Artigos na categoria ‘Ex-crianças’

E se fosse tudo Nada?

13/06/2007 em Ex-crianças | Deixe um comentário »

As pessoas dizem que o Nada é escravo do Porquê: se a gente não acha nenhum Porque, então é Nada.

Mas o Nada é muito mais improvável do que o Porquê. Se o Nada fosse, assim, nada, Nada nem existiria. E se Nada existe, então ele é. Sem porquê.

Nada pode ser uma coisa. Uma coisa sem Porquê existe. Mas esse Nada-coisa não interessa a ninguém.

Nada pode ser um sentimento. Um sentimento sem Porquê existe. E esse Nada-sentimento interessa muito.

Para identificar esse Nada aí, é fácil. Basta sentir seu coração batucando de um certo jeito.

Se ele batuca como um metrônomo, não é um Nada, é um algo que tem Porquê.

Se ele batuca como um relógio bêbado, também é algo e seu médico vai te contar o Porquê.

Mas se ele bate sem compasso, fugindo, fugindo e nunca mais voltando, como se ele tivesse começando uma frase que nunca acaba, sem verbo, sem substantivo, só uma interminável seqüência de adjetivos que não se repetem, daí, pode bem ser esse Nada sem Porquê.

E se você ficar pendurado neste infinito rosário, você vai apalpar pedrinha por pedrinha. Vai dar aquela sensação de choro que vai aumentando muito. Parece que vai acabar e só aumenta. Mas você nunca chora. Só se chora quando tem Porquê.
Tem gente que dá outros nomes pra esse Nada. Mas dar outro nome ao Nada, mesmo os mais bonitos, os mais estranhos, os mais novos, os mais arrojados, os maiores, os mais inventados, os mais gostosos, é transformar um Nada em algo.

Pode ser que isso aconteça um dia a todos os nadas: virar algo.

Pode até ser. Mas nada é melhor que um Nada. Salve os Nadas.

A viúva

24/08/2005 em Ex-crianças | Deixe um comentário »

A viúva não tinha do que se queixar. Ainda restavam-lhe longos anos de vida, uma grande disposição e formosura suficiente para reconstruir-se um destino.

Quando seu marido foi atropelado, ela inicialmente perdeu o juízo e a compostura. Todos louvaram a demonstração de perda e mais ainda o extraordinário esforço de exibicionismo. Embora fingido – todos sabiam que seu casamento não era um idílio açucarado –, era de bom tom demonstrar claro apreço pelo falecido.

Mas, consciente do delicado tecido de fofocas no qual ela bordava seu ócio, a viúva recolheu-se para uma desejável e piedosa quarentena nas terras herdadas do falecido. Em meio a podas de begônias, tranças em campesinas e geléias de morango, seu nome, seu título e sua disponível fortuna seriam esquecidos, submergidos sob outros escândalos, passatempos e cavalgadas beneficentes.

Recolhida em seu pagode flutuante nos nenúfares, ela lia a condessa de Ségur, as irmãs Brontë, Hildergard Von Bingen, Anaïs Nin para acalmar sua abundante gulodice. Meditando aos pés do pároco surdo, ela expiava suas memórias insaciadas. Caminhando nos bosques desertos, desmaiando nas penas de gansos ou enchendo a lata na adega centenária, a viúva aplacava seus desejos censurados.

O retiro durou tempo de mais, pois, quando se viu sonhando com tabernas sujas, ruas bêbadas e marujos russos, ela retornou do exílio.

Foi em grande estilo que ela organizou seu début. Enviou cartas e presentes aos potentados, contratou os mais inventivos artesões e arquitetos, magos e outros charlatões, deitou-se por semanas com renomados maquiadores, estilistas, estetas e luxuosos picaretas, para refazer-se uma beleza irresistível. E quando as revistas já não tinham mais o que antecipar, quando os paparazzi deram chiliques e as madames faliram suas faraônicas mesadas, a viúva anunciou seu noivado a toda sociedade.

A festa foi retumbante, extraordinária, fantástica, memorável, um escândalo, um “tudo”. Detalhes inimagináveis tinham sido previstos: cisnes deslizando em lagos de mel, tapetes de pétalas de ouro, cascatas de trufas, fontes polifônicas, fogos boreais, caravanas de faunos flutuantes, danças berberes, celtas e swahilis, milenares cânticos babilônicos, declamações mântricas e chuvas de herméticos filtros.

