem-se apenas no jornalismo humorístico de auditório e nos scraps das redes de relacionamento, é tempo de encarar a participação dos leitores com mais inteligência e menos parti-pris.

O Mundo não está perdido

12/07/2010 em Internet | Tags: , | 2 Comentários »

Semana passada, selou-se um memorável acordo: a troca de participação do mais tradicional jornal da França, “Le monde”, mais que uma empresa jornalística, uma instituição nacional.

Por mais de 100 milhões de Euros, três investidores assumem o desafio de salvar o jornal: Pierre Bergé, Xavier Niel e Matthieu Pigasse.

O que tem de surpreendente essa nova investida para enfrentar os tempos bicudos que assolam os jornais de todo mundo há vários anos? O que tem de arrojado o compromisso que derrotou a poderosa oferta do Nouvel Observateur (uma espécie de Veja no conteúdo e na ideologia), do Grupo Prisa (uma espécie de Abril nos tenáculares poderes) e da France Telecom (uma espécie de estatal privada)? O que tem de irônica essa vitória que tanto desagradou ao presidente Sarkozy, com seu apetite pela cobertura midiática e que enfrenta os piores indices de popularidade já registrados por um presidente francês?

Acima de tudo, a biografia dos novos donos da casa.

Por detrás das manchetes “people” que estampam Pierre Bergé como companheiro por décadas de Yves Saint Laurent, há também o formidável empresário que construiu a marca YSL, o homem de grandes causas como a Sidaction, a bem sucedida campanha de arrecadação de fundos para a luta contra a Aids na França, o amigo dos socialistas poderosos, o idealizador e proprietário de “Tétu”, a revista GLS mais influente do país. Bergé também é um homem com um gosto apurado pela cultura e manifestações artísticas.

Xaviel Niel é o mago da Internet que dá dinheiro. Proprietário da Free, o maior provedor de acesso à Internet na França, Niel começou sua carreira criando os endereços de encontros eróticos no Minitel (o avô francês da Internet commercial). É também um feroz e contundente defensor da liberdade na Internet, opondo-se do alto de sua imagem de “enfant terrible” do empresariado francês e 12o homem mais rico do país, à todas as tentativas de coibir, legislar ou regulamentar o acesso (como a lei Hadopi, um projeto anti-diluviano que restringe e pune os infratores do direito autoral on-line).

Matthieu Pigasse foi o mais jovem talento a assumir a direção geral do banco de investimentos franco-americano Lazard Frère, aos 34 anos. É um empresário que curte Beckett e recita Spinoza, além de ser fino conhecedor do Rock. No ano passado, adquiriu a revista Inrockuptible, um sucesso de vendas há anos na França, e talvez a mais importante publicação independente de cultura jovem do País.

O Le Monde vendeu no ano passado, em media 288 mil exemplares (dos quais 130 mil assinantes) por dia, ou seja uma repetição paulatina das quedas de tiragem dos anos anteriores: – 4%.  O grupo emprega mais de mil pessoas, dentre os quais 280 jornalistas só para o jornal.  Além do jornal, a empresa possui revistas (Télérama, La Vie, Courrier International e Monde diplomatique) e uma plataforma na Internet (lemonde.fr e lepost.fr). Apesar da diversificação e dos investimentos continuados em meios digitais de fazer inveja a qualquer periódico brasileiro, Le Monde acumulou um prejuizo de 25 milhões de Euros só em 2009.

É evidente ainda que o contrato de controle acionário prevê total e absoluta independência editorial à redação. Os novos donos do jornal não podem, por contrato, ter qualquer ingerência no conteúdo dos veículos, sendo esse integralmente controlado por um conselho editorial de jornalistas. Ainda que essa ética nos pareça ficção, principalmente no nosso país em que os principais jornais são de propriedade majoritária de famílias que nem sempre são fãs da deontologia e transparência, esse tipo de estrutura é comum no mundo, digamos, tarimbado de civilização.

Ainda que não se possa prever com exatidão quais serão os movimentos de mudança pelos quais o Le Monde irá inevitavelmente passar, é de admirar-se e encher-se de esperança com a guinada modernizadora ancorada pela biografia dos novos donos do jornal.

É de um novo protagonismo que a mídia carece, aqui como lá. De ar fresco, sangue nos olhos, menos pretensão e mais ousadia. Caso contrário, a condenação, ainda que não venha por mecanismos mercadológicos e econômicos, virá por atentados democráticos e culturais irreversíveis. Ainda que não percamos nossos respeitáveis jornais, perderemos as novas gerações.

Artigo originalmente publicado no Meio & Mensagem de 11/07/2010

“Profissão repórter”: jornalismo redentor

18/06/2010 em Internet | Tags: | 4 Comentários »

As curvas de audiência/leitores dos conteúdos jornalísticos nos principais veículos de comunicação vêm caindo (despencando?) em velocidades maiores nos targets jovens do que a queda (acomodação?) da audiência geral.