No meio da madrugada, finalmente, a viúva surgiu com o eleito. A turma do deus-me-livre sentiu-se abusada e os minha-nossa-senhora fremiram de inveja. Era um negão cabelo ruim, nariz de boi pisou, beiçola indecente. Nem título, nem nome, nem fortuna, nem pose nem ciúmes, nem luxo nem ócio, nem partidas de críquete nem cruzeiros mediterrâneos, nem mausoléus nem sogra, nem chiqueza nem cashmeres ton-sur-ton, nem implante nem Viagra.

Um negão irresistivelmente sazonal.

Embrulhos virgens

19/08/2005 em Ex-crianças | Deixe um comentário »

Quando abri a caixa, não tinha nada. Estava completamente vazia. Como não tinha remetente, não dei muita bola.

No dia seguinte, era um envelope. Virgem também. Nem selo tinha, nem nada escrito, a não ser meu nome.

Depois recebi um saco plástico e, claro, vazio. Continuou assim por alguns dias, embrulhos de todos os tamanhos e tipos, caixas, caixinhas, caixonas, papéis de presente, elásticos também e fitas coloridas.

Passou-se um ano, um ano de uma regularidade impressionante. Vazios anônimos chegavam todos os dias, à mesma hora e era sempre uma surpresa. O que será desta vez?

Com o passar do tempo, minha curiosidade se acalmou. Era uma deliciosa rotina.

Até que desisti totalmente de tentar desvendar o enigma: quem mandava, por que mandava e se um dia eu saberia a origem daqueles embrulhos virgens.

Quando abri o correio àquela manhã, uma mão trêmula, muito diferente das etiquetas datilografadas das anteriores, escrevera meu nome num envelope pardo.

Eu logo saberia: aquela que me amava e se corroía de vergonha, aprisionada do outro lado das convenções, que não ousava desafiar seus algozes nem enfrentar o meu amor me presenteava com seu silêncio, sua desesperança, seu desejo invisível.

Por isso, não abri o envelope. Queimei. Não tive coragem de traí-la, nem a meu sonho.

A origem dos dentes

30/05/2005 em Ex-crianças | Deixe um comentário »

Para lá de antigamente, quando a Terra era bem vazia ainda, quando as árvores, os rios, as rochas, o mar e o céu eram soberanos, na confluência de dois vales apoiados na carcaça de uma desértica cordilheira, vivia um povo de cantores loiros e desdentados.

Eles viviam solitários, colhendo o próprio sustento e infantando intermináveis proles de crianças cantoras, loiras e sem dentes, como eles.

Agrupados em pequenas vilas cavadas na pedra, ao longo de um rio raivoso, quando não estavam moendo tubérculos ou fazendo amor, agrupavam-se nas varandas para cantar.

Eles não eram muitos, mas, assim mesmo, um viajante perdido naquele fim-de-mundo que adentrasse o território, seria, a qualquer hora do dia ou da noite, surpreendido pela cantoria melódica que tingia o vale de reflexos sonoros.

Eles cantavam de improviso e divertiam-se respondendo às provocações harmônicas dos vizinhos, retomando estribilhos, temas, fraseados e ornamentos num incessante diálogo.

O povo loiro e desdentado do vale não aprendera a língua falada e escrita. Eles apenas comiam, amavam-se e cantavam, acompanhando o rítmo ora frenético, ora grave do rio que serpenteava entre as rochas.

Era assim desde sempre.

Até que um dia, um dia, tudo mudou, quando, no meio de uma das famílias mais numerosas, no meio das rosadas gengivas de um pequeno garoto, um dente, um único dente despontou, alvo e frágil.

Os pais do menino acharam que era uma doença, uma pústula contagiosa. Imediatamente isolaram o menino e o dente longe do alcance dos outros e principalmente dos corais avarandados da aldeia.

Mas o dente crescia a passos largos, arrastando á sua volta mais e mais dentes até formar uma coroa de esmalte que ornou em pouco tempo a boca do garoto confinado. Ninguém reparou, ninguém notou a sua falta já que era uma família muito grande e com dotes musicais excepcionais.

E a vida continuou por algum tempo aparentemente tranqüila. O povo loiro continuava cantando, fazendo amor e comendo batatas. O menino cheio de dentes permaneceu trancafiado, sem cantar, sem fazer amor. Só comendo batatas.