Antes de construir algumas hipóteses (alarmantes?), vale descartar a explicação fácil: se a audiência dos tradicionais está caindo e a dos novos está crescendo, isso não significa necessariamente uma transferência de um para o outro. As plataformas digitais são talvez aquelas que mais facilmente permitem superposição da atenção. A Internet é um estímulo irresistível ao comportamento multitarefa. Por outro lado, a pulverização dos meios novos (novos?) é tamanha que é impossível estabelecer quantitativamente algum tipo de correlação entre a queda de uns e o crescimento de bilhões. Por fim, se qualquer crescimento (da audiência do conteúdo jornalístico da Internet) é grande quando ele parte de muito pouco, difícil é levantar depois de uma certa, digamos, experiência.

As hipóteses a seguir são possibilidades concomitantes mas merecem ser isoladas para que a análise tente ser mais cristalina.

A primeira hipótese (catastrofista?) é a de que o gênero simplesmente não interessa mais aos jovens. É dizer que nesse mundo pós-pós-moderno, o cérebro da molecada é composto de fractais de atenção, que se multiplicam, desdobram, perdem-se, ao infinito. Nada gruda, nada pega, nada entusiasma, inflama, excita. Se assim for, o jornalismo sempre será refém das quedas de avião e dos julgamentos espetaculares. Ai do futuro dos nossos valores de outrora.

A segunda possibilidade (conformada?) é que de fato o jornalismo broadcast, de cima para baixo e ideológico caducou. Essa possibilidade confronta uma revisão da autoridade como decorrência de conhecimento e experiência. Ou seja, não acreditamos mais que a reputação de um jornalista ou de um veículo possa ser fator de seu passado e de seu pedigree intelectual e técnico. Acreditamos mais no mais próximo e nos nossos relacionamentos que procriaram repentinamente. Reputação se conquista com seguidores e não com currículo. Ai de nossos velhos dias.

Mas talvez (inshalláh!) possamos também encarar a nossa fórmula de construir o conteúdo jornalístico com um olhar de implacável crítica. O jovem, confrontado com uma realidade cada vez mais intrincada, inter-relacionada, organicamente conectada, não se excita mais com o jornalismo cortado em fatias editoriais. Qual a história das mentalidades, que decretou o fim da visão cronológica (como um salame: a Antiguidade, a Idade Média, o Renascimento, etc.) e anunciou uma visão temática do mundo (como um repolho: o amor no ocidente, a loucura, o mal), o jornalismo que fazemos deixou de ser crível e apaixonante. Economia, finanças, política, comportamento, cultura, esporte, por que não aposentar os velhos especialistas, cada vez mais arcanos e iniciados?

Por que o jornalismo não pode ser um contar de histórias (mil e uma noites?) interminável, uma novela que documenta o mundo em temas transversais e universais? Uma espécie de realismo ficcional. Queremos (jovens e velhos) consumir o mundo como uma fantástica história, cheia de perigos, esperanças e heróis.

O Twitter é uma rede egosocial

16/06/2010 em Internet | Tags: | 5 Comentários »

E agora, depois das pérolas de sabedoria com 240 caracteres, a competição no twitter é pelas pérolas de humor. É o jeito de encontrar mais seguidores no sentido mais superficial da idéia, ou seja, fãs.

O twitter é uma plataforma em gestação?

Pessoas praticam seu onanismo exibicionista com volúpia. Ou quem sabe, seja só uma espécie de incontinência de visibilidade, ao sabor das pautas do dia a dia. Tem lá sua função, catarse ou egotrip, porque desopila a mediocridade que nos achata.

Mas função mesmo individual, para além da função de se auto-propagar, pouco se encontrou.

Talvez não passe disso mesmo. Talvez o Twitter não seja uma rede social coisa nenhuma. Talvez seja só uma ferramenta de auto-promoção.

Talvez o Twitter não seja uma plataforma colaborativa coisa nenhuma. Talvez seja só um almanaque de curiosidades.

Talvez o Twitter não seja nem uma ferramenta de comunicação. Talvez seja só um divã barato e sem compromisso.

E se for só isso, tá bom né? Para que tanta onda, tanta ciência, tanta estratégia?

Nossa propaganda da geração espontânea

15/06/2010 em Internet | Tags: | 4 Comentários »

Faça assim: pegue uma camisa de marinheiro, dessas bem fedidas e jogue no porão de um navio. Espere alguns meses e quando você menos esperar, daquela coisa podre, nascerão milhares de horrorosos mickey mouses com peste bubônica.

O povo tem se acanhado cada vez mais em programar e defender as chamadas mídias tradicionais. É quase como se estivessemos pedindo desculpas: “olha, aqui vamos fazer uma campanha de televisão, mas não se preocupe, vão ser filminhos de 30 segundos, daqueles lá que se fazia antigamente, com atores, trilhas e tal, sabe? Mas veja que todo o suporte de mídias stroboscópicas vai complementar a estratégia”.

E até situações mais inusitadas ocorrem: “caro cliente, essa é uma coisa revolucionária, vai acontecer bem devagarzinho, nas mídias sociais, e vai crescendo, crescendo, crescendo de tal forma que não vamos precisar de nenhum único filmezinho na televisão, nem revista nem coisa nenhuma. Vai ser uma bafafá e iremos cobrir todo o nosso target apenas com a boa vontade da mídia falada, escrita e televisionada que vai se acotovelar para publicar nosso feito”.

Ou mais psicodélico ainda: “vamos criar um fato novo, que nunca ninguém sequer imaginou possível. E sabe o que vai acontecer? Não vamos fazer nenhuma mídia e sequer vamos precisar produzir nada. É uma espécie de estratégia pré-pasteuriana: vai ser tudo geração espontânea. Quem tem que nos consumir vai também nos divulgar.”

Ficou tão escalafobético mostrar um mapa de X que os mídias estão com os dias contados. Ou os planejadores já que tudo é espontâneo e intuitivo. Ou os criativos porque estão terceirizando a mão de obra com os consumidores.

E no final, para a broxada geral, a decepção e a mágoa, vem o dono da caneta que nos lembra que ele comprou um pacote de televisão. O dono da batata que avisa que no dia seguinte ele quer todas as Severinas fazendo fila na porta da loja. Ou nerd maldito: caiu o servidor. Ou o patrão que só se arrisca nos festivais.

Pergunta ingênua: qual foi a última vez que você trabalhou, como consumidor, para uma dessas campanhas de mídias sociais? Não minta: eu disse trabalhou, ou seja, acompanhou, seguiu, produziu, espalhou, tudo ao mesmo tempo, como se fosse a última coisa que você quisesse fazer na vida?

Novela: a crônica medieval no século XXI

14/06/2010 em Internet | Tags: | 1 Comentário »

E antes era assim: se o cara morasse numa aldeia perdida no meio do nada, numa tapera qualquer, passaria a vida por ali, lavrando a terra e olhando para o infinito com a esperança de que, um dia, quem sabe, uma caravana o levasse para longe. Ou ele pegava a trouxa e, com vagos sonhos e muita fome de liberdade, rumava para a capital a perder-se no anonimato.

O enraizamento irremediável ditava a sorte dos desvalidos. E não faz tanto tempo assim, a televisão não era mais do que inviável realidade qual literatura que se lê mas não se vive. A novela das 8 ainda crê nesse tempo revoluto, de cartas não respondidas e esperas intermináveis e de juras escondidas nas trapaças dos vilões. Trama medieval. Literatura que não se vive.

Num piscar do computador, um encontro salvador, um apelo redentor, uma descoberta muda a vida de uma pessoa. É possível, é fácil e é irresistível.

Talvez tenhamos que reinventar o papel da dramaturgia televisiva. Retratar a vida real, nas telas, é, na melhor das hipóteses, monótono e, na pior, embrutecido. Retratar as vizinhas, as ricas, as pobres, os vilões maldosos, os bem-intencionados fodidos, temperado com tramas e diálogos de envergonhar um colegial, é achar que a Dona Maria (porque insistem em achar que Donas Marias são o target principal da televisão) é uma Severina desconectada.

Aposentem as fórmulas prontas, as pesquisas de público e os novelistas de pijama porque a realidade que está a um clique de ser vivida é mais excitante que a pretensa fantasia da televisão.

Internet: perda de tempo

01/06/2010 em Internet | 8 Comentários »

E se a Internet não passasse de um complô divino para deixar as pessoas mais confusas, menos informadas e mais superficiais?

Não é totalmente imbecil considerar a absurda hipótese, nem que seja para fins de análise de cenário. Afinal de contas, bastam algumas pequenas auto-observações para configurar a dúvida.

A nossa conexão hiperbólica consome tempo, muito tempo. É, portanto, vital para acompanhar o ritmo do mundo moderno, fragmentar nossos mergulhos – ricochetes – nos conteúdos.

Lemos manchetes cada vez mais resumidas, cada vez mais superlativas, nos portais de notícias cada vez mais sintéticos. Ou contentamo-nos com os verbetes do Google. Ou com os comentários nas nossas redes que dão conta da necessária credibilidade. Conteúdos em vídeos que passam de insuportáveis 5 minutos são zapping certo. E o tempo médio de permanência num site se mede em minutos quando o tempo médio de leitura de jornal se mede (ou media) em horas, da TV, dias.

Mas continuamos desesperadamente ocupados, com nossas vidas completamente cronometradas. E nosso lazer não se mede mais em horas, mas em minutos; nosso sono, em horas; nossa vida, em meses.

Não parece que estamos mais informados nem mais cultos. Só mais rápidos.

De concreto mesmo, por enquanto, a Internet nos trouxe falta de tempo. O resto são votos piedosos.

O jovem divorciou-se do jornalismo?

31/05/2010 em Internet | Tags: , , | 4 Comentários »

Outro dia, num evento lotado de gente bacana, jovens na maioria:

- Tem muita reportagem de televisão aqui, né?
- Pode crer. É para meus pais essa parada.

Era assim que os dois analisavam a cobertura jornalística do acontecimento, referindo-se em particular à equipe do CQC presente para seus rompantes.

Não existia possibilidade de ir para a escola e depois para a faculdade sem ter lido o jornal, de preferência a Folha, e obrigatoriamente a Ilustrada, que muitas vezes carregávamos dentro do caderno. Ler jornal era uma questão de sobrevivência social. E também era importante ver o Jornal Nacional e ler a pré-degringolada da Veja.