Até que um dia, um dia, tudo mudou, quando, no meio de uma tarde de cantorias, no meio da desolação isolada de um pequeno garoto, um soluço, um longo soluço alçou triste.

Pouco a pouco, as vozes que ressoavam no vale calaram-se, até que um silêncio pesado se abateu sobre o murmúrio solene do rio. As cabeleiras loiras cessaram seu balançar, as bocas pararam de mastigar, e os amores interromperam seus afagos. Só sobrou mesmo o longo lamento de um garoto diferente,  um garoto loiro cheio de dentes.

Era um choro diferente, articulado, carregado. Parecia que dizia algo, que significava algo. E, apesar do espanto inicial, o povo loiro entendeu. O choro do menino falava de sua tristeza, de sua solidão.

Hoje, o povo loiro do vale não canta mais, ama pouco e abandonou a lavoura de tubérculos. Hoje o povo loiro do vale é cheio de dentes, porque um dia, um dia em que tudo mudou, um garoto diferente foi abandonado.

Brincadeira de esquina

28/04/2005 em Ex-crianças | Deixe um comentário »

Para Jean Claude

Foi numa sexta feira que tudo aconteceu. O sol ardia e as narinas penicavam. Fumaça, fuligem e aquele rugido grave dos motores. Marquinhos tinha treze anos e vendia no sinal.  Helicópteros bicolores, martelos enormes, ioiôs iluminados.

E também infláveis: um avião gorducho, um sapo transparente, um papagaio debochado. Marquinhos sambava entre os carros, desviava das motos, levantava seu zoológico por cima da cabeça para ser visto de mais longe.

Quando não conseguia vender, fazia uma cara assim, de menino pobre e maltratado, e conseguia umas moedas, uma bala. Quando não vendia nada, fazia a cara que ele tinha, de menino com fome e sujo. E quando conseguia vender um avião gorducho, um sapo transparente ou um papagaio debochado, Marquinhos não sorria nem agradecia. Corria para a calçada substituir o animal faltante e voltava para o vapor tremelicante do asfalto. Com sua cara de menino triste.

Uma garota rosada abanou para ele de dentro do carro, mas o vidro não baixou. Uma moça, jovem e dentuça acenou, mas achou muito  caro. Um senhor de bigode sorriu, mas o farol abriu. Estava difícil aquela sexta feira. Mas Marquinhos não ligava. Marquinhos não sabia nem queria ligar para aquelas notas amassadas. Ele era só um menino. Ele não ligava para os gritos do Manuel, o fornecedor de helicópteros, martelos, ioiôs e agora infláveis. Marquinhos era só um menino pobre, um menino brinquedo, um menino triste que não tem tempo para brincar.

Quando a sexta feira, aquela sexta feira acabou, Marquinhos tinha vendido três aviões e dois sapos. Nenhum papagaio debochado. Marquinhos ia apanhar. Mas ele não ligava. Ele era só um menino pobre, um menino a mais, um menino qualquer, um menino triste que não sabe nem chorar.

Foi quando tudo aconteceu. Sentado no chão, Marquinhos contava as moedas, devagar. Ele não tinha pressa para voltar. Ele não tinha pressa para o buraco do viaduto. A noite caira de repente. Viscosa, pesada, sem brilho. Marquinhos ficou ali, na rua, deserta, suja e fria, na esponja negra da noite.

Marquinhos parou de contar, e olhou para os lados. Com sua cara de menino triste. Lá estavam o avião gorducho, o sapo transparente e o papagaio debochado, conversando animadamente.

-    O que vocês estão fazendo aí, ó?
-    Ca ca ra cá, ué Marquinhos, papeando.
-    Você é papagaio, mas e o avião?
-    Vrum Vru Vrá, não sei falar mas posso voar, disse o avião gorducho.
-    Croacroacroá, não sei voar mas posso pular disse o sapo transparente.

Nesse momento, avião gorducho levantou vôo e num rodopio pousou  no ombro de Marquinhos. Papagaio debochado empoleirou-se no outro ombro e sapo transparente espatifou-se sonoramente entre as pernas do menino.

-    Cá cá rá cá, Marquinhos, você quer aprender a falar?
-    Vru, Vru Vrá, Marquinhos, você quer aprender a voar?
-    Croá croá croá, Marquinhos, você quer aprender a pular?

A noite caíra de repente. Escura, abafada, suada. Marquinhos voava, pulava e falava. Como avião gorducho, sapo transparente e papagio debochado.