Responsabilizar a Internet pelo desinteresse da molecada pelo jornalismo tradicional, broadcast, encurta demais o raciocínio. Sim, a função hard-news desempenhada pelos veículos tradicionais perdeu algum sentido. Sim, a fome por liberdade e voz é incomensurável.

Mas, sem dúvida nenhuma, a responsabilidade é no mínimo compartilhada. Muito pouco ou quase nada se fez nos jornais, nas revistas e na TV – o rádio é um caso à parte – para entender o novo contexto do consumidor de notícias, particularmente o jovem.

As incorporações “participativas” do jornalismo cidadão nos veículos tradicionais são um truque muito meia-boca para dar conta do recado de reconquistar, seduzir e fidelizar o jovem. Sempre soa como um arremedo que não parece funcionar em plataformas nascidas para serem broadcast.

Por outro lado, os esforços de reforma editorial tampouco parecem ser fundamentados ou inspirados para atrair nossos leitores/espectadores do futuro. Parecem maquiagem porque pouco se ousa em nome daqueles que ainda não aposentaram seus hábitos. Quem assumiria o risco de enfrentar o vovô, enfurecido cada vez que seu jornal muda uma coluna de posição?

Por isso, talvez seja mais inteligente e rápido criar produtos paralelos, mais ousados, para aprender e experimentar o diálogo com essa galera que acha que jornalismo é coisa de paizão querendo saber o que está acontecendo com o mundo, com a rua, com o jovem.

Uma online mais careta do que a mais careta das offline

18/05/2010 em Internet, Propaganda | 9 Comentários »

E lá vem mais um gaiato pontificar enfaticamente sobre o que não sabe: o gringo da Razorfish atirou mídia contra mídia, TV contra Internet, através de um falacioso argumento. O BV seria o culpado entre a prática real do comportamento online dos brasileiros e o “dinheiro gasto pelos anunciantes em publicidade na televisão”.

Pouco importa saber sob que impulso suicida ele fez a afirmação, ele que representa uma empresa de um dos maiores grupos de agências do mundo, que, no país, tiram boa parte de suas receitas justamente da TV.

Para além da ingenuidade batida, sua conduta é no mínimo injusta e no máximo ofensiva.

Se ainda podemos discutir a tal da “lacuna entre o comportamento online do brasileiro”, é irresponsável incutir às agências um comportamento viciado e vicioso de “privilegiar” uma mídia em detrimento da outra por conta do BV. A menos que exista uma secreta pesquisa que dá conta da “boutade”.

Mas polêmica de neófito não faz verão. Sequer vende notoriedade.

O que cabe debater sim é qual é a visão que se tem do consumo de mídia das pessoas, dos brasileiros. E isso transcende o discurso comercial em muito.

Todas as pesquisas, todas as visões, todas as teorias até,  dão conta de que as pessoas consomem complementarmente todas as mídias, numa sofreguidão infinita. As escolhas são elásticas como nunca imaginávamos que fossem.

Que discursinho mais velho, careta e nanico. Vai pra casa, vai!

E a liberdade de expressão da boca pra dentro?

12/05/2010 em Internet | Tags: | 6 Comentários »

A liberdade de expressão é uma quimera que acalentamos. É um direito garantido constitucionalmente. E enche a boca de todos aqueles que se sentem minimamente atingidos ou pressionados.

No entanto, franquia de ideia e de opinião tem preço. E muito alto em tempos de incontinência comunicativa.

Nenhum insano fascista seria capaz de defender o controle da imprensa, tampouco de impor regras de censura. A imprensa livre garante o equilíbrio democrático. Esse é o chavão inapelável que rege a bem pensante burguesia.

Tampouco é possível penalizar “delitos” de opinião individuais. Todo mundo tem o direito preservado de achar o que quiser de quem quiser e do que quiser. E esse direito se estende também para qualquer forma de expressão, da conversa de bar ao libelo amador, do Facebook ao Twitter.

A imprensa, que tanto empunha a bandeira da preservação da liberdade de expressão e que em regimes razoavelmente livres tem defesa assegurada pela opinião pública, no entanto, evolui em um sistema que preserva seu direito de controle da opinião manifesta de seus funcionários. O direito da empresa (de reprimir ou demitir) se sobrepõe ao direito individual de expressão.

É ilegal discriminar, no seio de uma organização, por raça, cor, credo, opção sexual, etc. Qualquer funcionário de uma empresa pode acionar seu empregador se perceber e provar esses delitos. Ainda que a empresa possa demitir o funcionário, ela poderá ser processada. Por que não sucede o mesmo quando alguém emite uma opinião contrária à da empresa para seus colegas, sua esposa, seus amigos do bar, do Twitter, do Facebook?

A encruzilhada é difícil, mas no caso da imprensa, diferentemente de outras empresas capitalistas, é inevitável considerar de certa hipocrisia a defesa inflamada da liberdade de expressão, quando ela impõe regras na expressão livre de seus jornalistas em redes sociais.

Geração espontânea de conteúdo é propaganda?

07/05/2010 em Internet, Propaganda | Tags: | 4 Comentários »

As experiências com conteúdo publicitário gerado por usuários costumam ser qualitativamente decepcionantes. É bonitinho saber que foram amadores populares que produziram aquilo, com seu esforço e criatividade. A porcaria barata e enternecedora. Mas tem que avisar bem grande: “Pessoal, foi meu filho de 5 anos que fez essa arte!”