-    Marquinhos cadê a grana, moleque?

Marquinhos aterrissou, pesado, no chão.

-    Só isso seu trombadinha?!

Marquinhos, o menino triste apanhou. Marquinhos, o menino feio não chorou. Marquinhos, o menino pobre não ligou.

Marquinhos, o menino triste que não sabia chorar, que não sabia brincar, aprendera a sonhar.

Baile das Índias Orientais

01/02/2005 em Ex-crianças | Deixe um comentário »

To little Gary

No canto da esquerda, entre Balzac e Perrault, ele vivia, aprumado, mantendo a guarda sob o capacete vermelho, mãos na espingarda. É que ali, logo atrás do pequeno relicário de madeira, dormia seu tesouro encantado num cofre dourado. Marechal sempre controlara, anos a fio, sua curiosidade. Mas a disciplina de quartel não permitia tamanha indiscrição e o cofre permanecia selado. Ainda naquele pequeno espaço, onde acotovelavam-se outras histórias, residiam uma bala de vidro, um delgado caçador africano e a luneta de ópera.

No extremo oposto, apoiada em pesados volumes, Paloma soluçava.

E logo acima, três cavaleiros Jedi duelavam. Abaixo, um buda sereno contava as pétalas da flor de lótus que acolhia suas nádegas. Mas no edifício também residiam outros tantos hóspedes, esquecidos, solitários e estáticos. Lembranças, amuletos, e retratos, bibelôs quebrados, brinquedos enferrujados. Objetos tristes entre livros cerrados.

Uma noite. Era noite sim. Talvez fosse um ária famosa de Haydn que despertou. Fez-se também uma luz que, flutuando nas fantasias, espalhou a excepcional nova. À noroeste a agitação crescia. Um clima de arrumação reinava.

Uma fada comandava: “Poltronas enfileiradas, piano afinado, mesa posta, lustres brilhando de mil fogos do Olimpo. Vamos logo com isso, os convidados vão chegar”.

No centro, bem no centro, a velha preparava o baile.

Aos poucos, os vizinhos debruçaram-se pelas prateleiras. O que a velha estava aprontando?

Reclusa em sua fantasia de porcelana, a fada convidava para o baile da Companhia das Índias Orientais, com pompa e fartura. O salão era redondo, ornado de arabescos azuis e mil detalhes floridos em relevo dourado.

Marechal saiu de sua vigília, Paloma secou as lágrimas com o punho de pena. E com grande esforço, venceram os obstáculos da natureza rígida dos objetos. Arrastando-se por entre páginas amareladas e memórias náufragas, hipnotizou-lhes o encantamento.

Logo se viram, ao entrar no baile. Paloma, tímida, sob uma guirlanda azul; Marechal, imóvel, sob outras tais.

Sorriram, piscaram, enrubesceram. Aproximaram-se, cochicharam impronunciáveis resmungos, tocaram-se. E rodopiaram sem fim.

Amaram-se, uma noite para sempre, na grande estante errática da sala.

Babi e Cacá

21/01/2005 em Ex-crianças | Deixe um comentário »

A borboleta Babi apaixonou-se por Cacá. Foi uma paixão daquelas meio forçadas. É que a Babi já tinha passado da idade de casar; portanto, ficava enamorada com tudo o que voasse e tivesse pressa: colibris, abelhas e até helicópteros.

Era perto das onze da manhã e o sol escorregava sem convicção pelos eucaliptos. Babi caçava, tonta. Aqui, ali, acolá. De decepção em decepção das alturas, ela voava baixo. Foi quando avistou Cacá, um besouro verde, com tanta virilidade que fez Babi tremelicar até a ponta das asas e esquecer a modorna do coleóptero.

Babi, cada vez mais aflita com o atraso, posou-se, sem temores, no chifre de Cacá, e com graça lançou-lhe um “Oi, queridinho”.

Cacá, besouro experiente, fez-se de “não é comigo”.

Claro que Babi não percebeu o jogo e insistiu:

-    Calor, não?

Cacá ficou mudo e continuou sua caminhada pesada com Babi trepada no chifre.

-    Como você se chama, gato?

Finalmente Cacá respondeu sem entusiasmo.

-    Cacá
-    Eu, Babi. Calor, não?
-    É
-    Você faz o que na vida, bonitinho?
-    Sou coletor.

Babi ficou encantada com a profissão do seu novo amigo e, para enveredar a conversa em um terreno mais romântico, acrescentou:

-    Que interessante! Eu também! Coleto pólen, cores e juras de amor. E você?
-    Merda, bosta e cocô.

Babi não perdeu a classe e, engolindo um cagejado “interessante”, lançou-se em outro tema:

-    Você tem namorada?
-    Não.

Babi animou-se com a resposta e corou.

-    Você já teve alguma?
-    O que você acha?
-    Que não.
-    E esse chifre, então, o que é?
-    Um lindo chifre.
-    Lindo? Olha aqui dona borboleta, a minha namorada me colocou nesta situação, tá entendendo agora?

Babi não entendeu nada, mas assim mesmo insistiu.

-    Um chifre desse não é fácil de carregar, não é mesmo?
-    Não mesmo.
-    Você deve ser muito forte.

Cacá tocou-se com a sensibilidade de Babi.

-    Tem que ser sim.
-    Eu gosto de pessoas fortes.
-    Você não se importa?
-    Com o quê?
-    Que eu carregue um chifre desses?

Babi novamente não soube o que responder e simplesmente escorregou um: “Acho lindo”.

-    Mas dói. Dor de corno, sabe?
-    Imagino, Cacá.
-    Não é fácil, sabe, a maldita, a safada. Eu não esqueço, sabe?
-    Mas como poderia esquecer tanto peso, tanta dor?

Aconteceu assim e Cacá amou Babi que já amava Cacá.

E daí que os mal-entendidos eram subentendidos e os subentendidos, mal-entendidos?

Branco

07/12/2004 em Ex-crianças | Deixe um comentário »

O campo também estava branco, todo branco. Tão branco, tão branco, que nem dava para ver a fronteira entre o céu, a terra e as coisas todas entre eles.

Fazia muito frio naquele dia. Nem chovia, nem ventava, nem nada, mas o sol dava-se em tom de desafio. Quando ele despontou no horizonte, entre as duas árvores que se abraçam no leste, a claridade reverberou no gelo que aprisionava a casa. Uma bainha assimétrica enforcava-se ao longo do beiral, e as paredes escorregavam de luz.

Um fantasma cavalgava naquelas paragens e avistou o refúgio. Quando chegou próximo da cerca, apeou, acendeu um cachimbo e fumegou um bocado. Ele percorrera muitas léguas, mas não estava cansado. Só com um pouco de nostalgia ao avistar o naufrágio da mansão quase submersa.

Finalmente ele atravessou a porta e penetrou na casa. O espetáculo que se esculpiu diante de seus olhos encheu de lágrimas o peito do cavaleiro. Anos de abandono cristalizaram ambientes e memórias.

O fantasma percorreu o espaço, arrastando suas lembranças nos móveis, no piano que desafinara seus amores, no lustre bailarino de noites fulgurantes, nos tapetes que abafaram gozos proibidos.

E lá, na cômoda petrificada, diante da coleção de saudades, o conde penado deitou seu corpo oco. E chorou lágrimas de fantasma. Lágrimas sem calor.

Nas estepes de cristal que o sol empalidece, um lençol branco percorreu destroços frios. Tão brancos, tão brancos.

Ele e o resto

06/12/2004 em Ex-crianças | Deixe um comentário »

O mundo que ele via era todo remendado de arame quadriculado. A rua, as árvores da calçada, os passantes, os carros e outros animais. Mas, quando ele dava as costas para esse quebra-cabeças, a visão era coesa e uniforme. As plantas do jardim abraçavam-se em comunhão com a casa, o céu, a terra e tudo que ele via.

Cedo ele concluiu que, para cá da cerca, era ele e, para lá, era o resto e os outros. Sua consciência era assim delimitada pelas fronteiras da casa. Esta propriedade dava-lhe o direito de ir e vir livremente. E todos os dias ele aprendia os limites de seu ser: subir nas árvores não era possível, nem entrar na casa, quando chovia. Também não dava para voar no céu, nem morder os gatos que passeavam pelo telhado. Mas, em compensação, ele podia enterrar ossos, dormir no sol e também esgueirar-se pelas pernas que cruzavam seu caminho.