Propaganda é mais técnica do que arte. O bom gosto e a capacidade criativa não são talentos suficientes.

Mas as iniciativas têm lá suas vantagens, para além da voga, já meio démodé.

A primeira delas é tentarmos direcionar esse tipo de “exploração” consciente dos consumidores para conteúdos não necessariamente publicitários. Documentos de vida, de uso, de hábito podem ser muito ricos quando autobiográficos.

Por outro lado, as experiências podem ser boas para a geração de insights. Se encararmos esse conteúdo dessa forma, sem compromisso de uso, esse tipo de pré-teste reverso, no qual consumidores criam, postam e principalmente opinam, é divertido e pode ser útil. É quase um pré-briefing pré-aprovado. Os universitários assuntam e a gente escreve.

Mas também pode ser que estejamos formando plateias publicitárias. Quanto mais inteligente e sensível for o consumidor, melhor será a propaganda, sempre (inclusive a não tradicional). É ouvindo música boa que nascem os grandes músicos. É vendo boa propaganda que nascem os bons publicitários e os bons clientes.

A fumaça novidadeira não enche barriga

06/05/2010 em Internet, Propaganda | Tags: , | 1 Comentário »

Os rótulos estão para as tendências assim como a fumaça está para o fogo. Anunciam e apontam. E quando há muito mais espuma do que água significa que a gestação é de risco.

E é por aqui que entra o alvoroço gago mais conhecido sob o palavrão trans-midia-story-teller-brand-content.

É uma espécie de mistura de conteúdos servida num leito de mídias e que se consome de forma intravenosa ou ativamente. Pode ser degustado na bancada da cozinha gourmet ou no quilo da esquina, mas é sempre muito apetitoso para quem tem fome de alternativas.

Não nos cabe julgar o sentido de oportunidade, tampouco o oportunismo de agências de comunicação oferecerem esse discurso suculento a seus clientes. Até porque o período de críticas venceu e, com resultados ou sem, nego quer e ponto.

A questão, no entanto, é mais uma vez o formato de remuneração desse tipo de oferta que conjuga complexidade a incerteza numa dose quase incalculável.

O custo não é mais base para precificar o cardápio T.M.S.T.B.C.

Quanto se paga por uma espuma de pupunha com suspiro ardente de priprioca marinada na casca da castanha do Pará? Muito. Quanto custa? Impossível calcular pelas fórmulas clássicas, custo, overhead, mark-up, margem de concorrência, etc. É muito mais uma função de inventividade, experiência, coragem e reputação, portanto, mais insustentável que a leveza do ser.

Essa é a pedra no sapato de quem cria e o cisco no olho de quem tem que pagar.

É por isso que é tão difícil botar o power point na rua. Os formatos tradicionais (de mídia e remuneração) inseridos no discurso moderno – mesmo que inflados por um tipo de subsídio – serão ainda por muito tempo a melhor forma de convencer o cliente sem sugar a receita das agências.

A improbabilidade provável das novas mídias

05/05/2010 em Internet | Tags: , , | 1 Comentário »

Primeira pensata: alguém disse que o ateísmo é a mais improvável das escolhas.

Segunda pensata: aposta de Pascal. Escolhamos que Deus existe. Duas possibilidades. Se ganharmos, ganhamos tudo. Se perdermos, nada a perder. Melhor que Ele seja, então.

E, assim, Candido pergunta: “Vale a pena acreditar que a mídia de massa vai diminuir de importância e que o direito autoral idem?”

Vamos acreditar nos sinais e de forma muito prematura, quase irresponsável, é possível sentir que a mídia de massa já não é mais aquele balaio todo. Pois, se isso for verdade, o que se tem a ganhar ao se investir em conhecimento, experiência e energia nas novas mídias? Tudo, se o prenúncio for verdade. E nada a se perder, caso a hipótese não se confirme.

Vamos crer na tendência subterrânea, na pirataria com baque solto na Internet. O que perdemos se for verdade e não nos mexermos para encontrar fórmulas alternativas de distribuição? Tudo. E se for mentira, se a Internet não passar de miragem e as pessoas não forem tão más e desonestas como parecem? Ganhamos uma nova forma de ganhar ainda mais dinheiro sobre a criação autoral.

Mas há improbabilidade nas coisas que não emanam da vontade universal.

A borboleta bate as asas no Japão, move o caule da flor que num movimento pendular despeja o orvalho na terra que se junta a mais gotículas que se amontoam para formar um filete de água que move um galho que empurra outro e mais outro até chegar ao riacho, formando uma barragem que com a pressão da água irá romper-se despejando mais água imprevisível no rio que sobe de nível até o mar que estava já muito cheio por conta de outras borboletas em outros lugares que tiveram o mesmo gesto frágil simultâneo. E assim ocorre um maremoto nas ilhas Sakalina que um repórter da televisão noticia dando conta precipitada de causa ambiental. Milhares de pessoas mobilizam-se à porta da minha casa e fazem tanto barulho que acabam importunando meu sono.