Alguns fenômenos, no entanto, eram estranhos à sua compreensão. Por exemplo, o carteiro que ora pertencia ao resto, ora a ele. Por isso, quando o cão foi invadido pela primeira vez por aquele corpo amarelo estranho, ele debateu-se todo, mordeu e conseguiu expulsá-lo. Ou, ainda, outra esquisitice da natureza ocorria quando alguém da casa saía para a rua e, de repente, era expelida de sua consciência para quadricular-se toda. Esses fluxos eram um mistério muito atraente. Por isso, ao primeiro sinal de interferência, campainha ou buzina, o animalzinho armava-se para lutar, latia, mordia o vento, pulava na cerca.

Foi assim quase a vida inteira: preservando a sua consciência e deixando o mundo, o resto e os outros, no seu devido lugar.

Só deu tudo errado, quando o cão escapou pelo portão. E foi, a partir de então, que ele soube que era possível transcender-se.

Era assustador e, por isso, ele sempre voltava.

Mas era bom demais e, um dia, foi-se o cãozinho ser um com o mundo, o resto e os outros para nunca mais voltar.

Eleflight

26/11/2004 em Ex-crianças | Deixe um comentário »

Era um elefante alado que adorava passear pelas trepadeiras do jardim.

Ora, mas ele tinha o defeito desnaturado de assumir a cor das corolas que chupava. E nos dias de primavera, quando as glicínias, lágrimas-de-cristo, jasmins borboletas e congéias floresciam, o elefante ficava alaranjado, vermelho, branco, rosa, ou arco-íris quando a fome era grande.

Mas esse era apenas um pequeno defeito. Com o tempo, todo mundo acabou se acostumando com a digestão cromática do elefante. E não é que ficava uma beleza o jardim com o Proboscídeo colorindo os ares?

No entanto, o bicho também tinha outros mais graves sinais de estranheza. Por exemplo, sua voz de soprano ligeiro que ele desembrulhava em vocalises agudíssimo. Os gafanhotos, coitados, davam pulos de susto! Sem falar do jabuti. Com tanta tensão sonora, ele ficara anoréxico.

Além dessas particularidades, o elefante era sonânbulo e atormentava as mariposas com suas incursões descontroladas nas arandelas do terraço. Porque, como se não bastasse, ele tinha espírito de porco e sempre rodava em volta da luz, no sentido contrário das bruxas. Elas perdiam o norte, coitadas.

Tinha mais coisa. Ele jogava críquete. Já imaginaram o formigacídio que isso causava? O elefante também era um livre-pensador, laico, antipapista. Não precisa falar da raiva dos louva-a-deus! Para finalizar, o animal se apaixonava diariamente. Até por moscas e aranhas ele caía de amores. Que coisa!

Era, como dizia seu Manuel, o jardineiro: um elefante atrapalha. Um elefante voador atrapalha muita gente.

Era uma vez

16/11/2004 em Ex-crianças | Deixe um comentário »

Era uma vez, uma princesa da Dinamarca que se apaixonou à revelia de toda a família, dos compromissos políticos e também da ciência. Mas foi daqueles amores que não se pode conter. Cada vez que o galgo branco saía no jardim, o coração da menina saltava como um feijão mexicano. O cão também não escondia sua devoção. Latia e se requebrava só de farejar o perfume de lavanda almiscarada da pequena.

Inocente em flor, Kátia confidenciava suas juras até nos corredores do palácio. Logo a notícia chegou aos ouvidos reais. Seu pai, já velho, pouco duvidou das intenções da princesa. Afinal, ele também tivera outrora uma grande paixão eqüina e amargara a pilhéria da corte por isso. A rainha também caíra de amores por um papagaio bem como todos da dinastia anterior por animais diversos. Era, pode-se dizer, comum, embora perigoso.

Contava-se, por exemplo, que o avô da princesa fora banido do reino, ao assumir sua incontrolável paixão por uma cabra montanhesa. O mesmo com sua esposa e o tamanduá real do zoológico. Era uma maldição ancestral e, para prevenir o futuro sombrio de Kátia, o rei encarcerou a pequena na torre do castelo de inverno, guardada por mudos guerreiros. Seu destino estava selado, até que o alvo de suas taquicardias fosse comprovadamente eliminado.

Quanto ao pobre galgo, ele fora levado ao cadafalso e, para não levantar suspeitas, a execução teria lugar numa província deserta e longínqua. No entanto, na hora de pisar no patíbulo, foram tantas as lágrimas do cão, que elas inundaram o coração enregelado do executor malvado. Assim, redimindo-se de mais um pecado, o carrasco degolou um pau de cedro que ele cuidadosamente esculpira à imagem do galgo.