E porque tanto se fala das mídias novas e porque tanto se burla o direito autoral que dois fatos aparentemente improváveis tornam-se tão prováveis quanto a improvável perturbação do sono pelo bater de asas de uma borboleta no Japão.

Brasileiro: DNA Creative Commons

04/05/2010 em Internet, Sei lá | Tags: | 1 Comentário »

Não se pode levar muito a sério as generalizações que rotulam países, culturas e povos. Mas é um papo que enche a boca de muitas conversas. “O francês é mal-humorado; o português, literal; o italiano, conquistador; o americano, adolescente; o argentino, cabeludo; o mexicano, bigodudo; o indiano, fedido; o australiano, caipira; o japonês, tarado; o chinês, dissimulado; o russo, extravagante”, e por aí vai. É aquela conversinha mole que arrota “Sou viajado, tá?”.

O brasileiro seria, nessas qualificações precoces, alegre, se o viajante veio no carnaval; simpático, se ele se perdeu na Avenida Paulista; feliz, se ele se esticou nas areias; luxuriante, se ele comeu feijoada; gritalhão, se ele assistiu ao big brother local; caipira, se ele foi ao shopping; arrivista, se ele se derreteu na Oscar Freire. Sorridente ou desdentado, natural ou botocudo, sexy ou britânico, esperto ou disciplinado, o brasileiro pode ser tudo isso. O francês, também. O queniano, idem.

Mas se não deveríamos cometer tais derrapadas no atual milênio de extinção saudosa dos regionalismos, o brasileiro é o mais improvável dos povos e possui a mais impossível das identidades. A tolerância imposta pela miscigenação incontrolável nos deu essa zona poderosa.

Não tem nada mais falso e bobo do que um brasileiro que se esforça em ser americano, inglês ou argentino. Fazer como os americanos, os ingleses ou os argentinos. Pensar como os americanos, ingleses ou argentinos. Não tem nada mais provinciano.

Se o Brasil exporta sandália de dedo, avião a jato, dentistas e boleiros, ele tem para exportar a malemolência com o formalismo, a falta de vergonha, o aconchego cultural. Nosso DNA mestiço no sangue e mestiço no gosto. Nossa natureza copyleft. Nossa cultura mashup.

Que medo de não ser à toa na vida

30/04/2010 em Internet, Sei lá | Tags: | 4 Comentários »

Primatas evoluídos conseguem criar instrumentos para obter o que precisam. Alavancas para puxar, varas para bater, pedras pontiagudas para quebrar.

Os humanos são assim também. Criam a todo instante próteses funcionais para lutar por sua sobrevivência e preservação. Alavancas, varas, pedras pontiagudas, carros, aviões e computadores.

Mas os macacos não inventaram a televisão, os telescópios, os foguetes e o iPhone. Nem nunca serão capazes disso porque só os humanos são capazes de criar e conservar. Nós criamos e aprendemos. Nós criamos e aperfeiçoamos.

Nossos primos só criam, usam, jogam fora e esquecem.

Somos o que somos porque as coisas que criamos são eternas. Nós não. Somos humanos graças às nossas criações eternamente melhoradas por uma infinita cadeia de semelhantes. Cadeia que vem de trás, quando ainda não éramos, e anda para a frente, quando não mais seremos.

Entre nós, existem dois tipos de pessoas: aquelas que buscam fama e aquelas que buscam feitos. Ou, para certos, as inconfessáveis falácias de “buscar fama para fazer” ou de “fazer para a fama”.

A fama morre com a morte. Ou morre antes, com as rugas. Ou ainda, a fama se suicida com a vaidade que a alimenta.

Em nossos tempos, a fama é fácil e rápida. Se ela é fator de reputação coletiva, a conectividade em redes descentralizadas afama num estampido iluminado ou de sorte. De 140 caracteres, por exemplo.

Mas, assim como acontece num truque instantâneo, a reputação é uma vertigem. E nada, nada se aperfeiçoa da fama depois que ela some.

O homem, sozinho, mesmo que sua fama seja enorme, é uma miragem fugaz. O homem só existe para a espécie, para sua espécie, na medida em que é capaz de aperfeiçoar os feitos de outros homens.

A apoteose dos big brothers, dos nossos craques, dos nossos bandidos é tão inútil quanto o eclipse das nossas medalhas e das nossas aspas na mídia, se não formos capazes de nos perguntar, sempre: “O que fazemos para melhorar e perpetuar a espécie?”.

Integração vem de cima

29/04/2010 em Internet | Tags: | 8 Comentários »

Quando a gente levantava as pedras do jardim, tinha umas cobras, feias, branquelas, mas inofensivas, que espalhávamos nos bolsos, debaixo dos travesseiros, nos sapatos. Até o dia da bronca e da mesada suspensa.

Integração é uma palavra mais chata que sinergia, mas quer dizer a mesma coisa, e também trezentos e sessenta graus é mais monótono do que transmídia, mas é la même chose e tuti quanti, etc. e tal.

Da série “questões que não gostamos de levantar”, por que mesmo esse papo é irritante?

Falar em integração para terceiros é como escorregar uma serpente no cangote: quer dizer que não temos ou que está mal resolvido. Não é discurso que se venda, porque ninguém precisa saber a receita pra gostar de um prato. Integração deveria ser uma palavra para se xingar só na intimidade e geralmente usada na negativa: desintegração.