O crédulo rei reconheceu a petrificada criatura como prova da morte canina e, com grande pompa, liberou a princesa.

Não fosse essa uma história, assim findaria o destino de Kátia. Mas, nesses tempos perdidos, as lendas tinham outro fim.

O cão apaixonado cavalgou anos pelas planícies brancas, décadas. A pequena princesa amargou um casamento humano durante anos, décadas. O rei um dia morreu, e o degolador virou monge.

Nas condolências reais, o drama findou por obra do carrasco, que anunciou sua desobediência. Nesse instante também o pequeno galgo ressurgiu. Ele jogou-se esquelético aos pés de Kátia, que desmaiou nas suas rendas enlutadas.

Não fosse essa uma história, aqui terminaria o idílio de Kátia e o galgo. Mas, nessas eras sem testemunho, as lendas não tinham fim.

O galgo, reanimado pelos pajens, declarou-se à Kátia, que pediu bênção aos sisudos cardeais. Só que não deu certo, por causa dos dogmas. O galgo foi levado aos ferros e Kátia, à Patagônia.

Sendo essa uma história, cá terminam as palavras. Sendo essa de amor, foram-se outras e muitas vezes mais, sem fim.

Causa de quê?

05/11/2004 em Ex-crianças | Deixe um comentário »

Marta achou tudo aquilo estranho, mas não esquentou. Mesmo quando ela acendeu um cigarro e nenhuma fumaça saía de sua boca, mesmo quando ela não se enxergou no espelho. Até de tomar banho e não sentir frio, nem ficar molhada, nem cheirosa. O sono estava aprontando com ela.

Já vestida e, apesar da saia cair, mesmo apertada na barriga, só ficou de fato espantada quando empurrou a porta da cozinha com os ombros e deu de cara com a rua.

Aquilo já não era porque dormira pouco ou mal. A cozinha tinha sumido. Assustada, ela fechou-se com pressa na sala e, sentada no chão, começou a raciocinar. Mas, apesar de todas as lógicas e desculpas, nada se encaixava. E muito menos a falta de sombra ao pé da jabuticabeira, o livro voando a poucos centímetros do chão e o sumiço de Gibi, seu gato.

Marta rezou um pouco. Gritou, mas nem som saiu e, quando cerrou os dentes, sua voz se pendurou no teto com letras enormes. Não é que nada acontecia. Acontecia, mas diferente.

É que o tempo se rebelara contra as causas e seus efeitos. Culpa da Marta: era só olhar, pensar ou querer, que tudo se atrapalhava. A observação mudava o efeito da causa. Era isso.

Uma hora, já noite, uma idéia despencou-lhe no colo. Sabe-se lá de onde. Simples, cristalina: “É só não provocar, que não acontece”. Foi o que Marta fez, e tudo entrou na normalidade. Só restava resolver o problema de como acordar sem causar nada.

Mas como não dava para dormir eternamente, no dia seguinte, tudo continuava estranho, porque causar era mais forte do que Marta. E os efeitos continuavam desordenados, voluntariosos, excêntricos.

Paciência.

Marta contentou-se com isso. Assim. Pelo resto da vida.

De casualidades em casualidades, ela sobreviveu. E o único efeito causal do resto de sua vida foi quando ela morreu.

Campo fértil

28/10/2004 em Ex-crianças | Deixe um comentário »

O espaço era vasto, descampado, uma árvore penada aqui, outra muito adiante, e a vegetação rasteira, queimada pelo sol, cobria toda a terra de espinhos e galhos retorcidos. O campo escondia-se deserto além dos subúrbios, como uma alma aprisionada.

Mas por vezes, nem tão raras, a área banida era tomada de grande agitação. Nesses dias, logo cedo, um vai-e-vém de operários sacolejava o ambiente, edificando magros patíbulos em horrenda simetria.

O país alternava guerras com epidemias, epidemias com loucuras, loucuras com sacrifícios, sacrifícios com guerras, havia séculos. E, pontuando o rotineiro ciclo, os monarcas faxinavam, com vinganças exemplares, inimigos, desenganados e mártires. Duzentas, trezentas, certa feita mais de mil forcas espetavam o solo do campo de San Genaro.

O populacho, raivoso ou submisso, celebrava esses mórbidos eventos com barulho e fé. De frente para o nobre palanque das autoridades, ele aguardava, febrilmente, o início das festividades. E, quando o cortejo de carruagens ferradas finalmente despontava do portão da cidade, em reverência, um enorme silêncio tronava na última morada dos enforcados.

Tudo era muito rápido e, numa ensaiada engenharia, os condenados eram alçados aos cadafalsos, trajados de toscos mantos e trazendo no pescoço suas acusações. Traição infiel ou fornicação adúltera, a sentença era a mesma. A morte. O santo pároco discursava nesse momento, lamentando a escolha errada dos coitados e imprecando o perdão divino. Em mágica sincronia então, os inimigos eram arremessados das cordas. Em instantes entregavam a alma, sem lágrimas. O povo assim saciado, retornava aliviado e amnésico. Ficava o campo novamente nu, balançando seus campanários de carne no vento.

O que ninguém via, o que nem suspeitava o povo, no entanto, era do troco dos mortos, tão certo quanto a lavada consciência dos vivos.

O sêmen escorria das pernas dos enforcados e abeberava o solo. Duzentas, trezentas, certa feita mais de mil ejaculações davam a vida.

E dias depois, mandrágoras furavam a terra dura, espalhando no campo sua muda herança. E dias depois desses, homúnculos saltavam da terra dura, espalhando no mundo sua degradante vingança.

Floresta assassinada

27/10/2004 em Ex-crianças | Deixe um comentário »

Soou volumoso, persistente, profundo, monódico. Uma única nota a ricochetear nas copas. O caçador anunciou assim o final da caçada.

Aos poucos o tropel de cavaleiros perfurou a floresta, manchando o plácido cenário de pinceladas rubras. Alguns cantavam, outros discutiam, um mar de cachorros se esparramava pelo campo e, mais atrás, uma horda de serviçais transportava o fabuloso butim. De carne feridas, sanguinolentas, doídas.

E quando descansou das febres bárbaras, um ponto silencioso, solene, fúnebre emudeceu a mata. Nem lamento de órfãos, nem descabelos, nem desesperos.

Assim, depois da carnificina ignorante, a morte suspende o tempo, o medo paralisa.

Quando a dor é enorme, gigantesca, do tamanho de uma floresta inteira, chorar é vão desperdício. Rezar, arrazoar e morrer, também.

Ou talvez cantar um infinito suspiro. Para continuar a viver, por falta de opção.

Aquele abraço

22/10/2004 em Ex-crianças | Deixe um comentário »

Ele me deu um abraço muito forte. Quase me amassou inteiro. Foi uma sensação estranha, quase perdi o fôlego e, para sobreviver, abri a boca em desespero, sobre seu peito peludo. Finalmente ele me soltou e reencontrei o solo com a ponta dos pés.

Foi tudo tão de repente e tão gigantesco, que, quando olhei para ele, não tive muito tempo de raciocinar e tirar conclusões. Nas minhas narinas, aquele cheiro acre me embriagou.

Afastei-me do urso e voltei alquebrado para o carro.  Devagar. E, quando finalmente me sentei no banco, comecei a tremer da cabeça aos pés. Ali me dei conta do perigo, retrocedi no tempo e quase desmaiei.

Mas aos poucos fui me acalmando. Afinal eu tinha sobrevivido ao ataque do urso. Agora era só voltar para casa, e, quem sabe, contar para os amigos aquela fantástica experiência.

Enquanto eu estava no meio dessas prosaicas conjecturas, ele reapareceu a meu lado, toque-toque no vidro. O urso negro estava lá. Dei um grito, ele urrou. Me escondi embaixo do volante, ele atrás de uma árvore.

E o jogo continuou. Eu me recuperei e ele reapareceu, toque-toque no vidro. Gritei e ele fugiu. E de novo, uma, duas, três vezes.

Finalmente me cansei daquele jogo e, quando ele toque-toque da quarta vez, abri a porta e desci.
Que fosse o que Deus quisesse.

O bicho me encarou, eu também. Ele abriu a boca, sorri para ele. Ele dobrou o focinho sobre o peito, eu fiz uma careta com as sobrancelhas. Ele avançou uma pata, eu, a mão direita. Dei um passo em sua direção, ele se ajoelhou. Deitou-se e eu sentei. Ficamos assim, longos minutos, olhando um no olho do outro.

Bem que a gente se deu. Urso é muito gente, sabe?

Dias depois eu voltei à floresta. Lá estava ele, com Dona Ursa e a molecada, me aguardando para um piquenique de mel e salmão.