Integração da mídia com a criação com o planejamento e com o atendimento não se promove em reunião. Como é cultural, é também na hora do café e do mictório coletivo. É afinação de visões mesmo que as opiniões sejam diversas. É todo mundo empurrando o fardo na mesma direção, mas concentrado na sua tarefa.

Integração é uma função direta dos perfis de profissionais e principalmente da liderança, cuja única atribuição deveria ser essa: dizer para onde vamos. E como é a liderança que escolhe os perfis, integração, contrariamente ao que se pensa, vem de cima, e não o contrário.

A gente pode até promover encontros alegres, abraços coletivos, cursos de autoajuda e outras manifestações folclóricas que tais, mas, se os caciques não sabem ou não dizem para onde temos que remar, a integração não passará nunca daqueles morvets horríveis com os quais aprontávamos quando criança.

Daí, vem a outra integração que está mais na moda. Essa vadia dessa Internet causando, como sempre.

Tenta-se de tudo: apartar os nerds dos maconheiros, misturar os virtuais com os reais, grudar os mídia-mortas com um escravo mídia-viva ou o contrário. E tem até quem pense que tem que ter uma constelação de empresas coligadas trabalhando “em nível de integração”.

Funciona por soluços: muda a estrutura e dá um salto. Daí, engasga e tem que mudar de novo pra avançar mais um pouco. É um método. Cansativo.

O outro é decidir, tiranicamente, top-down, e punir severamente quem ousar pronunciar a palavra on-line e off-line, demitir sumariamente quem perguntar “E pra Internet, o que vai ser?”. É outro método. Doloroso.

Melhor tirar esparadrapo de uma vez ou aos pouquinhos?

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Internet vicia tanto quanto brócolis

27/04/2010 em Internet | 5 Comentários »

Pipocam pesquisas, aqui e ali, documentando uma nova praga na sociedade contemporânea: o vício na Internet. E correm linhas e mais linhas bem pensantes, preocupadas, nos jornais.

O jornalismo moderno gosta de ser fiel à moral e aos bons costumes, juiz da média, do senso comum, da obviedade tranquilizante, da modorra crítica.

Os jornais adoram documentar casos de abusos aliciadores na Internet, pedófilos, traficantes, panfletários dos extremos e outros desvios que apavoram o pequeno-burguês. Agora, estaríamos no limiar de uma sociopatologia.

E claro, como opinião é risco, o hábil jornalista ampara-se em consultas credenciadas. Médicos, terapeutas, psicólogos premiam seus currículos mornos com aspas publicadas: “Os viciados [em Internet] apresentaram os mesmos sintomas de abstinência quando afastados do hábito de usar Internet que viciados em drogas ou álcool”. Doutor Zé Ninguém, professor da Universidade John Nothing de Johnson Nowhere.

O Robinson Crusoe ficou lá, perdidão na ilha paradisíaca, sozinho. Começou a ter tremores, suores, alucinações que não eram provocadas por falta de comida, sexo ou cachimbo. Ele sentiu falta de gente. Por isso encontrou ou inventou Sexta-Feira, o bom selvagem confessor. Se vício havia, era vício de ser social. Era vício de ser humano.

O mundo deu muitas voltas de lá pra cá e chegamos aqui, nesse milênio em que a forma prioritária de relacionamento é digital. Não é nem bom, nem mau. É assim.

Tirar a Internet de nossos contemporâneos é como jogar a pessoa na Ilha do Robinson. Vai dar faniquito, como daria nos nobres jornalistas se ficassem um dia sem a maçaroca de papel na soleira da porta. Vai dar crise de abstinência, como daria nos políticos privados de palanque. Vai dar fogacho e sudorese, como daria nos magnatas distantes das bolsas e dos mercados.

Comparar o hábito frequente de usar a Internet com o vício em drogas, francamente, é abstinência de inteligência.

A Televisão é melhor que a Internet para esta democracia que temos

26/04/2010 em Internet | Tags: | 1 Comentário »

É tempo de eleição, e já já vamos começar a enfrentar aquele bombardeio de propostas, farpas e programas de humor. Todos são unânimes em dizer que é o ano da Internet na campanha política, seja lá o que isso quer dizer (ainda tem candidatos chamando o eleitor na Internet de internauta!).

Mas o que tem essa plataforma a oferecer aos candidatos?

Nada. Nada a não ser mais uma mídia que, por definição, exige a participação ativa das pessoas para acontecer.

Em outras palavras, se não estivermos minimamente interessados em saber o paradeiro dos candidatos, seus projetos, promessas, carismas e mentiras numéricas, é muito pouco provável que os talvez setenta milhões de votantes brasileiros estejam sensíveis às invectivas eleitorais e eleitoreiras.

Porque a Internet é muito ineficiente para o convencimento massacrante, à base de lavagem cerebral repetitiva, a televisão continua sendo o grande e ensurdecedor megafone.

A Internet é a praia da busca, racional e deliberada. E como tal, ela não vai arregimentar legiões de ovelhas carentes por disciplina e ordem, como se presume.

Mas talvez os candidatos pudessem oferecer algo aos eleitores. Essa é a questão, a única, angular, a ser feita.

A Internet se fez e se faz a partir da participação voluntária das pessoas. É assim que ela se sucede. E o corolário dessa constatação anuncia a performance: os meios online exigem vontade de sufrágio. Vontade de ouvir e agir em consequência.

Mas qual dos candidatos está preparado para atender aos votos, no sentido etimológico da palavra (desejos, aspirações), dos eleitores, após ser eleito e até o pleito?

Não é isso o que se vê por aí. O que se vê é o uso da Internet para reafirmar um sistema de poder cansado, baseado em um discurso broadcast, de poucos pouquíssimos, para muitos muitíssimos. Nada de novo.

A Internet não é uma democracia de polichinelo.

Comprei uma Rede Globo de 50 polegadas

20/04/2010 em Internet | Tags: , | 4 Comentários »

Televisão é um objeto retangular preto ou uma espécie de quadro cheio de imagens em movimento? Um CD é um disco de vidro ou um bagulho que toca músicas? Um portal é um computador cheio de fios e plaquinhas superpoderosas ou um bocado de imagem, texto, vídeo clicáveis?

Pergunta estúpida pode ajudar a dichavar os miolos.

Até outro dia, era bem fácil saber a diferença entre um macaco e outro, embora eles tivessem a mesma denominação. Era assim: quem fazia o aparelho, o troço que dá pra pegar, era um, e quem produzia o que só dava pra ver ou ouvir era outro. Diferenciação, digamos, sensorial. E ninguém se atrevia a pular no galho do outro porque podia quebrar as pernas.

Daí apareceu a Internet e um conto do vigário chamado convergência. Pronto, confundiu tudo. Os craques do conteúdo resolveram fazer o aparelho, e os do aparelho, conteúdo. Confusão danada porque os portais que pertencem a uma empresa de conteúdo também fornecem acesso à Internet. Ou seja, está tudo na mesma razão social: o computador, a imagem, o texto, o telefone, a conexão. E daí todo mundo ficou concorrente de todo mundo. Maior festa do caqui.

Tem gente muito polivalente, tipo o Mozart de Salzburg e o Wesley do Santos, ou o Seu Wagner lá de casa, que conserta portão, máquina de lavar e bicicleta. Mas esses casos aparecem uma vez na vida e outra na morte. É o que chamamos de prodígios.

Mas nêgo é sempre melhor numa coisa. Sempre. Quer ver?

Tipo o YouTube e a Rede Globo. A Globo é a melhor pra fazer conteúdo. Não tem pra ninguém. Não tem nem quem chegue perto. E o YouTube é bom de fazer portal de distribuição (de conteúdo). Bom é apelido. Quem tenta rivalizar, os danados dos meninos chegam lá, compram o concorrente e fim de papo.

Mas por que diabos a Globo tenta fazer a coisa que o outro faz melhor? E por que diabos o YouTube não quer nem saber de fazer aquilo que a Globo faz?

E viva a carochinha.

Você é jovem? Depende de quantos amigos tem

19/04/2010 em Internet | Tags: , | Deixe um comentário »

Saint Exupéry, em Terra dos Homens, dizia que só existe um luxo verdadeiro, o das relações humanas. Ele devia ter meia dúzia.

Júlio tem 132 amigos. Luxo total. Devidamente ativos no msn, eles estão sempre a um toque de um Olá, Hey, Slt, porque, claro, eles estão espalhados nos quatro cantos. A maioria deles viu a luz nas redes sociais que Júlio freqüenta, tab sobre tab e no celular. Somando o povo todo, os amigos do msn e os amigos das redes, somam 645. Se Júlio fica acordado 14 horas por dia, e considerando q ele se comunica com o povo a cada dois dias por 3 minutos, somando os 1000 torpedos do seu pacote de celular que ele esgota todos os meses, Júlio está, o tempo todo, sem parar, se relacionando. Desconfio que Júlio faz xixi nas calças, por absoluta falta de tempo.

Urge o tempo de redefinirmos a palavra que está mais na moda no mundo: relacionamento. Amigo é coisa para se guardar em intangíveis bits.

Mas amigos, mesmo esses para os quais não dedicamos mais de 3 minutos a cada dois dias, fazem perguntas, esperam respostas, reações. Então, o jeito é ir ao sabor dos impulsos, transparentes por definição, sem pesar as palavras. A gente vai chutando as coisas, interpretando nossos relacionamentos na superfície das sensações e sem muito medo, inclusive, de mandar mensagens para as pessoas erradas ou tornar público o que poderia ser considerado intimo.

Nesse mundo fragmentado, que consumimos com crises infinitas de soluços, somos homens cebolas também nas relações. É a única proteção, inconsciente, que nos salva. A solidão é uma impossibilidade, a reflexão e a contemplação também.

Para cenaristas mais pessimistas, é o fim da individualidade. Para os mais positivos, é a re-união da espécie.

Júlio não acha nada ruim tudo isso. Não é massacrante ter que lidar com tanta gente. Anormal é perder tempo sem fazer nada. E quando a Internet cai, ele vai dormir: vai fazer o quê?